Rua Detrás da Guarda, 28, Setúbal

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Cesto

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ALINHAMENTO

01. Natal dos simples
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Balada do sino
LETRA/MÚSICA José Afonso

03. Resineiro engraçado
LETRA/MÚSICA Popular, Beira Alta

04. Canção de embalar
LETRA/MÚSICA José Afonso

05. O cavaleiro e o anjo
LETRA/MÚSICA José Afonso

06. Saudadinha
LETRA/MÚSICA Popular, Açores

07. Tecto na montanha
LETRA/MÚSICA José Afonso

08. Endechas a bárbara escrava
LETRA Luís de Camões
MÚSICA José Afonso

09. Chamaram-me cigano
LETRA/MÚSICA José Afonso

10. Senhora do Almortão
LETRA/MÚSICA Popular, Beira Alta

11. Vejam bem
LETRA/MÚSICA José Afonso

12. Cantares do andarilho
LETRA António Quadros (pintor)
MÚSICA José Afonso

Prémio Casa da Imprensa para Melhor Disco e Melhor Interpretação do Ano

FICHA TÉCNICA

1ª edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda. (Orfeu STAT 002)
gravação
Estúdios Polysom, Lisboa
som e mistura
Moreno Pinto
músicos
Rui Pato: Viola
capa
Fernando Aroso

edições estrangeiras
Espanha

2ª EDIÇÃO, 1982
FICHA TÉCNICA

capa
José Santa-Bárbara

EP's EDITADOS A PARTIR DO LP

Natal dos simples, 1970

ALINHAMENTO

01. Natal dos simples
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Balada do sino
LETRA/MÚSICA José Afonso

03. O cavaleiro e o anjo
LETRA/MÚSICA José Afonso

04. Saudadinha
LETRA/MÚSICA Popular, Açores

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda (Orfeu ATEP 6356)
fotografia
José Labaredas
(Foto de 1970, tirada em Victoria Park, Londres, durante o «Festival of Life». José Afonso encontrava-se na cidade a gravar o álbum «Traz outro amigo também», que seria publicado no ano seguinte.) Ler mais.

Resineiro engraçado, 1970

ALINHAMENTO

01. Resineiro engraçado
LETRA/MÚSICA Popular, Beira Alta

02. Canção de embalar
LETRA/MÚSICA José Afonso

03. Cantares do andarilho
LETRA António Quadros (pintor)
MÚSICA José Afonso

04. Vejam bem
LETRA/MÚSICA José Afonso

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda (Orfeu ATEP 6357)
fotografia
José Labaredas
(Foto de 1970, tirada em Victoria Park, Londres, durante o «Festival of Life». José Afonso encontrava-se na cidade a gravar o álbum «Traz outro amigo também», que seria publicado no ano seguinte.) Ler mais.

Chamaram-me cigano, 1970

ALINHAMENTO

01. Chamaram-me cigano
LETRA/MÚSICA José Afonso

02. Senhora do Almortão
LETRA/MÚSICA Popular, Beira Alta

03. Tecto na montanha
LETRA/MÚSICA José Afonso

04. Endechas a bárbara escrava
LETRA Luís de Camões
MÚSICA José Afonso

FICHA TÉCNICA

edição
Arnaldo Trindade & Cª. Lda (Orfeu ATEP 6358)
fotografia
José Labaredas
(Foto de 1970, tirada em Victoria Park, Londres, durante o «Festival of Life». José Afonso encontrava-se na cidade a gravar o álbum «Traz outro amigo também», que seria publicado no ano seguinte.) Ler mais.

LP/33rpm

Cantares do andarilho, 1968

A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue, nas horas de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que toma o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão... José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.
Urbano Tavares Rodrigues (Texto que acompanhou a 1ª edição)
escritor

O CAVALEIRO E O ANJO
Nasceu a bordo do “Angola”, num estado de espírito que excluía qualquer veleidade criadora. O personagem aparece de relance, indeciso entre ficar na hospedaria e partir a coberto da noite mas em segurança. O mais difícil é ficar. É no interior da hospedaria, guardada à vista pelos “botas cardadas”, que o espectro decide permanecer e readquirir as suas humanas e verdadeiras dimensões.

