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Cesto

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ALINHAMENTO

01. Os fantoches de Kissinger
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Teresa Torga
LETRA/MÚSICA José Afonso

03. Os índios da Meia-Praia
LETRA/MÚSICA José Afonso

04. O homem da gaita
LETRA/MÚSICA José Afonso

05. O dia da unidade
LETRA/MÚSICA José Afonso

06. Com as minhas tamanquinhas
LETRA/MÚSICA José Afonso

07. Chula da Póvoa
LETRA José Afonso/Última quadra de Miraldina, da Cooperativa de Sta. Sofia
MÚSICA José Afonso

08. Como se faz um canalha
LETRA/MÚSICA José Afonso

09. Em terras de Trás-os-Montes
LETRA/MÚSICA José Afonso

10. Alípio de Freitas
LETRA/MÚSICA José Afonso

Prémio Internacional de Folclore «Deutscher Schallplatenpreis» atribuído
pela Deutsche Phono-Akademie

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu STAT 036)
gravação

Estúdios Arnaldo Trindade
som
Manuel Cunha, Moreno Pinto
mistura
Paco Molina
produção
José Niza
músicos

Vitorino, Cecília Barreira, Fausto, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Quim Barreiros, Luís Duarte, Michel Delaporte, Ramón Galarza
instrumentação
Violas, baixo, percussões diversas, flauta e acordeão.
capa
João de Azevedo
fotografia
Nick Boothman

edições estrangeiras
Alemanha e Espanha

SINGLE EDITADO A PARTIR DO LP

Os índios da Meia-Praia, 1977

ALINHAMENTO

01. Os índios da Meia-Praia
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Com as minhas tamanquinhas
LETRA/MÚSICA José Afonso

