tributos

 

| Concertos de tributo

Com as tamanquinhas do Zeca | Couple Coffee
Steel Drumming toca Zeca Afonso | Drumming
Zeca Afonso – 20 anos | Victorino e José Carvalho
Conversa com Carlos Paredes e José Afonso | Duo Raízes
Os cantautores | D’orfeu
Que viva o Zeca | Erva de cheiro
20 canções para José Afonso
Traz outro amigo também | Amílcar Dias, Carlos Guilherme e Luis Pacheco Cunha
A formiga no carreiro | Companhia De Mente
A Tela canta José Afonso | A Tela
Tributo a Zeca Afonso

 

| Teatro

Traz outro amigo também | Os saltimbancos

 

| Textos poéticos

É de murta e de mar a tua voz | Natália Correia

É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.

É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.

 

| Poema de Sérgio Godinho

Eh Zeca Afonso
canto para ti
ainda era moço
quando te ouvi

Convite à dança
fizeste a quem
era criança
soube-me bem

Eh Zeca Afonso
mal tu sabias
que duro osso
que então roías

Menino de oiro
no teu trenó
foi mau agoiro
deixar-te só

As mafarricas
vieram todas
pobres ou ricas
celebram bodas

Disparam tiros
de tudo comem
até vampiros
e um lobisomem

E os surdos mudos
tapam os olhos
sopram canudos
catam piolhos

Coçam sovacos
abrem a cova
metem em sacos
a tua trova

Mas não te afobes
quem te amofina
só fez que sobes
na nossa estima

Há nas janelas
do teu olhar
duas donzelas
ainda a espreitar

Olham para o mundo
para o alecrim
respiram fundo
cantas assim

Senhor arcanjo
Vamos dançar
afina o banjo
pelo luar

 

| Recitativos | Rui Mendes

E há apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperança, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada.
E é um cantar amargo, um cantar de amigo, colher de vento, fímbria do trigo, o que nos deixa a voz garrida desse homem, exonerado do seu próprio chão, ó chão castrado d’alegria, com o olhar pregado nas ruelas atulhadas pelo silvo das crianças do mondego ou naflauta, crivo de águias, de bensafrim.

E esse homem, pregoeiro da brisa da madrugada, de pulso livre e coração descoberto, à mesa tingida pela luz a que nos sentamos sempre, apenas canta, apenas joeira palavras e miséria, pressagiando coisas bem afortunadas: um céu azul, sem vínculos, sobre o relento do nosso chapéu e um laranjal para o alfange do mendigo.

Ó terreiros da erva, ó terreiros da fome, ó íngremes quebradas do medronho, ó ror de dores, ó ror d’amores, quanto ror de foices tínhamos presas aos pulsos para rasgar, ao sabor dos vales do vento, este pedaço de terra morta e devassada, onde cresce a nossa ira, que as bagas do mar ferviam, junto aos campos cor de lima e de limão.

E esse homem, no fresco tingir da outra margem, vigia a crista das colinas, rasga janelas nas ribeiras, remonta às eiras onde as nossas costas são flor da rosa e suão, e queima, no tear das trovas, a dor panfletária das noites e dos dias, e vai-se juntando, como um pensamento puro e repercutido no ladrar dos cães, à garganta dos caminhos, aos vãos das escadas onde dorme a erva cidreira, lavando a luz dos nossos olhos, pernoitando também o olhar nos nossos pra­tos vazios, enquanto os nossosfilhos vazam grandes eiras de sal, sôbolos rios que vão por babilónia.

E essa voz assim cerzida, memória de romãs e arestas cruas, assim aberta a todos os homens que chegam, a todos os homens que partem – amigos e inimigos são a província e a colheita do seu sonho – essa voz, fermento e febre de terno regadio, eis que nos é promessa dum grande dia sobre as pedras manchadas pelas nossas toalhas de malva: as nossas mãos, em pleno tumulto de armas e auroras, ditando o peso e a sentença que carregavam.

E, no usufruto das clareiras que rasgamos por toda a parte, das bandeiras que desfráldamos até às vertentes dos muros e das amuradas, esse homem de novo começa a cantar:fragorde sarças sobre a sombra dos ombros, passos e pássaros na descarga do limiar das noites e dos dias para outros promontórios, e a gadanha movendo a substância putrificada dos presídios e das mansões, e a cor liminar das laranjas do mar, e o azul arável do céu, tudo, por assim dizer, que enchesse, como um frémito, o leito dos rios, a estrela das montanhas, macerando folhas de acanto.

