Balada do Outono

Texto retirado do blog de Octávio Sérgio: guitarradecoimbra.blogspot.com



Águas passadas do rio,
Meu sono vazio
Não vão acordar;
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
Pràs bandas do mar;
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

No refrão, o terceto final canta-se e repete-se.
Esquema do acompanhamento do canto:
1º terceto: Lá menor, 2ª Lá, Lá menor /// Sol maior, Lá menor /// Sol maior, Lá menor;
2º terceto: Lá menor, 2ª Lá, Lá menor /// Ré menor, Lá menor /// 2ª Lá, Lá menor;
Refrão:
1º dístico: Lá menor, Sol maior, Lá menor /// Lá menor, Sol maior, Lá menor;
o terceto: Lá menor, 2ª Lá, Lá menor /// Ré menor, Lá menor /// 2ª Lá, Lá menor;

Informação complementar:
Balada com refrão, em compasso ¾ e tom de Lá Menor. Esta é a primeira composição verdadeiramente da autoria de José Afonso. Segundo ele próprio nos diz, passou a designar as suas primeiras canções por “baladas”, não porque soubesse o significado do termo, mas para as distinguir do “chamado Fado de Coimbra” que começara por cantar desde os anos do Liceu D. João III em meados da década de 1940. José Afonso fez a composição, mas faltava-lhe o título. Parece que terá pensado em designá-la inicialmente por BALADA DO RIO (MONDEGO). Em troca de ideias com o Dr. António Menano, recentemente regressado de Moçambique, José Afonso seguiu a sugestão de Balada do Outono (Cf. O Comércio do Funchal, 01/06/1970).
A título explicativo, o próprio autor facultou os seguintes dados relevantes que nos permitem situar esta composição num período imediatamente anterior à ruptura estética que se intensificou após a campanha presidencial do General Humberto Delgado: “Mais propriamente Balada do Rio. Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento ou como tal vivido, uma espécie de revivescência tardia da juventude. O trovador julga-se imprescindível, como um protagonista que a si próprio se interpela para convocar a presença das águas dos ribeiros e dos rios, testemunhas vivas do seu solitário cantar. A imagem do Basófias (nome porque é conhecido o Rio Mondego, na gíria coimbrã), que incha e desincha quando lhe apetece, deve ter influído na gestação da partitura. Uma certa disposição fisiológica propensa à melancolia explica o começo das dores sem falar na albumina anunciadora de futuras e promissoras partogéneses “ (Cf. “Cantares de José Afonso”, 2ª edição, Lisboa, AEIST, 1969, pág. 22). Na obra que acabamos de citar, a letra dos dois versos iniciais é Águas / E pedras do rio, letra essa que veio a ocorrer numa gravação realizada por José Mesquita em 1979.
Balada gravada pela primeira vez nos inícios de 1960, por José Afonso, acompanhado à guitarra por António Portugal/Eduardo de Melo e, à viola, por Manuel Pepe/Paulo Alão: EP “Balada do Outono”, Rapsódia, EPF 5085 – EP0089F, de 12 de Março de 1960. O registo de 1960 tem sido profusamente reeditado: LP “Baladas e Fados de Coimbra. José Afonso”, Porto, Edisco, EDL 18. 020, ano de 1982, Lado B, Faixa nº 6; CD “Dr. José Afonso. Os Vampiros”, Porto, Edisco, ECD-001, ano de 1987, faixa nº 12. A referida remasterização é omissa quanto à matriz original, ano de gravação e instrumentistas. Na primeira gravação, o trabalho de guitarra protagonizado por António Portugal é francamente desinteressante, limitando-se a curtas intervenções na abertura e no meio da peça. Quase todo o acompanhamento é suportado pelas violas, certamente a insistências do próprio autor.
Jorge Tuna aproveitou parte da melodia de “Balada do Outono” para trecho de abertura da sua “Rapsódia de Fados”, presente no EP “Coimbra à Noite”, RAPSÓDIA, EPF 5.179, de 13 de Agosto de 1962, gravado com Jorge Tuna/Jorge Godinho (gg) e Durval Moreirinhas/José Tito Mackay (vv). Este “pot pourri” encontra-se disponível no CD “Jorge Tuna. Coimbra”, Porto, Edisco, ECD 133, ano de 2000, faixa nº 1, sem quaisquer dados indicativos do ano de gravação ou da matriz fonográfica original.