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu KSAT 586)
Capa
Renie

LP/33rpm

Com as minhas tamanquinhas, 1976

Lá pelos idos de 1975 eu fazia parte da «Pró-Frente dos Artistas Populares e Intelectuais Revolucionários», uma das muitas organizações voluntaristas que, à época, apostavam em “levar a cultura ao povo”. Reuníamos na sede do grupo de teatro “Comuna” e juntávamos toda a malta das cantigas e das artes em geral em torno de um vago consenso de imediatismo e – já agora – protagonismo: o José Afonso, o Vitorino, o GAC (Grupo de Acção Cultural – «Vozes na Luta», o Sérgio Godinho, a Tété (a Mulher-Palhaço), o poeta e “diseur” José Fanha, o cineasta Rui Simões, etc. Eu dirigia o GIM («Grupo de Intervenção Musical»), um grupo musical constituído por professores e estudantes do externato Nun’Álvares (o qual, em consequência desses tempos vertiginosos, havia sido transformado em cooperativa de ensino). Nos tempos livres, e de modo a satisfazer uma qualquer má consciência de classe, andávamos a reboque dos Comandos, a cantar por lugarejos à volta de Lisboa. Uma dessas noites, em meados de Novembro, recebo um telefonema da organização, dizendo que o José Afonso necessitava um guitarrista para o acompanhar no dia seguinte, numa sessão promovida pela Comissão de Moradores do Bairro da Encarnação. Lá fui, depois das aulas, com a Lourdes Coelho para casa do cantor, em Setúbal. A Zélia vem à porta e o José Afonso logo aparece, pijama e chinelos, acordados às tantas da manhã, mas com suficiente bonomia para nos receberem como se fôssemos amigos de longa data. No decorrer dos meses seguintes eu aprenderia a considerar a coisa mais natural do mundo entrar por aquela porta adentro desde o mais obscuro e clandestino militante da esquerda revolucionária internacionalista até alguém galardoado com o Prémio Nobel da Paz. O José Afonso queria estrear alguns temas novos no dia seguinte, temas que iriam fazer parte do LP «Com as minhas tamanquinhas». Não havia partituras (que, de resto, não serviriam para nada porque, à época, eu só tocava de ouvido...). Não havia gravações. Havia, isso sim, uns hieróglifos num caderno escolar, algo que se assemelhava vagamente a uns esboços de diagramas de acordes. Um dos temas era «Os fantoches de Kissinger», outro era «O homem da gaita», e ainda havia o «Teresa Torga». Acontece que o José Afonso, o cantor e compositor, já era um velho conhecido meu. Natural de Coimbra, politicamente baptizado na crise académica de 1969, sempre considerei as canções de José Afonso como parte do meu património intelectual. Muitas tardes de domingo passei eu em casa da Fernanda Jardim, no antigo bairro Marechal Carmona, em sessões que contavam com a participação frequente do Rui Pato, interpretando desde música clássica até Chico Buarque. Curiosamente, constato eu agora, nunca se abordava o fado de Coimbra. Repetíamos até à exaustão, como se de um ritual se tratasse, as canções do Zeca, do Adriano, do Freire e dos hoje injustamente esquecidos Duarte & Ciríaco. E foi assim que, não me considerando propriamente um caloiro no que diz respeito à obra de José Afonso, eu aprendi a apreciar a contribuição que os músicos acompanhantes (especialmente os guitarristas) operaram nos arranjos que hoje conhecemos através dos discos. Algumas canções do José Afonso tornaram-se emblemáticas não só pela intrínseca qualidade poético-musical, mas também por causa do talento criativo do(s) acompanhante(s). Vejam (ou melhor, oiçam) o caso de «Os vampiros», onde o Rui Pato interpreta um diálogo entre o arpejar de dois simples acordes e um baixo que realiza a indispensável cadência, tornando a canção inconfundível. E a entrada de «Traz outro amigo também», com as suas alusões lá pelo meio da canção, que eu aprendi a atribuir ao Bóris? Outro caso é o «Venham mais cinco», que só soa bem se utilizarmos a progressão harmónica e o dedilhado imaginados pelo Yório Gonçalves. E já nem sequer falo dos arranjos das canções do disco «Coro dos tribunais», um perfeito tratado de harmonia e ritmo, onde pontifica a arte do Fausto. Estamos, então, conversados: José Afonso, o cantor e compositor, já há muito fazia parte de mim, quando bati à sua porta naquela madrugada de Novembro. José Afonso, o homem, vir-se-ia a revelar nos meses subsequentes. Passámos o resto da noite a experimentar acordes e ritmos para as novas canções. Sem conhecimento musical formal, dominando apenas três ou quatro acordes em guitarra (e, por isso, utilizando abundantemente o transpositor), possuindo um arsenal de ritmos elementares, o compositor recorria aos mais variados expedientes para fazer passar a sua ideia. Sem