José Afonso
Nesse mesmo ano de 68, chego de fora, uma vez mais, e vou ter com ele a Setúbal. Tornamos a Lisboa, ele para gravar, eu para assistir ao Cantares do Andarilho. Sessões puxavantes que deixavam a nu o osso da resistência. Ensaiavam-se ali mesmo, no estúdio, as músicas à medida que decorria a gravação, o que obrigava a um, dois ou mais encores antes da versão ser dada por boa. Assim até se completarem os doze títulos do álbum, todos no mesmo dia (se bem me lembro), que a economia da editora ditava as suas apertadas regras e uma viola (mais o tocador) e um dócil e generoso acompanhante. Recordo que ao chegar às Endechas a Bárbara Escrava, a derradeira canção a ser gravada, Zeca arfava como um fole. Não era caso para menos. Um ouvido fino talvez descubra o que ficou desse esforço esculpido na estria, sob as entonações de um sentimento cativo. Esforço frequente, diga-se de passagem, no panorama nacional desse tempo: muito de improvisação, muito de estoicismo e recursos à altura de ambas as coisas, quer dizer, modestos.
João Afonso dos Santos, in «Um olhar fraterno»
Irmão de José Afonso
Antes da edição dos seus discos, e adivinhando já a sua censura, Arnaldo Trindade, editor discográfico de José Afonso, usava este formulário, de forma não só a divulgar o lançamento do novo disco, mas também a garantir algumas vendas. (Arquivo de Rui Pato)

Presentemente vivo do que canto. Amanhã, por exemplo, sigo para Caminha com o Paredes e com o Rui Pato. Segundo me disse o organizador do festival, o cachê que me foi atribuído é razoavelmente compensador. Outros biscates me esperam. Caldas, Alcobaça, Nazaré, talvez Portimão. Em Outubro darei um espectáculo no Monumental e tentarei gravar em França dois “long-playing”.

Excerto de carta enviada por José Afonso ao seu irmão João Afonso dos Santos, 02/08/1968
Editado em 1968, assinala o início da sua ligação à editora Orfeu, de Arnaldo Trindade (onde se manteve durante 14 anos), e da fase mais interveniente, política e culturalmente, da sua arte. A propósito deste álbum, Urbano Tavares Rodrigues escreveu que "José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã» e «a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova". Nestes cantares, Zeca alia a sua criatividade à mais genuína inspiração popular, quer através da utilização de melodias tradicionais (como «Senhora do Almortão» ou «Resineiro engraçado», posteriormente gravado também por Amália Rodrigues), quer tomando-as apenas como um ponto de partida para a criação de novos temas, mantendo, no entanto, a sua estrutura formal. São os casos, por exemplo, de «Natal dos simples», da «Balada do sino» ou dessa comovente «Canção de embalar», sem dúvida um dos mais belos temas de Zeca e, por que não dizê-lo?, do nosso cancioneiro popular. «Cantares do Andarilho» regista ainda uma incursão de José Afonso na poesia de Camões (Endechas a Bárbara escrava), um tema da fase que o próprio Zeca classificou de "franciscana" («O Tecto na Montanha») e também as primeiras experiências de inspiração vagamente surrealista («Chamaram-me cigano») ao jeito de Bettencourt. Regista, por outro lado, uma canção que, a par de «Os vampiros», da «Trova do vento que passa» e, mais tarde, de «Grândola, vila morena», vai tornar-se uma espécie de hino da geração de 70: «Vejam bem».
Viriato Teles
Jornalista

O objectivo (de divulgar a poesia através da música) é válido se a qualidade da música acompanhar a qualidade do poema ou não a encobrir, o que acho difícil para quem trabalha de ouvido. Seria mais fácil, e porventura mais acertado, confiar essa tarefa a uma equipa de compositores-poetas de diferentes tipos de sensibilidade já que são também diferentes as características que distinguem por exemplo um Camões dum Nicolau Tolentino.

