O génio fica

Que se esqueça o ícone, aceita-se. Mas não esqueçam a música, a inacreditável habilidade de usar a voz como instrumento, de brincar com as palavras, de trabalhar o ritmo.

No início da década de 1960 José Afonso começa a libertar-se do fado de Coimbra, de que tinha sido intérprete, criando canções em que a guitarrra portuguesa não tinha lugar. Trabalhou a balada numa série de singles e a canção política, como é notório em “Os Vampiros”. Mas só em 1968, com “Cantares do Andarilho”, conseguiu fazer um LP em que explorasse do princípio ao fim a demanda de afundar na tradição e vir à tona com nova música na boca. Ouvindo hoje o disco é difícil aos mais novos identificar nele qualquer ideia de ruptura. Para nos apercebermos da cisão que Zeca traça aqui com o passado é vital recordar que até então a música portuguesa era dominada pelo fado e pelo nacional-cançonetismo – e que o folclore, sendo ocasionalmente gravado e bastante ouvido pelo povo, carecia de exposição e legitimação. “Cantares do Andarilho” é acima de tudo um disco de baladas mas, por exemplo, em “Saudadinha”, que (pasme-se) é resgatado da tradição açoreana, ainda há marcas da da anterior incursão de Zeca pelo fado, seja no ataque de Rui Pato à viola, na projecção da voz e nas pausas na linha melódica. O brilhantismo de Zeca chega logo ao primeiro tema, “Natal dos Simples”: há uma perfeição tímbrica admirável, um ligeiro falsete no fim de cada frase, controladíssimo, qualidades postas ao serviço de uma melodia inventiva, quase infantil na sua capacidade de brincar com as sílabas e o ritmo. Onde é que Zeca foi buscar isto? Ouça-se o primeiro tema tradicional do disco, “Resineiro engraçado”: do registo melódico quase pueril, ao ritmo saltitão passando pelo uso de vocábulos inesperados (“ó i ó ai”), está lá muita coisa. Mas isto não explica “Canção de Embalar” (cujo título denuncia a raiz de uma parte desta música) ou “Vejam Bem” – dois temas extraordinários em que a voz de Zeca adquire uma tonalidade assombrada, uma tristeza infinda que regressaria, vez após vez, aos seus discos.
“Contos Velhos Rumos Novos” (1969) tem título ajustado, pois Zeca não quis repetir as ideias que lhe haviam ocupado os anos anteriores. O trabalho com as palavras torna-se ainda mais aprofundado, o que explica em parte o menor número de temas com música e letra originais: “Bailia” parte de uma trova do século XIII, “No Vale de Fuenteovejuna” usa palavras de Lope de Vega (um dos fascínios de Zeca, que sempre se interessou pela cultura espanhola) e ainda há, além dos temas populares, letras de Luís de Andrade (a arrasadora “Era de noite e levaram”) e Ary dos Santos (“A cidade”). Em algumas das faixas compostas por Zeca vê-se para onde a escrita dele estava a ir, em particular no maior peso rítmico de “Vai, Maria, vai” e “Era de noite e levaram”. Logo no tema de abertura, “Bailia”, a trompa concede maior riqueza rítmica. Em outras faixas existe ainda cavaquinho, harmónica (pungente e perfeita em “A Cidade”) e as marimbas que (e talvez seja arriscado dizer isto) africanizam “Já o tempo se habitua”.
Quando José Afonso chega a “Traz Outro Amigo Também” (1970) é um compositor feito – e a prová-lo está a altíssima percentgem de temas exclusivamente seus no disco. Ocasionalmente ainda se sentem as marcas do passado fadista (ouça-se “Maria Faia”), mas o seu talento para manipular a tradição aprimorara-se, como é visível na espantosa “Canto Moço”. Na faixa homónima ao disco Zeca produzia uma balada dulcíssima; em “Carta a Miguel Djé-Djé” fazia uma homenagem a um seu antigo empregado dos tempos de África e são claras as influências africanas no canto. A sua revolta interior é traduzida em dois temas tristíssimos, rasgados por dentro, como “Epígafre para a arte de roubar” e “Moda do Entrudo”. Em “Os Eunucos” volta a criar um libelo político duríssimo. Perante tudo isto não é difícil concluir a imensa variedade musical e lírica de que Zeca já era capaz.