paciência (ou ciência?), para afinar sequer a guitarra... Mas as ideias estavam lá e, à falta de melhor, utilizava o corpo como instrumento de percussão. Alguma vez o viram a tocar o adufe? Não à maneira das mulheres de Penamacor, mas colado ao peito. Aí, sim. Vinha-lhe aquele jeito africano, capaz de transformar uma chula numa marrabenta. Respiração alterada. Os braços e as pernas desengonçados, um inesperadamente sensual menear de ancas, como se tal fosse vital para canalizar para o exterior uma imensa força desconhecida. E a curiosidade, o perscrutar o desconhecido, o gosto pela experimentação, o respeito pela diversidade de ideias, o gozo pelo contraste, pelo absurdo. Assim: eu digo mata-se e ele diz esfola-se. E desta maneira os temas foram sendo construídos. De pouco nos valeu, porque no dia seguinte lá estávamos os dois na Encarnação … a tocar tudo de maneira diferente. Nesses concertos por toda a Europa, ainda o processo revolucionário português andava nas bocas do mundo, o José Afonso assumia “o papel de artesão intelectual que utiliza as suas humildes ferramentas para, num lugar subalterno, contribuir para a emancipação das classes exploradas”. Nunca saberei se esta era a sua opinião sincera. Se ouvirmos uma gravação de um desses concertos, é bem provável que se constate que o programa era, afinal, constituído por uns 75% de informação política e uns meros 15% de canções muitas vezes improvisadas, com versos adequados a situações locais. E os restantes 10% ainda sobravam para diálogo com a audiência. Era, agora mais do que nunca, o dilema José Afonso, o criador vs. José Afonso, o político. O criador das estórias exemplares (ouça-se o «Cantar alentejano»), nas quais defende uma estética musical que o leva a distanciar-se do modelo Coimbrão, está agora mais preocupado com a mensagem (ouça-se o «Foi na cidade do Sado»). E, a propósito de mensagem, afinal como foi que o «Lá Vai Jeremias» se veio a tornar uma peça indispensável nos seus concertos? Voltemos àquela madrugada de Novembro. Com o avançar do trabalho de arranjos das novas canções, fui-me dando conta da generosidade e abertura de José Afonso em relação às ideias dos outros. A determinada altura estamos a ponderar o facto do programa para o dia seguinte ser talvez demasiado, como dizer, intelectual. A Lourdes sai-se com a proposta de se cantar o «Lá Vai Jeremias» (tanto mais não seja por este ser um dos sucessos do GIM, acrescento eu). A canção reúne, de facto, todas as condições para estabelecer uma boa relação cantor-audiência: melodia repetitiva e de fácil assimilação, ritmo dançável, e quadras improvisáveis. Mas o que ditou a sorte do «Lá Vai Jeremias» foi a inocente quadra “Lá vai Jeremias, Lá vai Jeremão / Lá vai senhor alferes / Melhor capitão”, o qual passaria a funcionar, em termos de concerto, como uma sentida e militante homenagem aos “Capitães de Abril”! Como consequência de uma constante urgência, o trabalho em estúdio era um pouco… caótico. Acontece que quando escrevo caótico estou pronto a aceitar que alguns lampejos de génio provavelmente só podem decorrer desse mesmo caos. Afinal, quem mais se lembraria de imitar o Eanes como prólogo ao «Homem da gaita»? E mais: se naquele momento ali tivesse aparecido a Isabel Marquez, era bem possível que «Os índios da Meia-Praia» hoje ostentassem um virtuoso solo de “cuatro” venezuelano!...«
José Luís Iglésias, in «Desta canção que apeteço»
Músico
João Azevedo, autor da capa do disco "Com as minhas tamanquinhas" e José Afonso em Roma na altura em que decorreu a gravação do LP La Repubblica. (Clicar na imagem para mais informação) Foto: Domenico Maugeri
Roma/ Setúbal na capa de um disco.
Quando José Afonso convidou João de Azevedo para conceber graficamente a capa do disco, havia uma grande distância a separá-los. João estava em Itália, Zeca em Setúbal. A encomenda foi feita com a tecnologia possível na época: telefone fixo. Zeca ligou ao João solicitando a tarefa. O briefing foi feito assim: Zeca cantarolou ao telefone a música que dá nome ao álbum e descreveu a ideia geral da coisa. Entendido o pretendido, João envia de Roma para Setúbal, por correio, o resultado final, com três hipóteses para escolha. A ilustração mantinha-se, mas os fundos eram à escolha do freguês Zeca. Um era azul mais ou menos turquesa, outro era num amarelo para o torrado, e a terceira escolha era o rosa que veio a ser escolhido pelo dito freguês. Esta história foi-me contada pelo João. José Afonso ficou radiante com este trabalho. Disse-mo a mim. Eu também.
José Teófilo Duarte
Designer Gráfico
Crónicas de um país efervescente