E assim vos digo: esta voz sobe a prumo e é a folha púrpura das casas, quando amanhece, e é o rumo do pastor, céu abaixo: com a sua manta de açafrão e suas pombas bravas, e é a rede que se lança sobre as abelhas, logo que atravessadas pelas linhas do fogo, e é a fresca flor da nossa mão em vão julgada.
Voz dentro sangue, matriz do nosso sangue, terra indivisa: sangue e rosas.

 

| Soneto para o José Afonso | João Grabato Dias

O sílex maxilar abaixa e vibra,
viva rocha fremindo o escárnio e a dor
dos outros, que a sua é apenas flor
enrazinhada ao maxilar e frívola

quase, como quem não pretende. Víboras
de ar contente enpinam-se ao calor
da alheia orelha, e passado e amor
e presente e gente, ganham a estrídula

razão que inda não tinham. No paul
de vicioso bafo, um tremendal
de coxas rãs coaxam no azul

um vazio silênclo. E à barragal
do porto aconchegado em ocul­
ta estultícia chega um vento de sal…

 

| Idílio com a morte | Fátima Maldonado

Para o José Afonso

I
Após duelo hórrido
tenaz o cavaleiro
jaz inerte
mas não está vencido,
melhor dizendo perdeu os estribos
e vai sem pedais em direcção à morte.
Quem sabe, talvez ela o console,
lhe dê afinal o que nenhuma mulher,
sereia, sílfide ou cadela
logrou entregar,
abrir, envolver ou mostrar.
Nunca viu horizonte
onde pudesse à sombra do pinhal descansar,
o escudo recebendo a carícia do sol,
nem no regaço a dama do licórnio o acolheu
ou conheceu a partida das lágrimas
e mesmo assim o cavaleiro não esquece
feras letras, vocábulos no zénite
que a vida lhe ensinou a desdenhar.
Quando for o regresso
mais sábio, mais seg’uro e mais audaz
talvez então se resigne ao amor.

II
Pediu o cavaleiro
ao homem que maneja
o ferro
o seu vocabulário.
Pediu-lhe emprestadas
as formas das censuras,
o fia gelo, a vergôntea, o montante,
a pólvora que rodeia
os vocábulos
e fez delas coroas de espinhos.

 

| Salutación á José Afonso | Atahualpa Yupanqui

Ya no estoy en tu piedra. hermano Afonso.
Como un viento de mi pampa
legué leno de cantos enamorados y salvages.
Aqui quedan algunos, cerca de tus olivos.
junto a los rios, trepando calles
y caminos duros. Ouros como los hombres y
las cosas.
Como no amar la tierra, compañero?
Si en el aroma fuerte de la hierba
te saluda en la tarde la paloma escondida.
La mano deI amigo es tu estandarte.
Tan hondo como el mar es el amor deI pueblo.
Donde quiera que vayas, la poesia amanece
como una novia inacabable y tierna.
A mi América vuelvo, José Afonso.
Te abrazo. hermano, y aI combate vamos.
Somos hechos de lúz y polvareda.

 

| José Afonso | Hélia Correia

Em louvor da desordem.
Exaltando
o vinho e os seus fermentos.
Em louvor dos motivos
e em louvor
da pura insensatez,
nos sentaremos nós ouvindo este homem,
atravessados pelo seu galope.

Como a uma criança, aconchegamos tudo aquilo que ele amou.
Tudo o que é térreo
e sujo
e sorridente,
e oferece o rosto
de chapão à luz.
Coisas que nos deslizam sob a pele disparando calor.
Regendo as linhas
fundamentais da vida.

Há um nó de caminhos onde este homem
se pôs a esconder pólvora e sementes,
calendários rurais.
Dele não pode falar-se sem que se ouça
a espantosa alegria.
Sem que de novo bata pelos sítios
o eco de um tambor.

É bem possível
que a canção vele, oculta nas cidades.
Que se incline nos nossos pensamentos
como um espelho lunar,
duro e pacífico.
E sob o seu olhar nos desloquemos
por entre a turbulência.
E dela venha um íntimo sentido
e o seu ardor nos saiba
conduzir.

