Sobre um concerto em Viana do Alentejo

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Até as cantigas eram recebidas de armas nas mãos…

Há precisamente quarenta anos, no dia 3 de Março de 1973 e a pouco mais de um ano da eclosão da Revolução dos Cravos, Viana do Alentejo assistiu àquele que terá sido o mais participado e mediático acto colectivo de resistência contra a ditadura ocorrido na nossa terra: o espectáculo de “canto livre” onde deveria ter actuado, entre outros, o cantor José Afonso.

A ideia desse espectáculo tinha nascido um mês antes, no dia 31 de Janeiro, durante um jantar que decorreu no Monte Alentejano, em Évora, onde se reuniram largas dezenas de oponentes ao regime a pretexto de celebrarem aquela data histórica. Esses jantares, embora vigiados de muito perto pela polícia política – a tenebrosa PIDE -, estavam autorizados desde a chamada “primavera marcelista”, uma tentativa de reciclagem do Estado Novo que, contudo, deixou tudo na mesma… Muito amigo de Francisco Pinto de Sá (pai do anterior presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo), Zeca Afonso participou, cremos que a seu convite, nesse jantar, tendo actuado no final. Acompanhavam-no José Jorge Letria (actual presidente da Sociedade Portuguesa de Autores), o jovem cantor açoriano Carlos Alberto Moniz e a sua companheira de então, a Maria do Amparo.

O Cine Teatro Vianense pertencia, desde 1970, à família Baião, muito ligada aos meios de oposição ao regime. Um dos seus elementos, então estudante em Évora, estava presente nesse jantar, pelo que em conversa com os “cantautores” logo ali delineou a possibilidade de organizarem uma sessão de “canto livre” naquela sala, marcando-se o dia 3 de Março, um sábado de Carnaval, para a sua realização. Sendo sobejamente conhecido que o Zeca Afonso encabeçava uma longa lista de artistas proibidos pelo regime, o espectáculo foi cautelosamente divulgado como sendo de “variedades”, procurando-se assim iludir a vigilância da PIDE. A sua “comissão organizadora” era composta pelo António Murteira, de Évora e pelos jovens Luís Filipe Branco e Francisco Baião, estes dois últimos de Viana.

A partir de Évora foi organizada uma excursão, em autocarro alugado nos “Belos”: o bilhete, vinte escudos, incluía o transporte e a entrada na sessão. Os folhetos de divulgação foram mandados fazer na Tipografia Diana – infelizmente não se conhece nenhum exemplar. O programa incluía, para além de José Afonso, a participação de José Jorge Letria, do grupo vocal “Intróito” (tinham sido lançados, anos antes, no famoso programa da televisão “Zip-Zip” e tinham também participado no Festival da Canção de 1970), um grupo de “free-jazz” da linha do Estoril, os “M.S.A” (em que tocava um outro Chico Baião, mais tarde conhecido como mentor dos “Ortigões”) e o Grupo Coral dos Vindimadores da Vidigueira, este último então liderado pelo saudoso poeta Manuel João Mansos.

As licenças para a sessão foram tiradas na Câmara Municipal pelo Luís Filipe, que vivia em Viana e trabalhava nos escritórios dos “Moinhos de Santo António”. Conseguiu-as sem dificuldade de maior, certamente porque naquela altura se realizavam com alguma regularidade espectáculos de variedades no Cine-Teatro Vianense – a maioria a favor da construção do campo de jogos do Sporting -, pelo que aquele bem pode ter passado por ter sido apenas mais um. Mas também e sobretudo porque o funcionário da câmara que as emitiu, na altura ainda há pouco tempo naquelas funções, desconhecia por completo o interdito que pairava sobre tal naipe de artistas.

A poucos dias do espectáculo e com centenas de bilhetes já vendidos o regime percebeu, finalmente, que tinha autorizado algo que não o devia ter sido. O Luís Filipe foi então mandado chamar à Câmara, sendo-lhe comunicado pelo Andrade, o chefe da Secretaria, que afinal ainda era necessário submeter “à apreciação superior” a lista das canções que iriam ser interpretadas. Alinhavado esse rol de cantigas, no qual os organizadores da sessão tiveram o cuidado de não fazer incluir temas que, à partida, ainda comprometeriam mais as já escassas hipóteses de realização da sessão (nem pensar em incluir, por exemplo, temas como “Os Vampiros” ou a “Menina dos Olhos Tristes”), foi o mesmo entregue na Câmara. A resposta apenas chegou no próprio dia do evento, às onze horas da manhã: apesar de já estar autorizada, a realização do espectáculo estava agora proibida!

Em entrevista ao Jornal de Viana do Alentejo, publicada no seu número 4 de Março/Abril de 1973, o Luís Filipe Branco conta as peripécias desses dias:

“Do dia 27 [de Fevereiro de 1973], ficaram todas as autorizações em ordem: na Secção de Finanças, na Câmara e na Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais.