"Uma azinheira enorme, com uma sombra fabulosa, ainda à luz do dia, muitas cadeiras à frente e uma cadeira alentejana, pintadinha, encostada à azinheira para a gente pôr o pé". Foi este cenário que os dedos lhes apontaram quando José Afonso e Vitorino Salomé chegaram às instalações da Unidade Colectiva de Produção Muralha de Aço, no concelho da Vidigueira, Baixo Alentejo, e perguntaram "Então e onde é que a gente canta?". As respostas, já o sabiam com a passagem dos anos, podiam ser verdadeiramente insólitas. Mas já não eram surpreendentes. A Muralha de Aço tinha sido ocupada por populares em Outubro de 1975, em pleno PREC, e foi por volta dessa altura que os dois ali se deslocaram. "Fomos cantar à entrada do médico", lembra Vitorino. "Era uma cooperativa muito poderosa, com muita gente, e a partir desse dia passou a ter um médico: o doutor Maldonado, das Caldas da Rainha. E recordo-me que o palco era ali – era a azinheira". Nas suas contas pessoais de horas em concerto, muitas tinham-se amontoado até então em atrelados de tractores e em toda a espécie de condições de uma "escola muito dura", que calejara irremediavelmente os músicos. Mas Zeca Afonso nunca virou a cara, sempre entendeu a música não apenas como uma finalidade em si mesma mas também como uma extensão de reivindicações, conquistas, formas de luta e de exaltação. Tanto assim que, ao tornar-se praticamente impossível cantar em público nos últimos anos de ditadura, dedicara-se sobretudo a uma missão de agitação e propaganda. "Com o 25 de Abril, surgiu uma oportunidade enorme para chegarmos às fábricas, aos locais de trabalho, ir às aldeias onde havia comissões de moradores que estavam a fazer o seu caminho público, o seu fontanário, etc.", diria ao Se7e, em 1980. "Participei muito directamente nesse processo, eu e outros cantores que tiveram uma actividade incrível nesse aspecto". Na mesma entrevista, afirmaria que essa fase da sua vida ficara plasmada de forma clara no álbum Com as Minhas Tamanquinhas, o primeiro a ser lançado com material composto depois da Revolução. Em "Chula da Póvoa", por exemplo, Zeca inclui uma quadra escrita por Miraldina, da Cooperativa de Santa Sofia: "Camaradas lá do Norte / Venham ao Sul passear / Cá nas nossas cooperativas / Há sempre mais um lugar". Muitos destes temas continuariam a integrar o seu reportório durante anos. "Alípio de Freitas" e "Os Índios da Meia-Praia" "não são inferiores às mais antigas", diria Zeca. "Simplesmente, o tratamento de estúdio e dos arranjos é que são talvez um pouco superficiais. A linguagem é mais directa, tipo cancioneiro, narrativa popular ou coisa que o valha". Após vários anos a gravar no estrangeiro, Com as Minhas Tamanquinhas é registado nos estúdios de Arnaldo Trindade na lisboeta rua de Campolide, em Maio de 1976. A actividade no ano quente de 1975 tinha sido de tal forma intensa que, pela primeira vez, Zeca Afonso não tinha lançado o seu álbum anual. Os discos, perante a efervescência social e política do país, eram o que menos importaria na altura. A música tinha de estar na rua e não entre paredes. Vitorino, cujo coração sempre acelerou em presença do anarquismo, guarda dessas sessões de estúdio a memória de terem sido "mais anarquistas ainda". A comparação faz-se, pela sua voz, com o álbum anterior, Coro dos Tribunais, o primeiro registado e editado no pós-25 de Abril. "Os técnicos de som em Portugal estavam habituados a nós e pensavam como nós, de maneira que era muito mais louco", resume. Às tantas, numa das sessões, Zeca vislumbra a necessidade de uma concertina num par de temas. Moreno Pinto, o técnico do estúdio, pega no telefone e disca um número que saberia certamente de cor. Do outro lado, atende-o Quim Barreiros, músico popular que gravava igualmente para a editora de Arnaldo Trindade. "Era uma ou duas da manhã – que o Zeca gravava de noite, de madrugada", recorda Quim Barreiros. "Um belo dia, tinha eu acabado de chegar do meu trabalho – eu trabalhava nos restaurantes típicos da cidade -, e recebo uma chamada do Moreno Pinto que me diz: "Olha, aqui o Zeca quer falar contigo!. E passou-lhe o telefone". (Flashback/analepse: Afife, perto de Vila Praia de Âncora, alguns anos antes, data indeterminada. Num concerto semi-clandestino em que participa também o pai de Quim Barreiros, acordeonista do Conjunto Alegria, Zeca e Vitorino apresentam-se para uma actuação em que, ao contrário do que era habitual, é concedido descanso à palavra revolucionária. "Éramos só os dois", conta Vitorino. "Eu tocava concertina e o Zeca divertia o povo. Assim que começámos, o Zeca começou a cantar o "Vira de Coimbra!, que ele cantava maravilhosamente, e o público desatou todo a dançar, era