Festival do Rio, 1972 (1/2)

Corriam os cinzentos dias de Setembro de 1972, ao que diziam, tempos de primavera marcelista, quando o país soube que, num concurso envolvendo os leitores do “Diário de Lisboa”, José Afonso tinha sido escolhido para representar Portugal no VII Festival Internacional do Rio de Janeiro.
O Festival do Rio de Janeiro perdera as suas raízes e características populares, os tempos pós-Woodstock levaram a que fosse permitida a entrada a conjuntos musicais com aparelhagem electrónica.
Para trás ficaram os tempos da música popular brasileira, tempos que permitiram, como por exemplo, em 1968, em plena ditadura brasileira, que Geraldo Vandré cantasse “Para Não Dizer Que Não Falei de Flores” em que, caminhando e cantando e seguindo a canção aprendendo e ensinando uma nova lição, vem, vamos embora que esperar não é saber quem sabe faz a hora não espera acontecer, era chegado o tempo de lutar pela Democracia e a Liberdade.
Por outro lado, o Festival fora tomado pelas editoras discográficas que impuseram a sua lei, e o transformaram numa enorme salgalhada.
José Afonso, que sempre se recusou a ser vedeta, não tinha nada a ver com a escolha dos leitores do jornal, mas caiu mal, entre as virgens ofendidas de alguma esquerda, que aquele, de quem Natália Correia dissera que é pela tua garganta que soltamos, as eriçadas aves proibidas, que no muro do medo desenhamos, não tivesse dito não à sua a sua participação no festival.
José Afonso, já no Rio de Janeiro, confrontado com o paleio das virgens, e com aquela deliciosa ingenuidade, aquela natural sinceridade que sempre o acompanhou, disse que, sim senhor, aquilo era uma aldrabice mas que se estava a borrifar para o festival e apenas aproveitou a boleia para ir conhecer mundos e gentes que há muito queria conhecer e foi isso o que andou por lá a fazer: feijoadas, caipirinhas, tardes em casa de Jackson do Pandeiro, conversas com Clementina de Jesus, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Gilberto Gil, ida ao teatro para ver “O Interrogatório”, peça de Peter Weiss, ida ao cinema para “A Última Sessão”, filme de Peter Bogdanovich.
Não fui ao FIC pelos prémios ou para consciencializar pessoas mas para sair, um pouco, deste círculo vicioso, para respirar outros ares.
Não acredito em festivais e muito menos neste. O festival não é realmente popular, se o fosse os bilhetes não seriam tão caros. A minha presença aqui deve-se a uma votação popular que muito me honra e à qual eu tinha de dar uma satisfação. De resto, tudo o que menos me interessou foi festival tudo o que ele é e o que pretende.
Às tais virgens ofendidas deixou recado: nunca surgem nas horas decisivas. É triste!
As ditas, se agoniadas estavam, pior ficaram e lembra bem o que lhe chamaram. Um dia talvez se disponha a colocar as loas, os elogios, tutti quanti, que as tais virgens, depois do 25 de Abril, disseram e escreveram sobre José Afonso.
Por ele, que não é formado nem deformado, limitou-se a compreender, a andar para frente, indo ao encontro de uma receita que o avô, republicano histórico, costumava dizer: os amigos quando não têm virtudes há que inventá-las.
O “Diário de Lisboa” era um jornal feito e lido por gente de esquerda, ou melhor por gente anti-regime. Não espanta a escolha que, obviamente, não podia cair em António Calvário, ou Artur Garcia, ou Simone, ou Paula Ribas.
Calhou-lhe em sorte abrir o Festival e apanhou um público selvagem (quinze mil ou muito mais) a entrar fora de horas, cerveja na mão, a mandar papos e allôs, para o lado e, para lém disso, há que juntar a péssima acústica do Maracanhâzinho.
Inquieto e nervoso, José Afonso cantou a lindíssima “A Morte Saiu à Rua”, evocação do assassínio, pela PIDE, do pintor José Dias Coelho, na Rua da Creche, e que hoje tem o seu nome, no dia a 19 de Dezembro de 1961, canção que há-de fazer parte do álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira” que sairá em Novembro de 1972.
Com toda a naturalidade foi eliminado.
Para completar, mais ou menos, o informe, diga-se que o Festival, por escolha do júri da organização, e angariado pelas editoras, foi ganho por David Clayton-Thomas, ex-vocalista dos Blood, Sweat ant Tears, que interpretou “Nobody Calls Me Prophet”, que o júri popular escolheu a canção “Aeternum”, do grupo italiano Formula Tre, que Demis Roussos pôs a plateia em delírio, que Baden Powell e Jorge Ben, brasileiros e de qualidade, passaram ao lado do júri e da gentalha, que canções de Paul Mauriat e Georges Moustaki, foram eliminadas e que Astor Piazzola, que foi ao festival por imposição da sua editora, apresentou a canção “Ciudades”, cantada pela sua mulher Amelita Baltar, que se fez acompanhar pelo seu Bandoneon e um conjunto que incluía um violino, foi, durante a actuação, simplesmente vaiado.

Luís Pinheiro de Almeida

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