Em finais dos anos 60 foi editado um LP de “Baladas e Canções”, Porto, OFIR, MAS 301, ano de 1967, contendo uma versão instrumental em viola nylon tocada por Rui Pato, versão essa disponível no CD “Baladas e Canções. José Afonso acompanhado à viola por Rui Pato”, Lisboa, EMI-Valentim de Carvalho, 7243 8 36617 2 5, ano de 1996, faixa nº 4. Nos dois casos, as faixas foram retiradas da matriz EP “Baladas e Canções”, Porto, OFIR, MAS 4.016, ano de 1964.
O autor voltou a gravar esta balada em 1981, acompanhado à guitarra por Octávio Sérgio e, à viola, por Durval Moreirinhas: LP “José Afonso – Fados de Coimbra”, Orfeu, FPAT 6011. O arranjo para guitarra de acompanhamento é de Octávio Sérgio, em tudo superior ao de 1960, de tal arte que passou a ser correntemente tocado por quase todas as formações activas nas décadas de 1980-1990.
Das gravações de José Afonso são ainda conhecidas as seguintes remasterizações:
-LP “José Afonso. Fados de Coimbra e outras canções”, Riso e Ritmo Discos, Lda., RR LP 2188, ano de 1987, Lado B, faixa nº 1, extraído do registo de 1960;
-CD “Coimbra Serenade”, Edisco, ECD 5, editado em 1992, extraído do registo de 1960 (remasterização do LP “Coimbra Serenade”, RAPSÓDIA, LDF 006, Lado A, Faixa nº 5, sem data, que se vendia em 1987/1988 a 600$00);
-CD “José Afonso – Fados de Coimbra”, Movieplay, SO 3003, editado em 1996, extraído do registo de 1960;
-CD “Fados e Guitarradas de Coimbra”, Volume I, Lisboa, Movieplay, MOV. 30.332, 1996, disco nº 1, faixa nº 7, extraído do registo de 1981;
-CD “José Afonso. Fados de Coimbra e outras Canções”, Movieplay, JÁ 8011, ano de 1996, faixa nº 6, com livreto assinado por José Niza, extraído do registo de 1981;
-Col. “Um Século de Fado”/Ediclube, CD Nº 4/Coimbra, emi 7243 5 20638 2 6, editado em 1999, extraído do registo de 1960.
José Afonso gravou a Balada do Outono uma 3ª vez, durante o concerto de 1983 no Coliseu de Lisboa, correndo no mercado tiragens provenientes desse espectáculo realizado no dia 29 de Janeiro de 1983:
-LP duplo “José Afonso ao vivo no Coliseu”, DIAPASÃO, DIAP 16050/1, ano de 1983, LP 1, Lado A, Faixa nº 5, acompanhado por Octávio Sérgio/Lopes de Almeida (gg) e António Sérgio/Durval Moreirinhas (vv). Deste registo se fizeram as seguintes remasterizações:
-CD “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010035, ano de 1993;
-cassete “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010036, ano de 1993.
