Zeca Afonso no ‘ai-pode’

Vivemos no tempo em que os números falam e, desta vez, o que eles dizem é que o disco José Afonso chegou ao número um da tabela nacional de vendas.

É sabido que os “números um”, como a tradição, já não são o que eram – ainda assim, não deixa de ser uma boa surpresa que o álbum mais vendido em Portugal seja uma antologia do autor de Grândola Vila Morena.

Nasci em 1974 e talvez por isso esteja mais à vontade para dizer o óbvio sobre a obra de Zeca Afonso: é indispensável retornar uma e outra vez a esta música e a esta voz.

A música e a voz de Canção de Embalar, Cantigas do Maio, A Morte Saiu à Rua, Senhor Arcanjo. Retornar sempre ou, no caso das novas gerações e dos mais-que-distraídos, escutar pela primeira vez, pela primeira vez arriscar o espanto destas palavras-melodias tão solitárias e tão populares, tão modernas e tão tradicionais, tão revolucionárias e tão de todos.

Neste canto acha-se a qualidade do que é para lá do tempo sem ser pesadão de “intemporal”.

O silêncio, a certeza, a ousadia simples e despida destas composições/interpretações.

É difícil dizer ao certo o que é. Um mistério não matemático, que reage à análise. Uma coisa no centro que segura a emoção, e prende-a, prende-a até ao ponto óptimo. Uma voz que, sempre que acontece, “caem os anjos no alguidar”.

Ao contrário do que parece ser a opinião dominante sobre o “legado do Zeca”, não vejo vantagem em separar o “génio musical” do “cantor militante”. Antes o oposto, talvez. Nesta época de tantos “jogos criativos” sem espessura nem pensamento, a seriedade do seu caminho – num contexto completamente diferente, já se sabe – deve servir como excelente aviso.

São canções tão portuguesas, que ouvi–las é como nos ouvirmos ao espelho. Canções em que a “poética” do todo (palavra, música, voz) se organiza com tal justeza e generosidade que cada termo – mesmo os que, fora dali, surgiriam como tristemente “datados” – traz consigo uma hipótese de reinvenção.

Com Zeca Afonso no “ai-pode”, vê-se melhor a cidade, garanto. Os outros, a diferença, o lado de lá deste mundo.

Jacinto Lucas Pires
in Diário online
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