versos do mês

 
 

12 JULHO

Protótipo mania ou parâmetro
Verdade simples mas dura
A moral deste rimanço
É de todas a mais pura

Nota: Quarta estrofe do poema ‘Milão 76′, um dos poucos títulos não repetidos em verso e o único que define o lugar e a data da inspiração. Demonstra o poeta José Afonso, compondo uma linguagem moderna, numa ironia com termos tecnocráticos, num molde mais popular.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.82.
 

12 JUNHO

Entrou na cama a barata
A virginal favorita
Que às escondidas me mata

Nota: 2º, 3º e 4º verso do poema ‘Entre Sodoma e Gomorra’ (entretanto musicado por João Afonso), mais um exemplo do que se pode chamar de ‘Ciclo de Caxias’ (mais de 20 poemas, escritos em Maio de 1973).

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.75.
 

12 MAIO

Saio para a rua pergunto
Sempre no mesmo lugar
Se são as legislativas
Mais arrogantes que o fisco

Nota: Versos 17 a 20 ‘A fineza no vagar’, poema produzido no início dos anos 1980, onde o sarcasmo vive de referências concretas, conjunturais e, ao mesmo tempo, intemporais.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.110.
 

12 ABRIL

Ai flores quem me dera pupilas
ai vagas onde flutua esta cadeira
oriundo de que pátria sou
Como vieste?

Nota: Últimos quatro versos do poema ‘Vem tudo para cima do rapaz’, escrito provavelmente na década de 1960, servindo, assim, como exemplo bastante precoce para uma oscilação poética entre o surreal e o popular na obra de José Afonso, exemplo quase pós-moderno.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.51.
 

12 MARÇO

Plantei a semente da palavra
[...]
Num terreno ao lado
A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia

Nota: Versos 1 e 4 a 7 do poema-canção ‘Alegria da Criação’, escrita e composta para a peça ‘Fernão, Mentes’ (1982, de Helder Costa), e interpretada no último disco de José Afonso por Janita Salomé (1985).

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.322.
 

12 FEVEREIRO

De tudo faria um coração arcada
durante noites e noites de Vigília
Ó Pátria Movediça

Nota: 2ª e última estrofe do poema ‘Busco uma festa colaborante’, escrito provavelmente no início da década de 80. Texto lírico curto mas de invulgar densidade e , mesmo que o título – o 1º verso – possa sugerir uma ironia à volta do papel do artista empenhado. Contudo, o poema consegue entrelaçar as referências da mitologia antiga, presente em muitos poemas de José Afonso e mostrando o seu lado de poeta culto, com a aliança insegura, mas profundamente sentida pelo eu lírico.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.109.
 

12 JANEIRO

Em Janeiro bebo o vinho

O país tem curriculum nocturno
[...]
Altas hora da noite escorre um vinho

Nota: O primeiro verso de uma das canções mais panfletárias de José Afonso, editada em 1976, seguida pelo 9º e 12º verso do poema ‘Não nos vêm de cima as incertezas’, escrito em Maio de 1981. Esse texto não musicado contém a denúncia do surto da prostituição e destaca-se pelo uso de uma linguagem de moderna e circunstancial oralidade.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, págs.165 e 278.
 

12 DEZEMBRO

Ó Portugal do meu lado
Para onde vais embarcado?

Nota: Com estes dois versos termina o poema ‘Ao Zé Letria que também sofre de azia’. Pertence tematica e estruturalmente ao que se poderia chamar de ‘Ciclo de Caxias’ (Maio de 1973). O sobrinho músico João Afonso editou recentemente a versão musicada, baseada numa composição do próprio Zeca, que ficou por completar, intitulada de ‘Bombons de todos os dias’, o que corresponde ao nono verso.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.68.
 

12 NOVEMBRO

Les baladins
Sont venus un jour

Nota: Início de ‘Les baladins’, canção ainda não recuperada em termos de discografia, mas tida entre os singles que teriam sido editados entre 1958 e 1969. Seguindo uma indicação vaga do próprio José Afonso, na edição de Cantares, este texto confirma-se como uma leitura intertextual do poema ‘Saltimbanques’ (1913) do francês Guillaume Apollinaire (1880-1918), marcando uma das várias referências literárias do poeta cantor. ‘Les baladins’ é o único texto lírico que Afonso redigiu completamente em língua estrangeira.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.187-188.
 

12 OUTUBRO

Tempo que lavra o tempo, meus amigos
regressam ternamente a suas casas.
Com eles edifico uma morada

Nota: Versos 13 a 15 do poema não musicado ‘Quinhentos anos de após anos quinhentos’ (Bucareste, 23.10.1982), que está entre os últimos que José Afonso escreveu. Representa uma fase em que a lírica de Afonso retoma uma tendência metafísica que aparece na fase inicial (finais dos anos 50).