No dia 28 recebemos uma comunicação assinada pelo chefe da Secretaria da Câmara, em que nos informava que teríamos que apresentar os títulos das canções. No dia 29 fui apresentar os títulos requeridos, mas como o chefe da Secretaria estava ausente, voltei no dia seguinte. Apresentei então as canções e fui informado de que era necessário um “visto superior” que o próprio Secretário iria requerer.

No dia do espectáculo, cerca das onze horas, veio a resposta definitiva, não o autorizando.”

Chegamos então ao dia 3 de Março. A vila, habitualmente calma e pacata, começou a ver-se repleta de gentes logo pela manhã, caras desconhecidas, muitos de cabelos compridos e com mochila às costas, uns de transporte próprio, outros vindos nos transportes públicos. A Praça da República e o largo em frente do Cine Teatro foram-se enchendo de gente. Entretanto também já tinham chegado a Viana alguns agentes da delegação de Évora da PIDE/DGS, comandados pelo célebre inspector Melo. A sua viatura de serviço, toda a gente a conhecia: um Volkswagen 1200 verde, com a matrícula FE-52-24. A Guarda Republicana, reforçada com elementos vindos de Évora e de outras localidades vizinhas, tentou impedir o acesso à vila; mas sem grande sucesso, uma vez que até a excursão organizada a partir de Évora conseguiu chegar a Viana.

Ao longo de todo o dia os organizadores desdobraram-se em tentativas que pudessem conduzir a um eventual desbloqueamento da proibição. A intermediação do então presidente da Câmara de Viana, José Carlos Guerreiro Duarte, não resultou, o Governo Civil estava encerrado e o chefe da Secretaria da Câmara, que na altura já vivia em Évora, não se encontrou ou não se deixou convenientemente encontrar.

Entretanto a tensão ia subindo. Ao cair da noite as pessoas não arredavam pé, já toda a gente sabia que o espectáculo não se iria realizar. Centenas de pessoas aglomeravam-se frente ao Cine Teatro: porque estar ali, uns ao lado dos outros num espaço que se queria público, em suposta transgressão perante um poder considerado arbitrário e ilegítimo era, por si só, já um acto de efectiva resistência.

Os acontecimentos precipitaram-se. A polícia política, acolitada pela Guarda, atarefava-se em mandar dispersar as pessoas que, porém, insistiam em não obedecer. Um jovem, armado com uma simples flauta, tocava perto dos ouvidos do Tarouca, um dos agentes da PIDE. O Melo arrancou-lhe o instrumento das mãos, lançou-o raivosamente ao chão e espezinhou-o. Por esse mesmo tempo cantava o Francisco Fanhais:

“Cortaram o bico, ao rouxinol, Rouxinol sem bico não pode cantar…”

A certa altura o chefe dos Pides sacou da pistola, puxou a culatra atrás e berrou ameaças. Um ano depois, a 18 de Maio de 1974 e passado que estava o pesadelo da ditadura, Nuno Gomes dos Santos, um dos elementos do grupo Intróito que a tudo isto assistiu, escrevia no jornal Diário de Lisboa:

“Foi em Viana do Alentejo, há tempos. Lá fomos, com as violas e as cantigas na bagagem. Era, apenas, mais um de entre os espectáculos em que participávamos regularmente, não em grandes salas, não com bilhetes a um preço exorbitante, mas para o povo, para quem não tinha oportunidade de ouvir senão o que de muito mau lhe davam, em regra, por uma rádio demasiado presa, por uma televisão completamente viciada. Que música tinha Viana do Alentejo? A que lhe davam essa rádio e essa televisão.

Foi por isso que fomos: o José Afonso, o Letria, o Intróito. Que as pessoas estavam entusiasmadas com o espectáculo que lhe apeteciam, via-se pelo movimento desusado das ruas, pelo aglomerado de gentes às portas do teatro. Mas as portas estavam fechadas, e assim continuariam por toda a noite. Não era só o povo que esperava por nós.

De pistola em punho, virada para a multidão, um senhor (?) dizia que ali não se ouviriam cantigas nenhumas. Outros homens (?), também armados, dissuadiram qualquer tentativa de quem queria cantar e de quem se sentia com o direito de ouvir.

Até as cantigas eram recebidas de armas nas mãos…

Por fim a multidão acabou por dispersar. Poder-se-ia pensar que a força tinha vencido a canção, mas não! O espectáculo não se tinha realizado, é certo, mas a mobilização que tinha provocado tinha-se constituído como uma muito bem sucedida acção de luta contra o regime. Mesmo silenciado, o “canto livre” ou “canto de intervenção” revelava-se possuidor de uma enorme eficácia política, nunca até então alcançada por qualquer outra forma de expressão artística. Mesmo com o bico cortado, o rouxinol tinha conseguido passar a sua mensagem…

Anos mais tarde seria o próprio Zeca Afonso a recordar este episódio como paradigmático:

“Algumas das minhas intervenções não se chegaram a concretizar porque a Pide as impedia. Houve sessões suspensas ou interrompidas pela polícia política no próprio local. Por vezes, os acontecimentos a que davam lugar estas interrupções, a repressão exercida sobre os dirigentes dessas colectividades e sobre mim próprio – como aconteceu, por exemplo, em Viana do Alentejo quando a Pide e a GNR vieram interceptar-nos -, funcionavam como estimulante de ordem política muito mais importante do que se houvesse uma intervenção cantada…”.

