REintervenção

Se fosse vivo, José Afonso teria celebrado a 2 de Agosto 82 anos. Fosse vivo e é provável que apreciasse com generosidade uma homenagem como “REintervenção”, álbum em que catorze canções da sua obra riquíssima são recriadas por um conjunto de nomes eclético que vai do Vítor que cria uma fantasmagórica “Grândola Vila Morena” aos Terrakota, fiéis a si mesmos, a transformar “Coro da Primavera” num óptimo afro-samba-cítara-e-surrealismo.

Perante uma obra da dimensão da de José Afonso, músico maior do século XX (não só português, mas do globo), uma coisa era certa: qualquer versão ficaria num patamar abaixo do homenageado. Quando se prepara para ouvir a primeira delas, sabe-o também o ouvinte. O arranque, porém, é magnífico e não deixa um amargo de boca (para isso temos as inenarráveis versões, ignorantes da alma da música de José Afonso, dos Zeca Sempre). No início, quando ouvimos “Canção da paciência”, encontro felicíssimo entre a guitarra rendilhada de Norberto Lobo e a voz, trovadoresca como raramente lhe ouvimos, de JP Simões, percebemos que “REintervenção” serve o propósito de homenagem da melhor forma possível. Ou seja, ao contrário dos supracitados Zeca Sempre, que, à boleia dessa tenebrosa ideia de actualização – “para as gerações mais jovens”, ouvimos em voz de marketeer – transformam as canções de José Afonso em rock FM com os pés para a cova, os músicos de “REintervenção” puxam o autor de “Venham mais cinco” até si, mostrando, quando se completa o mosaico de canções, a forma como o seu legado se infiltrou (necessariamente, inevitavelmente) em diversas proveniências e estéticas. “Eu vou ser como a toupeira”, nas mãos dos Cool Hipnoise e Sam The Kid e na voz de Janita Salomé deixa os túneis subterrâneos e viaja a muitos mil metros de altitude em reverberações dub e folk psicadélico. “A formiga no carreiro”, no piano e harmónio de Tiago Sousa, muta-se em paisagem impressionista e “Lá no Xepangara” mergulha profundamente no rio imenso da música africana – já sabemos e confirma-se: o afrobeat multifacetado dos Cacique 97 não falha. Ouvimos jazz sem palavras pelo pianista Filipe Raposo (“Que amor não me engana”) ou Amélia Muge multiplicar-se nas belíssimas harmonias vocais da versão de “De sal de linguagem feito”. Sendo certo que um álbum desta natureza nunca será imprescindível, “REintervenção” é uma panorâmica, por interposta pessoa, para a riqueza e alcance da criatividade de José Afonso. Neste contexto, é o máximo a que os seus autores poderiam ambicionar.

Mário Lopes | Jornal Público

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1 Comentário para “REintervenção”

  1. “Reintervenções” é, provavelmente, a melhor obra de “covers” das canções de José Afonso, jamais editada em Portugal. Não me lembro de nenhuma melhor.

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