Pois deste homem ficou o ofício.
Os meios.
Sabemos de que modo se levantam
as pedras sobre as pedras.
Sabemos de que modo
as aguçar.

Existe ainda
um cordão de linguagens.
Vibra teimosamente o ar, movido por sopros
e até mesmo
por fadigas.
E a sua voz empurra e alimenta essas circulações.
É o vento do sol
que permanece.

 

| Poema de José Manuel Mendes

somos a verdade nua
o rosto erguido
não a máscara
o gesto que não
teme

sofremos na carne o flagelo
dos chicotes
sangramos a determinação
e a coragem
a luta
- incêndio vivo
força nova em nossos
braços

Canta Zeca Afonso
tua voz desnuda
e térrea
canta e desperta
os punhais
do vento

atam-se as mãos que soltaram
os balões
levaram as flores
na manhã
ao coração do povo

e unidas ganham o caminho
despedaçam as algemas
fazem as praias
do rubro sol

cresce a certeza
da vitória
urgem as horas
ardem as palavras

canta Zeca
canta e desprende
os fios
das tempestades

 

| Homenagem a José Afonso | Luís Serrano

Esta voz
é o que resta dum grito
ou dum silêncio
ou dum pranto desabitado
voz solitária e branca
onde uma água desprevenida

lentamente anoitece
a memória das coisas
está nessa luz desamparada
que respira
e também os filhos esses
tão incertos

delicados frutos
por quem perseguimos
lágrimas e risos

 

| Novos cruzados | Luiza Neto Jorge
(Lembrando as suas deambulações em Faro com A. Barahona, Zeca, Bronze e Pité)

Sequiosos descem,
seus corpos de esponja
a rolar na treva,
iates rompendo
à babugem de água,
caravanas caras
em fossados por
rochedos e hortas,
sedentos recolhem
cisternas, piscinas
sob o seu pendão,
e saqueiam, sangram
consagrados à
salvação do corpo
estes cruzados!

 

| Para José Afonso | António Ramos Rosa

o canto que se erguia
na tua voz de vento
era de sangue e oiro
e um astro insubmisso
que era menino e homem
fulgurava nas águas
entre fogos silvestres.
Cantavas para todos
os acordes da terra,
os obscuros gritos
e os delírios e as fúrias
de uma revolta justa
contra eternos vampiros.
Que imensa a aventura
da luz por entre as sombras!
A vida convertia-se
num rio incandescente
e num prodígio branco
o canto sobre os barcos!
E o desejo tão fundo
centrava-se num ponto
em que atingia o uno
e a claridade intacta.
O canto era carícia
para uma ferida extrema
que era de todos nós
na angústia insustentável.
Mas ressurgia dela
a mais fina energia
ressuscitando o ser
em plenitude de água
e de um fogo amoroso.
É já manhã cantor
e o teu canto não cessa
onde não há a morte
e o coração começa.

 

| Quando a luz fechou os olhos | Janita Salomé

Quando a luz fechou os olhos
Amansou a terra um ar morno
De cinza, doce, de cores desmaiadas
Pelos perfumes vindos no bafo da noite

Do ramo mais fino do silêncio
Soou o rouxinol num canto dorido
De seda e ondas, que soltava em cada nota
Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo

Teceu um véu e ali se guardou
De volta às entranhas da vida
Basta um sopro mágico, liberto,
Para que a luz acorde a cantar

 

| Uma canção | Maria Teresa Duarte Martinho

Correm velozes vários animais na erva molhada. É ele que os vê espreitar e logo de seguida desaparecer, enquanto vai conduzindo o camião cheio de homens que vestem ganga velha, a cara da cor do carvão. Gritam e agitam os braços para as mulheres à beira da estrada, as crianças em busca de mais amoras.
Ao longe tocam guizos. E sinos. Depois de algum silêncio, recomeçam todos os sons. Da mais antiga cidade alemã trouxe um rádio chamado ELEKTRA, que pôs sobre o chão de ardósia do moinho de azenha transformado em casa para viver. Avança para ele e espera um bocadinho (antes da música, já se acende dentro uma luz constante). E agora ouve-se de novo a mesma canção.