Até o próprio regime percebeu que tinha cometido um erro grosseiro ao proibir e reprimir algo que já tinha autorizado. Uns dias depois destes eventos, a 19 de Março, o então director-geral da Cultura Popular e Espectáculos, Caetano de Carvalho, dirigia ao ministro César Moreira Baptista uma curiosa exposição em que afirmava a determinado passo:

” Na semana passada, noticiou o jornal “República” que um grupo de jovens democratas ia organizar, em Viana do Alentejo, um espectáculo em que figurava como cabeça de cartaz um desses cantores políticos (José Afonso). Sucedeu que só foi possível intervir à última hora, quando já se encontravam centenas de pessoas junto ao local onde se ia realizar o espectáculo. Proibir o espectáculo em condições destas é também politicamente inconveniente.”

A repressão do regime não se ficou, porém, por aí. Ainda na noite de 3 de Março os organizadores da sessão foram levados para o posto da GNR de Viana onde foram longa e surrealistamente identificados e interrogados pelo cabo Mendes, indivíduo que, mais tarde, se veio a confirmar acumular aquelas funções com as de informador encartado da PIDE. Nos dias que se seguiram, em Évora, muitos dos participantes na jornada de Viana foram compelidos a comparecer na polícia política, onde também foram interrogados e ameaçados. Embora por motivos não directamente relacionados com o espectáculo de Viana, o próprio Zeca Afonso acabou por ser preso no dia 30 de Abril seguinte, tendo permanecido incomunicável na prisão de Caxias.

Pouco mais de um ano passado sobre os acontecimentos de Viana do Alentejo foi uma canção de Zeca Afonso que deu o mote para que, numa certa madrugada de Abril, todo um País cinzento e triste se tenha, de repente, alegrado e enfeitado de cravos vermelhos. Quarenta anos depois, vividas que foram algumas alegrias e, sobretudo, muitas desilusões, eis que ecoam de novo, mais claras e necessárias que nunca, as estrofes da canção:

“… terra da fraternidade. O povo é quem mais ordena. Dentro de ti, ó cidade!…”

Francisco Baião / Março de 2013

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4 Comentários para “Sobre um concerto em Viana do Alentejo”

  1. Miguel Ângelo Cândido Augusto

    Foram tempos negros que os saudosistas e ou os seus descendentes e lacaios querem tornar a impor,de formas mais sofisticadas,como na Web,nos “midia” já praticamente controlam toda a informação,mas não controlam as mentes dos que nunca se resignarão,com o Zeca sempre presente no seu exemplo de cidadania e nas suas canções!O fscismo foi uma dura realidade,mas resistimos e vencemos,como resistiremos e venceremos as lutas de hoje,pelo futuro do nosso povo!!!

  2. Quero endereçar os meus sinceros parabéns ao Francisco Baião pela interessante crónica que, sobre os acontecimentos de 03 de Março de 1973, aqui publica e que foi lida no passado dia 03 de Março de 2013, no Cine-Teatro de Viana do Alentejp, aquando da realização do espectáculo com Nuno do Ó «Enquanto há Força», tributo a José Afonso.
    É bom que haja pessoas que se preocupem com o nosso passado recente, para não só servir de ensinamento aos mais novos, de reflexão aos mais desatentos, mas sobretudo para se não deixar cair no esquecimento.
    É que, digam o que disserem, o fascismo continua à espreita, ali ao virar da esquina.
    Zeca Afonso é uma figura merecedora de todo o nosso respeito e gratidão.
    E esta canção, embora tenha perdido uma estrofe, terá ganho em síntese, contenção e poder de influência.

  3. antónio henrique conde

    amigo Zico, porra, ao fim de quarenta anos é que compreendi toda a história do zeca em viana e do teu triste padrinho melo em 73. além do mais, sinto saudades da malta que ainda está avisada e, andando para velha, tem de aguentar os netos de salazar! um abraço de amizade do conde e talvez nos vejamos por aí – a última vez cruzámo-nos em Marvão, tens ideia. abraço forte.

  4. José Elizeu Pinto

    Zico, está tudo certo menos a cor do VW carocha, que era azul e não verde como escreves na tua belíssima crónica.
    Nunca memorizei a matrícula de um carro meu com a mesma ‘limpeza’ com que, ainda hoje – passados que são 47 anos sobre a primeira ‘boleia’ que nele apanhei (a contragosto, como se poderá imaginar) – papagueio o FE-52-24.
    O resto é como se fosse um filme do neo-realismo português, tardio.
    Abraço grande.

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