Gravações disponíveis em compact disc de outros cantores:
-CD “Fados e Baladas de Coimbra – Coimbra tem mais encanto”, Vidisco, 11-80-1304, editado em 1991, a partir das gravações efectuadas por José Mesquita no LP “Fados e Baladas de Coimbra por Antigos Estudantes, RODA, SSRL 9001, ano de 1979, Lado A, Faixa nº 3, com acompanhamento da formação António Brojo/Jorge Gomes (gg) e Manuel Dourado/Aurélio Reis (vv). José Mesquita canta na parte introdutória o texto original “Águas e pedras do rio, meu sono vazio não vão acordar.”;
-CD “Fernando Machado Soares”, Philips, 838 108-2, sem data, compilação dos LP’s de 1986 e 1988, faixa nº 13. Remasterização efectuada a partir do LP “Serenata”, Polygram Discos, ano de 1988, faixa nº 3, acompanhado por José Fontes Rocha (g) e Durval Moreirinhas (v). Vocalização ultra-romântica, servida por um toque de guitarra banalíssimo;
-CD “Amanhecer em Coimbra – Tertúlia do Fado de Coimbra”, Porto, Edisco, ECD 15, ano de 1993, faixa nº 6. Canta Victor Nunes, acompanhado por José dos Santos Paulo/Álvaro Aroso (gg), José Carlos Teixeira/Eduardo Aroso (vv). O arranjo é da autoria de José S. Paulo. Vocalização eficaz de Victor Nunes. No livreto de acompanhamento do disco conta-se uma pequena história sobre a origem desta peça, relacionando a sua feitura com a viagem de José Afonso a Angola integrado na digressão do Orfeon, em Agosto de 1960. No entanto, esta informação não sintoniza com a data da 1ª gravação da obra, cujo disco preparado meses antes, em 12 de Março de 1960;
-CD “Meu Menino, Meu Anjo”, Porto, Fortes & Rangel, DCD 1038, ano de 1998, faixa nº 11. Grupo activo no Porto, com os cantores Nuno Oliveira e Delfim Lemos. Acompanhamento por Rui Vilas Boas (g) e Castro Lopes (v). A ficha técnica não identifica o cantor, sendo o arranjo transladado a partir de Octávio Sérgio (1981);
-duplo CD “José Mesquita. Coimbra das Canções, Trovas e Baladas”, Coimbra, sem editor, Janeiro de 2000, disco nº 2, faixa nº 2. O acompanhamento é feito por Carlos Jesus (g), Luís Filipe/Humberto Matias (vv), traduzindo-se numa presença excessiva do som da guitarra. No livreto do CD nº 2, embora a letra transcrita inicie com “Águas e pedras do rio”, José Mesquita canta a mesma letra que foi gravada por José Afonso. Saliente-se que do ponto de vista da melodia José Mesquita não canta exactamente a versão do autor (José Afonso), mas sim uma adaptação do próprio José Mesquita sobre um arranjo do Maestro José Firmino;
-CD “Quinteto de Coimbra. Guitarra e Canção de Coimbra”, Coimbra, Edição Quinteto de Coimbra/Casa de Fados, Lda., ano de 2001, faixa nº 3. A ficha técnica do disco não explicita quem seja o intérprete. A formação é constituída por Patrick Mendes/António Ataíde (vozes), Ricardo Dias (g) e Nuno Botelho/Pedro Lopes (vv). Predomina o trabalho instrumental das violas, salpicado nos separadores pela guitarra de Ricardo Dias, a seguir inequivocamente o arranjo de Octávio Sérgio (1981), embora tal se não mencione. O trabalho vocal é demasiado arrastado, com modulações em estilo soul ou até jazísticas e evitáveis esmorecimentos nas notas graves;
Não confundir esta composição com outra de Carlos Carranca, com letra e música diferentes: “Balada de Outono” (Canto os raios do Sol), letra de Carlos Carranca, música de José Reis, CD “Poesia para Todos. Carlos Carranca”, Cascais, Edição da Câmara Municipal de Cascais, sem data (2004), faixa nº 9, datando a referida composição de 1998.
“Balada do Outono” foi muito cantada a quatro vozes na década de 1990 pelo Coro dos Antigos Orfeonistas do OAC, tendo por base uma harmonização do Maestro José Firmino sobre o arranjo de Octávio Sérgio (1981). Esta versão foi gravada pelos Antigos Orfeonistas no Palácio de São Marcos, dias 30 de Abril e 1 de Maio de 1994, com regência de Augusto Mesquita e piano de Filipe Teixeira Dias, no CD “Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, Polygram/Philips, 522662-2, de 1994.
Transcrição musical: Octávio Sérgio (2006)
Arranjo instrumental: Octávio Sérgio
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Sandra Cerqueira (Edisco), SPA, Dr. José Reis (Pardalitos do Mondego), Dr. Rui Pato, Doutor José Mesquita
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