Fragância morena/ Portal de marfim/ Ondina açucena/ Chamando por mim

Às vezes também canta. Com o casaco pelos ombros, caminha entre os pinheiros, esta mania dos pés quase descalços, pisar flores que ninguém viu nascer. Segura um pau e com ele recusa os picos, afasta fetos. Pingas grossas caem-lhe na testa e desata a correr, lembrando-se da voz desconhecida. Inventa novas palavras para a música da canção; escreveu uma vez um poeta que tudo canta e cantar é enorme. Tudo canta e cantar é enorme.
Procura a bicicleta debaixo da caruma e monta-a. Pára para colher frutos, enche com castanhas ainda verdes os bolsos. Retira-as dos ouriços e fica feliz por não se magoar. Ali em baixo, inventou há muitos anos uma história. Eram duas miúdas em que uma tinha olhos de quem está sempre a subir uma escada de caracol. Essa dizia à outra que via na rua jarras cheias de prata e saturava-a, propondo-lhe planos de roubos e fugas. A outra respondia-lhe que isso tudo era uma alucinação com tanta luz, o que na verdade tinha diante dos olhos eram vasos do longo corredor segurando abundantes ramos de camélia branca, com um brilho não muito longe do da suave prata. Ele contorna as árvores em sitios cada vez mais perigosos, levanta-se do selim. Fixa-se o riso; como sempre quer agarrar tudo à volta.

Na flor da montanha/ Na espuma a cair/ Nos frutos de Agosto/ Na boca a sorrir

À noite, a euforia das festas. As luzes, o fogo. Jogos de moedas. Tremem os palcos improvisados à frente de cafés e tabernas com rendas de videira sobre as portas. Bebidas, conversas, mais canções que se ouvem. Muitos rapazes e raparigas com fitas apertando os pulsos, é ai que acreditam estar a sua sorte. Atravessa as aldeias, nos caminhos às curvas inclina-se, solta do guiador as mãos, procurando equilíbrio. Fogo de artifício começou há pouco a cair, sem sequer chegar a deitar lágrimas.

Ai húmida prata/ Meu sonho sem ver/ Ai noite de lua/ Meu lume de arder

Ele está de pé, frente à última janela na sua casa da cidade. Uma boca que pousa na orelha. Quem é? Vira-se e diz-lhe nos cabelos: pensa na tua cabeça, já viste como a tens? Ela leva logo as mãos à nuca. (Com o avanço dos dias, ELEKTRA repete maior número de canções. Algumas pessoas já foram à rádio falar da vida do autor, mas eles preferem a voz de quem canta). Regressa trazendo uma tijela de água, sai-lhe um fino pente do bolso. Ele ajoelha defronte dela e molha devagar o pente. Em que pensas? Em nada. Faz-me um risco ao lado que é o risco mais bonito que há. Depois levanta-se e vai até ao primeiro degrau da escada, apoia-se e começa a escorregar no corrimão lustroso, reflectindo a humidade dos cabelos. Nunca mais a há-de ver.
Tinha uma oficina junto ao porto. Ao acabar de limpar vasos e pintar azulejos, imaginava futuras combinações, então beijava as suas próprias mãos. Nos instantes em que sinos tocavam, acreditava poder encontrá-la ao pé da água, mirando luzes frouxas. Acertara um encontro, mas tomava-se cada vez mais tarde. Passeava à beira das docas e nas praças pareceu-lhe uma noite reconhecer o homem que cantava aquela canção. Chamava-o pelo próprio nome mas ele não respondia, acabando por se sumir, como se a Terra fosse demasiado redonda. Queria dizer-lhe uma coisa, desejava dar-lhe o braço e repetir-lhe ao ouvido um elogio. Se não nascesse, tinha que ser inventado.

Da morte zombando/ Na aurora lunar/ Num jardim suspenso/ Do seu fulgor.

 

| Voz de Outono | Carlos Eduardo

Tudo o que precisas
Para mo pôr a chorar
São letras que eternizas
Quando te pões a cantar.

Tudo o que é puro
Vem pela voz que canta
Mesmo o que, duro,
S’atravessa na garganta.

Beleza esquecida em voz
E guitarra com razão
Que aperta mais nós
À nossa solidão.

Chora baixinho
O que em mim palpita
Ao ouvir que, sozinho,
Um murmúrio grita.

