Persistências – Da importância da música de José Afonso na Holanda

Este artigo, da autoria de Rui Mota, foi retirado da revista nº7 da AJA de 1993

Esta história começa em 1972…
Nesse ano, num dia em Janeiro, uma orquestra holande­
sa de instrumentos de sopro nascia em Amsterdão. O nome que adoptaram foi o título da sua primeira composição: ‘De Volharding’. Em tradução literal, qualquer coisa como ‘Perseverança’ ou ‘Persistência’.
Tocavam em tudo o que era manifestações de rua, fosse con­tra a guerra do Vietnam, pela democratização da universida­de ou a favor do aborto. De acordo com a sua filosofia o grupo dirigia-se a si mesmo e não obedecia a dirigentes…
Vinte anos mais tarde, a orquestra ainda existe. Com outros membros, é certo (da formação original, mais não restam do que dois ou três nomes), continuando a tocar temas que fize­ram (a sua) história.
Entre os mais conhecidos, alguns que nos são particularmente gratos. Estão neste caso, ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’. E é aqui que entra o Zeca…

ENTRA O ZECA AFONSO

Porque isso aconteceu, já todos os leitores estão neste mo­mento a imaginar. . .
Até 1974, Portugal ‘não existia’ nos meios de informação holandeses.

Para além dos ‘heróis’ nacionais da época (que incluíam sím­bolos como Fátima, Salazar e Eusébio), parcas eram as refe­rências na imprensa local ao nosso país.
A partir desse ano, e pelas razões que muitos de nós persis­tem em não esquecer, ‘surgiu’ mais um país no mapa da Europa democrática. Indelevelmente ligado a esse ano e data histórica estava uma canção que passou a fazer parte do património cultural da resistência e solidariedade holandesa. Não passava semana, que a televisão não transmitisse ima­gens do nosso país, invariavelmente acompanhadas das estrofes da ‘Grândola’.
Na verdade, a canção chegaria à Holanda muito antes do Zeca… Este passaria (praticamente despercebido) pelo cir­cuito emigrante de Amsterdão na sua primeira visita àquela cidade em Setembro de 1974 e, só quase dois anos mais tarde, cantaria pela primeira vez para o público holandês.
Nessa altura, perante uma assistência de 5.000 espectadores que, de braço dado e a uma temperatura ambiente de 13 graus negativos, repetiram as estrofes da canção obrigando o cantor a actuar em dois palcos na mesma noite do Festival da Contra-Cultura, em Utrechí.
Com ‘Grândola’ eleito hino da ‘resistência europeia’, a popu­laridade da música portuguesa não parou de aumentar…
É aqui que entra o Amilcar.

AMILCAR VASQUES DIAS
Chegado à Holanda em 1974, Amilcar Vasques Dias – um
estudante-compositor de música contemporânea – cedo entraria em contacto com o circuito musical holandês. Aí conheceria Louis Andriessen, fundador e principal impul­sionador do ‘De Volharding’, através de quem chegaria àorquestra com quem começou a trabalhar.

Estamos no princípio dos anos oitenta e José Afonso inicia um período de visitas regulares à Holanda, durante as quais a sua obra ganha uma nova dimensão, graças a duas digres­sões de relativo sucesso.

Amilcar é convidado a fazer arranjos de composições do Zeca para o ‘De Volharding’, que serão gravadas posteriormente. Datam desse período, as gravações de ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’ e, posteriormente, ‘Amor Militante’ baseado num poema de Manuel Alegre.
Mais tarde, já com José Afonso doente e durante um concerto de homenagem que lhe foi feito no ‘Melkweg’ de Amsterdão (Abril de 1985), e que juntou mais de 50 artistas em palco, lá estavam, lado a lado, a orquestra ‘De Volharding’ e o Amilcar, que tocou piano nessa noite…

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1 Comentário para “Persistências – Da importância da música de José Afonso na Holanda”

  1. Um Bom Natal e Feliz Ano Novo.
    Bem hajam pela vossa persistência…

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