uma poeirada que se levantava… E então ele disse-me: "Vamos tocar só para dançar!. E assim fizemos". Esta memória terá, porventura, acorrido também a Zeca ao ligar a Barreiros – o vira e a música brasileira (forró e baião) que o acordeonista adaptava adequavam-se especialmente a alguns dos temas do disco que então preparava.) Partilhando editora e estúdio, a ligação entre Zeca Afonso e Quim Barreiros existia já, naturalmente, antes do telefonema. "Pertencíamos à mesma equipa e é lógico que a gente se encontrasse volta e meia nas instalações do Arnaldo Trindade", diz Barreiros. Entre alguns almoços e esses encontros fortuitos, Zeca conhecia bem a música popular a que o músico se dedicava. Daí que, nessa noite, ao telefone, Zeca lhe peça: "Ó Quim, traga cá a sua gaita que estamos aqui em dificuldades, a ver se você dá um jeito nisto". E, assim, a concertina de Quim Barreiros deixou o seu rasto nos dois temas de folclore de Com as Minhas Tamanquinhas. O mesmo telefone serviria ainda para chamar aquele que, daí em diante, se assumiria como o principal parceiro musical de Zeca Afonso e ocuparia o terceiro lugar na sequência de (notáveis) directores musicais na sua discografia – depois de José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias, anunciava-se a chegada de Júlio Pereira. "O Zeca estava a gravar o as Tamanquinhas e ligaram-me porque ele precisava de um guitarrista para tocar nos "Índios da Meia-Praia!. Não o conhecia pessoalmente até aí e foi essa a primeira vez em que toquei com ele. Ele gostou da minha maneira de tocar e tempos depois chamou-me de novo". Essa é a parte da história que, por agora, fica por contar. A reter, interessa que para o tema que se baseara na vida suspensa (à espera de deliberações superiores quanto ao seu direito à habitação) dos pescadores da aldeia perto de Lagos, Júlio Pereira entra – para não mais sair – na música de Zeca Afonso. Apesar de Michel Delaporte continuar a sua fiel na ligação a Zeca, em Com as Minhas Tamanquinhas abre-se espaço para um jovem percussionista português, Ramon Galarza – filho do maestro Shegundo Galarza. Então estudante do Liceu Francês, próximo do local onde estava instalado o estúdio, Ramon era movido por uma "enorme paixão pela música: passava os tempos livres no estúdio e já dava os primeiros passos como músico profissional". "Nessas instalações", conta Galarza, "tive a sorte e o prazer de me cruzar com diversos grandes artistas do nosso meio. Assim conheci o Zeca, pessoa extraordinária, de quem era grande admirador e que muito me honrou com o surpreendente convite para participar no disco". Como frequentemente acontecia com Zeca Afonso, as circunstâncias mandavam mais do que a planificação e, momentaneamente privado do seu percussionista habitual, não deixou escapar Ramon – que, por aqueles dias, se encontrava no estúdio a gravar um outro disco. "Foi assim que ele me perguntou se gostaria de colaborar com ele, pois tinha-me ouvido tocar e gostara muito. Uma experiência que marcou muito um puto de 18 anos para toda a vida e deixou um enorme orgulho". Valendo-se sempre sobretudo do seu instinto, também Ramon aprendeu a responder à direcção musical de Zeca – que aqui a assumiu, depois de a ter entregue a Fausto no disco anterior – com base na transmissão de intenções por meio de palavras ou de imagens: "Descrevia ambientes naturais que tinha conhecido, vivido e sentido. E também experiências pessoais. E sabia exactamente o que queria dos músicos". Dada a riqueza rítmica intrínseca à sua criação musical, o desafio podia, por vezes, ser particularmente exigente para um percussionista. Mas Ramon acredita que não havia uma insistência ou um pedido especial para reportar a África. "Sentia-se a grande influência africana, mas ele era uma pessoa aberta a outros mundos. Tudo era em função da temática de cada faixa". Em "Como se Faz Um Canalha" – tema de mira fixada em Aventino Teixeira, militar do grupo maoísta MRPP -, por exemplo, é sobretudo o Brasil que se ouve na cadência rítmica e no fraseado musical de Zeca. E no espantoso ritmo bucal, que hoje, em tempos de hip-hop, se chamaria human beatbox, mas que na altura trazia um sabor muito mais tribal e exótico. No entanto, não eram apenas os ouvidos que estavam sintonizados com o mundo exterior. Os olhos também o estavam e o tema de abertura, "Os Fantoches de Kissinger", aniquila quaisquer dúvidas. "Ele era um observador de grande rigor do que se passava no mundo", reforça Vitorino. "O Zeca extravasava a observação local, porque sabia que aquilo que se passava aqui também disso dependia". Com as Minhas Tamanquinhas, "um disco de crónicas, radical", chama-lhe