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.170.
 

12 SETEMBRO

Silêncio de paz rezada
jaz no fundo dos atalhos
[...]
Engano dos amanhos calculados
é teu poema duro
do suor dos teus ganhos amassados
fizeste o vinho impuro.

Nota: Selecção de versos do poema ‘Silêncio de paz rezada’ (1958), texto lírico bastante denso que se destaca em primeiro lugar por revelar uma sensibilidade lírica já presente numa fase inaugural da obra de José Afonso. A precaridade laboral e a respectiva condição de vida é a referência da qual resulta uma estética rica, sem que a mensagem fique submersa.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.30.
 

12 AGOSTO

noite bate-bate
bate o pulso poça
no quarto prenúncio
do retraimento

Nota: 17º ao 20º verso do poema ’Vai-te circunspecta’, escrito provavelmente no início dos anos 80. Lançando a metáfora fúnebre da noite, o texto lírico acaba por produzir uma vibração entre a ironia combativa do eu lírico e jogos fonéticos que realçam a matéria poética.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.136.
 

12 JULHO

Inalterável mistério, substistência.
Entre o vivo e o morto o abismo da incomunicação,
A distância absurda da intemporalidade.

Nota: Versos retirados de um dos textos líricos mais complexos e densos da obra de José Afonso. O poema ’Pela quietude das tuas mãos unidas’ parte da experiência da morte da avó de José Afonso, no início dos anos 50. O topos da morte aparece de forma enxuta e reificada, para depois desaguar numa essência metafísica. São estes exemplos que aproximam os versos de Afonso à poesia de um António Gedeão.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág.26.
 

12 JUNHO

É muita fruta, querida, a gente estagna
Não se perde nem ganha a cozinhar mezinhas [...] É tempo de emigrar meu passarinho.

Nota: Quinto, sexto e último versos do poema ‘Eu hei-de subverter a minha dama’ (cerca de 1981). Apesar do último verso marcar directamente a temática da emigração, o texto caracteriza-se através duma aproximação simbólica e irónica, tal como já propõe o título do poema.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág. 134.
 

12 MAIO

Tenho saudades do vento
[...]
Tenho de tudo cautela
da minha infância calada
[...]
Tenho saudades da espuma

Nota: Terceiro, décimo, décimo-primeiro e décimo-oitavo verso do poema ‘Isto é sono’, escrito provavelmente no início dos anos 80. Trata-se dum dos textos líricos mais intimistas.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág. 125.
 

12 ABRIL

Em Abril águas mil
Ponto final

Nota: Dois versos retirados do poema-canção ‘A acupunctura em Odemira’, editado em 1978. José Afonso canta estes dois versos noutra camada sonora, que se coloca numa relação inferior à voz principal, tendo a primeira uma linha melódica ousada, mas pouco saliente dentro do arranjo musical. Esta produção musical satiriza ainda mais a banalização cultural, sendo o tema central da letra.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág. 292.
 

12 MAR.

Eu seriamente requeiro fatias
Dos outros não de mim poder iluso
Eu seriamente vou medir o espaço
Que vai de parafuso em parafuso

Nota: Últimos quatro versos do poema não musicado ‘Eu seriamente’, que teria sido escrito no início da década de oitenta. Este texto lírico assenta numa estrutura anafórica.

Fonte: ‘Textos e canções’, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág. 139.
 

12 FEV.

É forte tudo isto a ferro e fogo
Malha o grande ferreiro em cima da limalha
A fé é um vitupério o Império um logro
a Honra é que não falha

Nota: Sexta e última estrofe de Quatro homens em terra, poema escrito o mais tardar em 1982. Musicado, embora nunca gravado por José Afonso, foi destinado à peça Fernão, mentes? (1982) de Helder Costa (teatro A Barraca).

Fonte: Textos e canções, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág. 154.
 

12 JAN.

É verdade é verdade
Sófocles era barbeiro
E Píndaro capelista
A tempo inteiro

Nota: Versos 1 a 4 de É verdade é verdade, texto lírico não musicado, escrito provavelmente na década 60, redigido em verso livre e com uma incidência esporádica de rimas.

Fonte: Textos e canções, org. de Elfriede Engelmayer, Relógio d’Água, Lisboa 2000, pág. 54.
 
 
Versos do mês é uma iniciativa iniciada em 2012 por Alexandre Martins (Alemanha), investigador e docente de literatura e cultura portuguesa, em colaboração com a AJA.

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