José Afonso, cantares de um andarilho

Texto de Augusto M. Seabra publicado no “Expresso” a 29 de Janeiro de 1983, dia do último concerto de José Afonso, no Coliseu dos Recreios de Lisboa.

O concerto de José Afonso, hoje, no Coliseu, é um acontecimento excepcional. Um acontecimento que no entanto deve ser tratado nos seus exactos termos, isto é, dum músico, poeta e cantor que, finalmente, se apresenta num concerto pensado como tal.
Por si só, o atraso com que este concerto se verifica é sintomático dalgumas das contradições que pesam sobre José Afonso, sobretudo o sobrevalorizar da componente política “de protesto”, “de intervenção”, sobre os aspectos poético-musicais.
Ele foi (é) de facto, um símbolo de transformações na canção e mesmo – pela associação entre o seu tema “Grândola, Vila Morena” e o 25 de Abril no processo histórico-político; a opção de se ligat fundamentalmente a certas tendências e lutas foi sua. Em nenhum caso se poderá no entanto esquecer o dado primeiro: ele não teria uma tal importância se não fosse o músico que é.
Ao olhar principalmente para o passado discográfico de José Afonso não pretendo reduzi-lo a um valor ultrapassado, mas sim analisar sinteticamente aquilo que o distingue. Se opto por abordar fundamentalmente o período anterior ao 25 de Abril, é porque creio que apesar dalguns temas (por exemplo, “Teresa Torga” do álbum ComAs Minhas Tamanquinhas), ou da opção possível que era o lado A do álbum Fura, Fura (integralmente preenchido com as canções que fez para o espectáculo Zé do Telhado da Barraca), não só há posteriormente uma certa indefinição da sua obra, como ela foi afectada por problemas técnicos e contratuais que não são da sua responsabilidade.

DO FADO À BALADA

Começou ele no fado de Coimbra (como nos recordaria o disco que, inesperadamente talvez, gravou em 1981), ou seja, numa tradição musical urbana perfeitamente circunscrita, o que é caso raro, já que por definição aquele tipo de tradições tende a miscigenar-se.
A especificidade do fado talvez explique algo do percurso singular que seria posteriormente o de José Afonso. Num dos mais belos discos portugueses que conheço, Baladas e Canções (de 1967), ele estava ainda dependente do fado – sobretudo no estilo vocal- e ao mesmo tempo já para além dele, num espírito algo trovadoresco em que o lirismo melódico dominava, mormente em temas como “Canção Longe, Os Bravos e Trovas Antigas”.
Era ainda, como era apresentado, o Dr. José Afonso (com tudo o que isso tem de coimbrão), que se encontrava com o que seria durante muito tempo o seu companheiro na viola, Rui Pato.
Dessa altura e dos anos seguintes, fica-nos sobretudo um José Afonso “cantor de protesto” (“Os Vampiros”, “Menino do Bairro Negro”) ou ainda muito ligado a Coimbra (“Menino de Ouro”), que foi progressivamente incluindo no seu repertório canções populares rurais. Entre a produção desse período, registada sobretudo em EP”s, um tema como “Canção do Mar”, é no entanto já revelador, quer no aspecto vocal, quer no instrumental, duma consciência de que a ideia poética se concretiza também no tratamento musical.
O José Afonso que mais directamente conhecemos é no entanto o que surge em finais dos anos 60, e quando do contrato com a etiqueta Orfeu, numa série de álbuns iniciados com Cantares do Andarilho. A voz está mais segura, encorpada, e sobretudo há um notável recriar (por vezes, em autênticas paráfrases) de linhas melódicas tradicionais. Nos sete álbuns editados durante esse período, até Coro dos Tribunais (publicado já após o 25 de Abril, mas que conclui o período), creio que se podem distinguir fundamentalmente duas faces:
a) Uma, directamente iniciada com Cantares do Andarilho, prossegue nos álbuns seguintes, Contos Velhos, Rumos Novos e Traz Outro Amigo Também – embora neste, Carlos Correia (Bóris) substitua Rui Pato na viola, alteração relativamente importante – e é retomada mais tarde, já após Cantigas do Maio, em Eu Vou Ser Como a Toupeira.
b) A outra concentra-se fundamentalmente nos dois álbuns com arranjos de José Mário Branco, Cantigas do Maio e Venham mais Cinco, e prossegue ainda no trabalho com Fausto em Coro dos Tribunais.

TRADIÇÕES POPULARES

A diferenciação não é absoluta porque alguns dos temas dos discos da primeira faceta ligam-se estreitamente à segunda, mas creio que é pertinente sobretudo se se atender a que a simplicidade melódica dominante da primeira é substituída na segunda por uma certa luxúria e invenção sonora, ligadas a diferentes características poéticas.
Digamos que a primeira faceta é ainda e sobretudo um prolongamento da balada, com um encontro directo com tradições populares, e expressa-se sobretudo em temas como “Natal dos Simples”, “Tecto na Montanha” e “Vejam Bem” (todos de Cantares do Andarilho), num hino como “Canto Moço”, no belíssimo tema que é “Traz Outro Amigo Também” (ambos do álbum com o título do último). Um caso à parte é “A Morte Saiu à Rua”, de Eu Vou Ser Como A Toupeira. Caso à parte porque, suponho, só o facto de José Afonso ter sido escolhido, por leitores dum jornal (o Diário de Lisboa) como representante de Portugal num Festival da Canção (do Rio de Janeiro) e ter escolhido apresentar-se com essa canção, permitiu a sua posterior gravação. Caso à parte porque, sendo uma das mais liminares “canções de protesto” (é uma homenagem a José Dias Coelho, militante comunista assassinado pela PIDE, com uma simbologia tradicional – “a foice duma ceifeira”, “o som da bigorna”), sobreleva todas as outras na sua qualidade musical.