Zeca tem então condições para fazer um disco com Zé Mário Branco como produtor, e uma cada vez maior amplitude instrumental: “Cantigas do Maio” (1971). Logo em “Senhor Arcanjo” percebe-se que África estava para durar na obra de Zeca: as percussões, o baixo a rolar a guitarra repetitiva, isto quase lembra o Caetano de “Transa”. “Ronda das Mafarricas” está em ligação directa com esse som e África surge igualmente em “Maio, maduro, Maio” – não de forma explícita, mas no uso lúdico dos vocábulos a seguir ao refrão, uma ideia que encaixa de forma gloriosa no tom pastoral do tema. Agora ouça-se o tema que dá nome ao disco: como é possível passar de “Senhor Arcanjo” para esta tristeza trespassada pela morte, como? Podiam escrever-se tratados sobre “Cantigas do Maio”, a canção: sobre a figura (de acordeão?) que abre o tema e instala logo um negrume infindo; sobre o modo como o mesmo acordeão cavalga no refrão e a tristeza torna-se rebuliço, tumulto interior; sobre esse medo de morrer que não arreda de nenhum compasso. “Cantigas do Maio” é um disco tão extraordinário que por vezes há quem esqueça temas como “Canto alentejano”, entalado entre “Milho verde” e a sequência “Grândola, vila morena” e “Maio, maduro, Maio”. Mas ouçam o cuidadíssimo trabalho de viola e a voz de Zeca, as suas subidas arrepiantes, a forma como segura uma nota lá em cima em vibrato. Isto é a técnica (ainda com resquícios de fado), o talento, aos serviço da emoção. Quase dói pensar que a seguir vem aquele coro de “Grândola, vila morena”, capaz, ainda hoje, mesmo sem pensar em política, de arrasar o mais cínico. Que depois de tudo isto o disco ainda feche com uma canção da grandeza de “Coro da Primavera” – quase nem parece deste mundo. Os sopros têm uma dimensão teatral mas as percussões introduzem uma leve nuance africana; depois o refrão namora com o cante mas o órgão parece saído do psicadelismo. Se quiserem, essa canção serve como símbolo de como Zeca não era redutível à imensa música que tinha ouvido e amado.
Terceira obra-prima seguida, “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972) abre com “A morte saiu à rua”, cujo arranjo de sopros ecoa as aventuras do tropicalismo. Mas o tema assenta em voz, viola e percussões e é impressionante o balanço que estes três instrumentos alcançam – um balanço igualmente presente em “Sete fadas me fadaram”. O carácter político de “A morte saiu à rua” retorna no experimentalismo de “O avô cavernoso” (que tem ligações musicais com “Ó Ti Alves”), na viola de traços africanados de “No comboio descendente” e em “Eu vou ser como a toupeira”, feita de um adufe e voz. Já o lado mais doce de Zeca está presente em “Fui à beira-mar” e em “Ó minha amora madura”. O seu ludismo é notório na brincadeira achinesada de “É para Urga”.
Por esta altura era notório que Zeca conseguia fazer uma canção com qualquer coisa. Ou, mais propriamente, com tudo. Já não havia definição para a sua música, já não recorria a géneros musicais, já tinha inventado um mundo. Que se esqueça o ícone, aceita-se. Mas não esqueçam a música, a inacreditável habilidade de usar a voz como instrumento, de brincar com as palavras, de trabalhar o ritmo. Porque Zeca era, de facto, um caso único de sobredose de talento.

João Bonifácio | Ípsilon

some_text

Deixe um comentário

Zeca (2)

QUEM SOMOS


disco

SER SÓCIO


LOJA


escritasdomaio

ESCOLAS


materiais

EXPOSIÇÕES

SUBSCREVER NOTÍCIAS


Categorias

Arquivo



RÁDIO AJA

Here is the Music Player. You need to installl flash player to show this cool thing!


© 2019 AJA. All Rights Reserved. Iniciar sessão - Designed by Gabfire Themes