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Zeca sempre

21/02/2022

Em 1987, José Afonso embalou a trouxa e zarpou. O cantor, poeta e compositor partiu minado por uma doença incurável. Morreu pobre e abandonado pelas instituições. Vítima dos novos “vampiros” que destroçaram a cidade sem muros nem ameias. Mas a sua voz limpa e comprometida continua viva. E assim continuará para lá de todos os chacais.

Tivesse eu ainda a minha velha máquina de escrever e esta crónica seria ali escrita. Em homenagem ao artesão da palavra e da vida, que fazia música “como quem faz um par de sapatos”. Fui, sou, um dos índios do Zeca. Corri meio mundo para o ver e ouvir. A ele e ao Adriano; ao Zé Mário (Branco) e ao Francisco Fanhais; ao Pedro Barroso e ao Samuel; ao Luís Cília e ao Manuel Freire – a todos aqueles que cantavam e cantam a esperança e o sonho.

José Afonso, homem fraterno e justo, esteve sempre ao lado dos mais frágeis de nós. E, por isso, foi banido de cena e das rádios quando o mês de Novembro aqui chegou. E se vingou! Foi a segunda tentativa de assassínio que o Zeca sofreu. Antes tinha sido expulso pela ditadura da antiga Escola Industrial e Comercial de Setúbal, onde fora professor.

Fotografia de Maurício Abreu.

E foi ali que a 24 de Fevereiro de 1987 uma multidão homenageou o músico, compositor, poeta e combatente, que morrera na madrugada anterior, aos 57 anos, no hospital da cidade. Não em silêncio, mas de punho erguido, com cravos vermelhos, entoando “Grándola, Vila Morena” e muitas das outras canções da sua autoria.

Fui um dos 30 mil que estiveram em Setúbal. Com o meu amigo Joaquim Meirim (1935-2001), treinador de futebol, que sempre alinhou à esquerda, e para quem o Zeca escreveu um poema, quando estava preso em Caxias, em 1972. Ei-lo:

Meirim

À sombra que está
Há quem incline a cabeça
Há quem na vertical
Diga que sim não está mal
Minha tia era
Dessa razão

Dizia humilde contrita
Não subas
Ao parapeito de Judas
E o vendilhão era recto
Não pretendia ser mais
Que um funcionário correcto
Pois na instrução
O César tinha razão
Só não tinha a dele
Verdade diga-se
E sede
Da pura apocalíptica
Depois quem lhe fez a cama
Foi um menino de mama.

No final dessa tarde cinzenta e nebulosa à beira Sado, a multidão gritou em uníssono: “Zeca estará sempre vivo”. E um grupo de jovens, de cravos vermelhos nas mãos, ergueu uma enorme faixa branca onde se lia “Zeca, não morrerás entre nós”. Pois não, Zeca sempre.

Soares Novais

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