O DISCO MAIOR

Creio ser no entanto na outra faceta, e no que a ela se liga, que se encontra o mais original José Afonso. Será de recordar os discos que a assinalam.
Cantigas do Maio é evidentemente o disco maior e que melhor sintetiza o músico (ocorre-me que há uns anos, quando o disco foi votado por críticos como o melhor álbum português de sempre, José Afonso reagiu algo mal, falando em que isso seria social-democrata – não percebo porque é que o seria uma tal constatação da qualidade musical, a não ser como elogio à social-democracia, o que não era evidentemente o objectivo).
Se exceptuarmos “Mulher da Erva” (de forçado bucolismo), todos os temas são notáveis. A componente política combina-se com um excepcional trabalho vocal em “Cantar Alentejano”, com a fraternidade coral em “Grândola, Vila Morena”. “Milho Verde” prossegue o reportório de temas populares, ligando-se a “Cantigas do Maio” que, com “Maio, Maduro Maio” e “Coro da Primavera” representam uma vertente sempre importante na obra de José Afonso, o do retomar simbólico do ciclo natural das estações. Propositadamente, deixo de fora, por enquanto, “Senhor Arcanjo” e “Ronda das Mafarricas”.

IMAGINÁRIO DO ABSURDO

É que penso que essas duas canções, como aliás outras anteriores, sobretudo a titular de Cantares do Andarilho e ainda “Sete Fadas Me Fadaram” e “O Avô Cavernoso” (de Eu Vou Ser Como a Toupeira), e outras posteriores, como “Tenho Um Primo Convexo” e “A Presença das Formigas” (de Coro dos Tribunais), se ligam directamente com o que me parece o álbum mais pessoal de José Afonso, Venham Mais Cinco, constituindo o que ele tem, musical e poeticamente, de mais original, e muitas vezes, de esquecido.
Originalidade que se revela na excepcional adequação entre os poemas de António Quadros (Pintor), poemas mágicos de bruxas e fadas, em que está latente a sombra dum imaginário africano, entre esses poemas, e a forma como José Afonso os musicou – é “Cantares do Andarilho”, é “Ronda das Mafarricas”, é “Sete Fadas Me Fadaram”.
Essa adequação liga-se directamente com características importantes nos próprios poemas de José Afonso e nas suas músicas. Neles se manifesta um imaginário do absurdo, do “non-sense” algo surreal, com constantes referências animalísticas, antropofágicas, físicas e matemáticas. São poemas como: “Senhor Arcanjo/Vamos jantar/Caem os Anjos/Num alguidar/Hibernam tíbias/Suspiram rãs/ Comem orquídeas/Nas barbacãs”, “Era um redondo vocábulo/Uma soma agreste/Revelavam-se ondas/Em maninhos dedos” (“Era um redondo vocábulo”, seguramente uma das suas mais belas e inventivas canções); “Tenho um primo convexo/Fadado para amnistias/Em torno de ele nadam/ Plantas carnívoras/Agitando como plumas/ As cordas violáceas”; “A presença das formigas/Nesta oficina caseira/A regra de três composta/Às tantas da madrugada”.
Musicalmente, este imaginário afirma-se na fusão entre a inventiva melódica e o recurso, mais rímbrico que rítmico, a percussões africanas e brasileiras, numa capacidade de criação de ambientes sonoros que chega a recorrer apenas a sons isolados como envolventes (não suportes) da linha melódica da voz (“O Avô Cavernoso”) – são cantares do andarilho.
Mas, ainda de Venham Mais Cinco, não podem deixar de se referir dois temas excepcionais, “Que Amor Não Me Engana”, que o acompanhamento de harpa, flauta e violoncelo, envolve como que uma “canção de concerto”, e “Se Voaras Mais ao Perto”, espantoso tema trovadoresco, inclusive na forma como a voz tende ao falsete.
Se táo múltiplas referências musicais exteriores se podem encontrar assim na obra de José Afonso, adoptadas de forma muito pessoal, é porque ele nunca deixou de se interessar pela multiplicidade das músicas.
O meu contado pessoal com ele, por exemplo, passa por não sei quantos concertos de jazz, ou pelas manifestações de música contemporânea para as quais, há uns dez anos, tantas vezes fiquei encarregue de o avisar, telefonando para Setúbal: na Gulbenkian, iam executar uma obra de Xenakis, de Penderecki, de Stockhausen…
Com tanto atraso, temos esta noite a oportunidade de nos lembrarmos desta simples evidência – José Afonso é um grande músico.

Augusto M. Seabra

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