José Afonso em entrevista a José Armando Carvalho, in Comércio do Funchal, 01/06/1969
Na obra de José Afonso está ainda em aberto uma análise profunda e sistemática da componente poética, sobretudo da poesia do próprio cantor. Ao contrário da criação musical, em que José Afonso só raramente recorreu à colaboração de outros compositores (exceptuando, naturalmente, o reportório de fados de Coimbra e de canções populares), o cantor musicou um número considerável de textos de alguns dos mais importantes poetas portugueses. Na realidade, dos 125 títulos da colectânea Movieplay (12 CD’s), 54 deles têm poesia de outras autorias: fados de Coimbra (14), canções populares (20) e outras canções (20); isto é, 43.2% do conjunto da obra. Fados de Coimbra (14 títulos -11,2%): Ângelo Araújo, Ant6nio Menano (2), Ant6nio Nobre, Carlos Figueiredo, Edmundo Bettencourt (4), Felisberto Ferreirinha, Fortunato Fonseca, Mário Faria Fonseca, Paulo de Sá e Tavares de Melo. Canções populares (20 titulos – 16%): BeiraBaixa (5), Açores (3), Trás-os-Montes, Beira-Alta, Galiza e outros temas não referenciados (9). Outras canções (20 títulos – 16%): Aires Nunes (trovas do Séc.XIII, António Quadros (pintor) (3), Barnabé João (pseudónimo de António Quadros (pintor)), Bertolt Brecht / Luís Francisco Rebello (4), Fernando Miguel Bernardes, Fernando Pessoa, Hélder Costa, Jorge de Sena, José Carlos Ary dos Santos, Lope de Vega/ Natália Correia, Luís de Andrade (Pignatelli), Luís de Camões (2), Nicolau Tolentino e Reinaldo Ferreira
José Niza
músico e Compositor
O adeus a Coimbra