Vitorino, possivelmente o seu melhor, achava Zeca, traria também "O Homem da Gaita", composta na ressaca do 25 de Novembro. Esta última, explicou Zeca a Viriato Teles, "é um conto popular, da região de Loulé, a que eu dei um desenho mais ou menos musical". "A parte falada", acrescentaria, "é o discurso do general Eanes, que como se sabe participou activamente no golpe. Na altura, as versões oficiais tentaram fazer crer que aquilo era uma tentativa de tomada do poder pela esquerda, o que é redondamente falso". "O Homem da Gaita", diria ainda, juntava duas realidades distintas: "de um lado a voz falível, conjuntural, do poder; do outro a voz tradicional, pura". "Teresa Torga", por seu lado, tinha por base uma notícia publicada no Diário de Lisboa, sobre uma mulher que se despira enquanto dançava numa zona especialmente movimentada de Lisboa. Perante um repórter fotográfico que se apressara a desembainhar a máquina para registar o momento, os populares que por ali estavam rodearam a mulher para proteger a sua nudez da sanha de terceiros. Para Zeca, foi um magnífico gesto de um país tradicionalmente machista. "Em Terras de Trás-os-Montes", contaria o realizador Luís Filipe Rocha, no livro Livra-te do Medo, de José Salvador, surgiria por imposição de Rocha e de Francisco Fanhais depois de uma passagem pela miséria das minas da Ribeira e do contacto com os mineiros abandonados pelos patrões. "Quando nos vínhamos embora, já noite", recordou o cineasta a Salvador, "um mineiro jovem contou-nos a intervenção da PIDE ali. Esse jovem dispôs-se a levar-nos a uma aldeia onde nos contaram a história da perseguição a um mineiro feita directamente pela PIDE e pelo capataz a pedido do patrão". Tão impressionados ficaram que Rocha e Fanhais terão fechado Zeca num quarto até que fizesse uma canção sobre o sucedido. Era já dia quando Zeca abriu a porta trazendo consigo "Em Terras de Trás-os-Montes". Horas mais tarde, ao cantar para as gentes que haviam inspirado "a canção que tinha acabado de fazer", a reacção foi "inimaginável". Talvez mais do que qualquer outro, Com as Minhas Tamanquinhas é uma interpelação concreta de José Afonso aos tempos que então se viviam. Os episódios polvilhados pelo álbum, deixando de ter de atirar farpas sob uma capa de camuflados segundos sentidos, chamam abertamente os bois pelos nomes. A liberdade plena soa esplendorosamente, pela primeira vez, na obra de José Afonso."
Gonçalo Frota, Setembro 2012
JORNALISTA
"Continuar a Viver ou Os Índios da Meia-Praia", filme de António Cunha Telles sobre a experiência levada a cabo após o 25 de abril de 1974, na comunidade piscatória da Meia-Praia (Lagos), onde o povo construía com os seus próprios braços as suas novas habitações, no âmbito do projeto SAAL. Num registo que cruza a atmosfera de militância que se vivia na época com um olhar etnográfico, a terceira longa-metragem de Cunha Telles conta com a canção homónima de Zeca Afonso. (Clique na imagem para mais informação)
José Afonso dizia, num misto de provocação e de grande coerência, ser este o seu melhor disco. Gravado em 1976, reflecte as vivências ímpares «desse período maravilhoso que foi o PREC», as lutas das pequenas comunidades, as situações únicas e inesquecíveis da época a que, no discurso politicamente correcto dominante, se chama gonçalvista. Disco comprometido e datado é, no entanto, um trabalho capaz de sobreviver às situações que lhe deram origem. A gravação recente de Os Índios da Meia Praia por Dulce Pontes é a prova disso mesmo. Verdadeira demonstração da capacidade de intervir artisticamente de forma eficaz, em termos imediatos, sem prejuízo dos valores estético-formais, Com as Minhas Tamanquinhas não cede às tentações mais primárias do chamado 'realismo socialista', a que Zeca nunca ligou grandemente, assumindo-se, contudo, como um trabalho de e para a mudança, na linha das melhores criações de Brecht (Bertolt Brecht (1898-1956) Dramaturgo alemão, fundou o Berliner Ensemble, em 1949, na RDA, e recebeu o Prémio Estaline em 1955. Autor de algumas das mais importantes peças de teatro de intervenção do século XX. José Afonso compôs diversas canções a partir de traduções de alguns dos seus textos) e Maiakovski (Vladimir Maiakovski (1894-1930) Poeta natural da Geórgia foi membro do Partido Bolchevique, a partir de 1908, e participou no movimento futurista russo, cujo primeiro manifesto subscreveu. Teve um papel importante nas grandes transformações artísticas da Revolução de Outubro. Escreveu, entre outros textos célebres, "A Guerra e o Universo" e "Lenine", uma extensa ode ao dedicada ao ideólogo da revolução russa.)
Viriato Teles
jornalista