 

| Poema de Ângelo Ochoa

Zeca:
Na tarde lenta, recostavas-te p’los bancos corridos da CGD,
esperando que caísse, na tua caderneta, alguma pensão, ou tença,
das ao fim concedidas a famintos de paz.
Ar acossado, anónimo kosovar, a quem distribuem roupas,
sabonetes, pasta pra dentes, toalhas, desodorizantes,
ousaras soltar teu grito: ‘Um rio de sangue do peito aberto sai!’
Pague-se-te já agora a conta certa:
Se ao fim caíste, faça-se-te, no talhão, em que não cabes,
reflorir as vivas flores vermelhas da madrugada, vulgo cravos,
pra que viceje a mesmíssima canção da chã certeza que és.

 

| Homenagem | Eduardo Aroso

Anjo insubmisso!
Voz orvalhada,
Cor de trigo,
Ondulada.
Grito do pão
Mal repartido.
Trovador
Luso,
Universal,
Redentor.
Quando voltas
Para a liberdade solta,
Límpida, generosa.
De esperança.
Quando voltas
Desejado?
D. Sebastião,
Quer tenhas este nome
Ou não.

 

| Poema sobre o ódio à vida | Valter Hugo Mãe
(para o Zeca Afonso)

Havia um sapato de cristal no meio das escadas, era
certo que uma futura princesa ali o passara. um príncipe
triste, acompanhado de seus pajens, recolheu o
delicado objecto e suspirou, antevendo um amor eterno,
o coração acelerado, o príncipe tornou-se muito ansioso e
mais ansioso à medida da espera. e esperou demasiado,
enquanto todos os seus esforços falhavam o encontro
com a futura princesa. um dia, estava quieto em seus
aposentos quando súbito lhe anunciaram a bela moça.
entrando de cautelo no rico palácio, vinha já coberta
de ouro e luzia como luz que aumentasse. foi quando
lhe perguntou o pretendente, quereis casar comigo,
um príncipe triste. e a moça respondeu, perdi o sapato
sem querer, sou contra o amor, prefiro odiar todas as
coisas, ser fútil, promíscua. o príncipe ordenou que
deixassem todos os seus aposentos e ponderou o
suicídio. fechou as janelas, como num luto e, no dia
que veio, começou por inventar as leis mais justas e
mandar que oferecessem moedas aos pobres.

 

| José Afonso | Jorge Castro

por vezes um herói faz-se a cantar
no espanto doce e leve
de iluminar a cidade
e recordar tempo à vida
em acordes de esperança

por vezes ele é a dança
é a razão encantada
de uma balada que abala
o torpor em contradança

por vezes ele é sorriso
ironia que desarma
o medo de arma em riste
sorriso que faz o triste
ser alegre de coragem

é a flauta encantada
é nau de outra viagem
que traz ao povo a alegria
de cantar em romaria
com bandeiras desfraldadas

bandeiras da paz – do pão
e do nome que ele tem
que um povo sem ter nome
pode bem morrer à fome
e há-de chamar-se Ninguém

cântico a Catarina
suor e sangue num grito
menina que o medo mata
e que o vermelho desata
nas papoilas da campina

ou lagos de breu no céu
bairro negro do menino
com olhos de estrela de alva
deixai-o que é pequenino

Zeca amigo está contigo
um povo desperdiçado
que se perde em triste fado
mas colhe em tua voz abrigo

seja a voz de quem trabalha
no som ritmado dos passos contra vampiros de palha
nascente em vila morena
que entre nós criou laços de saber quem mais ordena
de saber que vale a pena entrelaçar nossos braços
fazer da vida um poema
dourado em Maio maduro
dentro de um coração puro
cheio de vida para dar

… que por vezes um herói
também se faz a cantar.

 

| Poema de José Carlos Pereira

Elevo os teus cabelos à categoria de cidade
– a Cidade Utópica! De Cirene
as ruas e avenidas são os partos da amargura
pelo vento irmanado de Jerusalém,
no teu ventre de Menino. Istambul
sedutor das cabras montanhosas:
Onde e quem
nossa morte
a Sul.

 

| Uma barquinha para o Zeca | Carlos Carranca

Vai a barquinha
vai
a menina
vai
p’lo rio a passar

cai a neblina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Vai a barquinha
cai
a neblina
vai
p´lo rio a passar

vai a menina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Vai a barquinha
vai
a menina
vai a barquinha
vai.

Cai a neblina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

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