"Uma história nunca começa exactamente no seu princípio. Começa sempre antes. E a de Cantares do Andarilho começa a desenhar-se à distância de alguns anos, ainda José Afonso não tinha partido para Moçambique, ainda não tinha sequer equacionado essa hipótese. O primeiro traço surge, talvez, no dia em que chega ao café A Brasileira, em Coimbra, e anuncia a um grupo de amigos que sabia ali encontrar: "Tenho aqui umas ideias novas que gostava de vos mostrar". Entre eles, Albano da Rocha Pato, jornalista do Primeiro de Janeiro em Coimbra. José Afonso transportava as ideias todas arrumadas na cabeça, viola não tinha com ele. Rocha Pato, homem dado ao convívio e sempre disponível para todo o género de tertúlias, faz um convite que marcará em brasa o percurso de – tomemos-lhe a familiaridade – Zeca: "Vamos a minha casa que o meu filho tem viola". A história estava em marcha. Em 1962, ao transpor a porta de casa de Rocha Pato, Zeca Afonso levava 33 anos e tinha atrás de si uma iniciação e elogiada passagem pelo fado de Coimbra. Ali, onde se juntara a António Brojo, António Portugal, Luís Goes e Sutil Roque, levantou uma voz de uma expressividade rara e comovente. Pertencia à chamada Segunda Geração de Ouro do fado da cidade universitária, uma paradoxal forma musical elitista e simultaneamente de alcance popular. Mas tratou-se de uma passagem, que não era homem de se deixar prender, sobretudo pelas regras de um género com grilhetas de profundo conservadorismo. Em 1960, com o 45 rotações de Balada do Outono, começa a ensaiar uma fuga emancipatória. Daí que, em 1962, casa de Rocha Pato adentro, como escrevíamos, Zeca Afonso entre precisado de apenas uma viola. A guitarra portuguesa caíra. A música teria de ser outra. À comitiva intelectual d!A Brasileira, juntou-se o filho de Rocha Pato. Rui Pato foi primeiro chamado e instado a trazer a sua viola ao "dr. José Afonso, que tem umas coisas para nos mostrar". Depois, ficou-se nas escadas, à escuta, e a deixar crescer em si a coragem para se dirigir ao "doutor". Irrompeu finalmente pela sala e pediu: "Você deixa que eu experimente esse acompanhamento?", lembra-se de ter perguntado. "Eu acho que pode estar melhor". Zeca apreciou a ousadia, passou-lhe a viola para as mãos e aquilo que lhe ouviu, de imediato, foi o acompanhamento que ainda hoje conhecemos como a viola de "Menino d!Oiro". "Eh pá, mas o puto toca isto bem!", terá exclamado de forma mais ou menos síncrona o grupo. Seguiu-se "Tenho Barcos, Tenho Remos". E depois "No Lago do Breu", e mais depois ainda "Senhor Poeta". Todos os quatro temas do EP Baladas de Coimbra. Rui Pato deu uma cama para as ideias de Zeca naquela mesma noite. Aos 16 anos, "além de andar a aprender guitarra clássica já andava nos fadunchos de Coimbra, nos grupos de fados do liceu", lembra. A experiência não era assim tão pouca, portanto. Terminada a sessão, não restavam dúvidas a Zeca – "É ele quem me vai acompanhar". E assim foi. Durante sete anos. O início da parceria aconteceria com os temas daquela noite, registados em Baladas de Coimbra, título que se repetiria no EP seguinte, lançado em 1963, gravados ambos no Mosteiro de S. Jorge de Milreu, na margem esquerda do Mondego. Desse segundo disco faria parte um dos temas mais emblemáticos da obra de Zeca – "Os Vampiros". Pouco depois, em Maio de 1964, numa apresentação na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, o cartaz apresenta as suas composições como "as suas belas e estranhas baladas" perpassadas por "todo o sentido poético-trágico da sensibilidade do nosso povo". Nesse mesmo ano, mais quatro temas registados em Cantares de José Afonso, disco em que o autor deixa de ser-nos apresentado como "dr." José Afonso. O pormenor é tudo menos isso. Não é o grau académico que é apagado da sua música, é o peso da cidade que é convidado a sair e vê a porta fechada na sua cara. "O Zeca desiste de Coimbra", garante Rui Pato. "Coimbra, ao fim e ao cabo, era a matriz que havia na sua voz e na sua maneira de cantar. Mas os temas, tanto musicais como as próprias poesias, já não tinham nada que ver com Coimbra e as suas tradições". Em entrevista ao Se7e, em 1980, Zeca identifica com clareza o ponto de cisão: "A primeira fase, lírica, está ligada ao fado de Coimbra, à necessidade de cantar, sobretudo ao ar livre, ao conhecimento físico do país. Depois segue-se outra fase que é declaradamente política, de uma actividade de franco-atirador que se inicia com a canção "Menino do Bairro Negro! [Baladas e Canções]". "Não racionalizei muito bem a ruptura que estava a ser feita", confessa o viola. "Mas o Zeca sabia perfeitamente. Ele era um homem ligado ao fado e as pessoas estavam habituadas a vê-lo no registo do fado. E Coimbra até 1969 era uma cidade medieval, aristocrática, universitária – no sentido jesuítico do termo -, praxística, tradicionalista. Quando o Zeca faz isto é um escândalo. As pessoas diziam-me "Eh pá, andas para aí a fazer umas maluquices com o Zeca, o que é isso?!". E é então que enquanto o "doutor" fica pelo caminho, trancado no passado português, o homem segue para África. É Agosto de 1964 quando José e Zélia Afonso partem no Angola-navio para o Moçambique-país-à-espera-de-o-ser. A bordo, Zeca vai escrevinhando canções sem saber ainda o que lhes fazer. Ao deixar Portugal, o músico sofria de um severo bloqueio à sua actividade de professor e de uma sobrevivência ao nível do mais básico por conta da música. As canções eram pagas a troco de um copo de vinho tinto e um pão com chouriço se em concerto, ou a troco de mil escudos – 200 para Rui Pato- por cada disco gravado. "O Zeca achava que devia ser mais bem pago", confirma Pato. "E realmente era miseravelmente pago, era uma gorjeta aquilo que lhe davam". Caem já as folhas no calendário de 1967 quando José Afonso regressa a Portugal e ao ensino – primeiro para o Algarve, seguidamente para Setúbal -, esperado por um contrato a firmar com Arnaldo Trindade, da Orfeu, segundo o qual fica obrigado a lançar um novo LP todos os anos, mas que lhe providencia – sob a forma de um salário – a estabilidade para que a música possa tomar o lugar da sobrevivência no lugar das suas preocupações. É assim que nasce o LP Cantares do Andarilho, prolongamento da "heresia" de dispensar a guitarra portuguesa – Zeca dizia que era tocada com aramesfarpados. "É a altura do George Brassens, do Bob Dylan, dos espanhóis e dos cubanos que aparecem muito com este modelo de cantautor que se acompanha com viola", lembra Rui Pato. "Não era preciso mais. Só mais tarde é que a estética evoluiu e tinha de ser de outra maneira". A opção levaria a que só nesse 1967 Zeca tivesse actuado em Coimbra com o seu companheiro de palco, após cinco anos a serem chamados por muitos movimentos cine-clubistas, alguns clubes de campismo, algumas associações operárias e um ou outro movimento estudantil em Lisboa. "O Zeca cantava muito no Barreiro. Faziam lá uma festinha, qualquer coisa, chamavam-no e acabava por ser um comício com cantigas dele". É precisamente neste contexto, de sessões culturais atravessadas pela palavra politizada, que Zeca se cruza com o escritor Urbano Tavares Rodrigues, quadro do PCP. Um cantava, o outro discursava. "Eu abusei um bocadinho da amizade porque ele era muito generoso – eu levava-o para toda a parte e ele não pedia nada", diz Urbano. Foi nesses ambientes, de resto, que se foi forjando a ligação entre os dois que conduziria ao pedido de Zeca para que Urbano escrevesse o texto de apresentação de Cantares do Andarilho. "Fomos falando da música dele, das origens, de como tinha nascido, da canção de Coimbra, da balada, dos apports estrangeiros, africanos, das coisas da Beira que ele tinha recuperado, coisas camponesas… Era impressionante o que ele ia buscar a muitos lados", recorda. Ou, em resumo, segundo o escritor, "a música dele não é sujeita a dogmas". A esse ontem de 1968 em que escreveu que "José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã", junta hoje a "absoluta consciência de que era uma figura imortal". Em estúdio, a postura de Zeca era uma extensão do seu rigor habitual, lutando por ajustar a música fixada na gravação àquela que escutava com clareza na sua cabeça. Por falta de formação formal, a música germinava em Zeca agarrada a ideias que cantarolava frequentemente ao seu viola para que este as traduzisse no instrumento. "Só aí, quando gravámos o primeiro LP, é que ele comprou um gravador; outras vezes fazia uns bonecos de uma viola, onde havia de se pôr os dedos", diz Rui Pato. Com Cantares do Andarilho dá-se também a aposta clara em estúdios de gravação profissionais. Diferença de vulto quando os dois primeiros EP haviam sido registados no tal convento velho e desabitado perto de Coimbra, "com um gravador portátil que vinha do Porto, numa furgoneta 4L, e nos momentos em que não passava nenhum automóvel naquela estradita ao pé do convento a gente gravava uma música". Cantares do Andarilho é gravado nos estúdios Polysom, em Lisboa, com o engenheiro de som Moreno Pinto, que Rui Pato recorda como "um anjo da guarda", uma vez que os ajudava generosamente a contornar cada dificuldade, por pequena que fosse. "Estar com ele era estar com um amigo no estúdio, não era um técnico". Além das questões técnicas, aliás, Moreno Pinto mostrar-se-ia fundamental em contrariar as inseguranças e hesitações que segundo Pato assolavam regularmente a extrema exigência de Zeca em estúdio. "Passeei muito com ele lá fora porque não queria gravar. Dizia que tinha comido e a comida estava a subir-lhe à cabeça, que não estava bem-disposto. O Moreno Pinto tinha muita paciência para lidar com a situação e como já estávamos a entrar numa era de gravação multipistas, fazia umas repicagens à base da tesourinha, com grande habilidade, e o Zeca ficava todo contente". Um dos temas incluídos em Cantares do Andarilho, "Vejam Bem", havia sido pensado originalmente para participar no Festival RTP da Canção. Os mesmos amigos de A Brasileira que assistiram ao nascimento de um novo Zeca Afonso, haviam de incentiválo a concorrer e como a resposta do músico aconteceu sob a forma de pergunta "o que é preciso fazer?", a resposta seguinte foi colocada nas mãos de Rocha Pato. O jornalista telefonou aos colegas do Primeiro de Janeiro em Lisboa e estes informaramn o que era necessário enviar uma cassete e uma partitura dentro de um envelope sem nome. "Partitura?!" – olharam uns para os outros. "Mas quem é que pode saber fazer uma partitura?". Talvez o senhor Pires, vendedor numa loja de electrodomésticos da cidade, a quem frequentemente Zeca e Rui Pato compravam uns discos. Acontece que o homem tocava saxofone na banda da Pampilhosa – o que, desde logo, indiciava alguns conhecimentos mínimos de teoria musical. Chegados à loja, cumprimentaram o vendedor e logo fizeram soar um "Oh senhor Pires, se a gente lhe cantarolasse uma cantiga você passava isso a partitura?". "Então não passava!". O resto vem pela voz da memória de Rui Pato: "O Zeca sentou-se lá na loja dos frigoríficos, comigo e com o senhor Pires a ouvir, ele ia cantando e eu com a viola ia ajudando, e o tipo escreveu aquilo tudo". A música acabou por não ser seleccionada, num ano (1967) em que o vencedor foi Eduardo Nascimento com "O Vento Mudou". E o vento, de facto, começava a mudar. Na vida de Zeca Afonso, na sua música, em toda a que se fazia à sua volta e, em breve, no seu país."
Gronçalo Frota, Fevereiro 2012
Jornalista