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TEXTOS SOBRE JOSÉ AFONSO

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Canta, que n'aide t'afronta | Amadeu Ferreira
Carta de agradecimento a José Afonso, um ano depois da despedida | Adelino Gomes

Era um redondo vocábulo | António Vitorino D'Almeida
Chamava-se Catarina
José Mário Branco 
José Afonso, cantares de um andarilho |
Augusto M. Seabra

Era um senhor | António Pedro Vasconcelos

Falar do Zeca | Luiz Goes
Um homem de coragem
|
Maria Teresa Horta
Zeca Afonso | Saldanha Gama
Reflexões das (suas) andanças galegas | Mário Correia  
José AfonsoJosé Mário Branco 

Só me calham Dukes | Francisco Assis Pacheco  
Um pássaro igual a ti |
Viriato Teles
 
O "London London" de Zeca |
Luís Pinheiro de Almeida
 
"Grândola" Gravada às 3 da Manhã» |
Carlos Correia (Bóris)  
Ensaios na «Brasileira» |
Rui Pato
José Afonso: De Coimbra até ao Sul |
Manuel Alegre  

O músico | Paulo Querido

O homem | Paulo Querido  
A arte de José Afonso é um jorro... | Bernardo Santareno  

José Afonso poeta | Óscar Lopes  
Aquele - o Zeca...| Manuel Louzã Henriques  
Um que não vai em futebóis | Francisco Assis Pacheco  
A noite das lágrimas e da raiva... | Urbano Tavares Rodrigues 
José Afonso tem um significado... | João de Freitas Branco

As canções de José Afonso | Elfriede Engelmayer 
Claro e escuro, mas não a preto e branco
| Elfriede Engelmayer 
 
Vida | Hélia Correia  

Um poeta morreu | Rui Ferreira e Sousa  
Da Introdução do Livro «EH! Zeca Afonso» |Diecter Offenhawber e Reidi Bergmann

Sobre José Afonso | António Rebordão Navarro

A minha história de José Afonso | João de Melo

A solidariedade em José Afonso | João Afonso dos Santos

Variações sobre vozes esmorecidas | Jorge Abegão

Sonhos, sons e afectos | Rui Vieira Nery
Somos nós os teus cantores | Adriano Campos

José Afonso | Daniel Abrunheiro

Histórias que se contam (Não deixe a sua na gaveta e envie-a para a AJA)
 

Histórias de Coimbra | Carlos Couceiro
Passagem do Zeca por Belmonte | Maria Antonieta Garcia

O ovo estrelado | Rui Pato
Numa tarde de Primavera | Vasco de Castro
De como os sapatos do Zeca Afonso dobraram o Cabo Bojador | José Niza

«Coro dos tribunais», chouriço e vinho tinto | José Niza

A sessão no Luso com José Afonso | Armando Sousa Teixeira

 

 

Canta, que n'aide t'afronta
 

Miu armano, arrimado a dous anhos apuis de haber ido a salto, bieno de França ende por 1968. Stá eiqui stá a fazer quarenta anhos. Era un tiempo an que ls suonhos se dezien an francés i l mais grande einfierno se chamaba Guerra de l Oultramar, que solo algo apuis daprendi que era ua guerra quelonial. Quien stubira fuora i nun benisse a apersentar-se pa la guerra era dado cumo zertor i lhougo preso s’atentasse a poner pie na sue tierra. Stranha pátria que ampuntaba ls sous filhos pul mundo a saber de la bida i los oubrigaba a benir para s’antregáren a ua guerra que naide antendie para que serbie i de que se scapaba quien podie. Un tiempo de bergonha, assi me lhembro del.
Bieno miu armano, i todo quanto trouxo cun el de França fui ua bicicleta de mudanças, un giradiscos i arrimado a ua dúzia de discos. Agosto corrie, marralheiro, yá cula trilha feita, i sobraba l tiempo para oubir aqueilhas modas a que ls mius oubidos nunca habien podido chegar. Nien sei cumo l disco nun se gastou d’oubir tanta beç «Os Vampiros», «Menino do Bairro Negro» i «No lago do Breu», modas dun tal José Afonso, de que nunca oubira falar. Un die, l disco scachou-se, mas las músicas yá las habie grabado de las cantar tanta beç. Assi i todo, solo le tornei a oubir la boç yá an 1972, nua Bergança que abafaba. Un amigo habie arranjado un disco chamado «Cantigas do Maio»: habie que oubir a las scundidas, l sonido baixico para que nun chegara a la rue. Apuis, apuis fui até siempre, inda agora cumpanhie, nunca cansada, de las lhargas biaijes de Lisboa a Sendin i a Bila Rial.
Anquanto asperaba oubir la Grândola Vila Morena, na madrugaga de 25 de Abril de 1974, ne l Depósito Geral de Adidos, tenie un nuolo tan fuorte que nun sabie an que parte de l cuorpo se me habie dado. Apuis, fui un arrebento, cumo ua nuite de foguetes de lhágrimas, cumo se aquel que «Era um Redondo Vocábulo», argolha dua cadena, se houbira spartiçado. Solo apuis dessa nuoba era lo oubi cantar algues bezes de biba boç i fui coincendo toda la sue música por uns lhados i por outros, yá que nien denheiro tenie para giradiscos i essas cousas. Tube inda que asperar muito anho para ajuntar la coleçon de las sues músicas, que cuntino a oubir nua ruodra que bai demudando.
Cun el tamien daprendi a dar balor a modas que oubie zde pequeinho, anque an mirandés, cumo aquel «Dius te guarde Rosa, / Lindo Çarafin, / Linda pastorica, / Que fazes eiqui?». I doutras nun falo, que gusto mais de oubir i, al mesmo tiempo que oubo, ir bendo ls cinemas an que ls sonidos se zróban andrento. Nun sei porquei, mas hai palabras, hai sonidos que se buolben quelobrinas de cada beç que las oubo. Nun adelantra ua pessona querer antender essas cousas, bonda oubir. I pensar, mais ua beç, que ciertas pessonas nunca se habien de morrer.
Un die, bai a fazer binte anhos este Febreiro, staba a oubir l telejornal i pónen aqueilha moda d’Outonho que manda calhar fuontes i chorar ribeiras i todo, «que eu não volto a cantar». Tamien ende you le pedi algue auga a las ribeiras i me calhei cumo las fuontes. Era 1986 i la mie bida staba a dar un bolco cumo ua campana, nun fuolego que inda mal daba seinhas d’agarrar un nuobo baláncio. Nun me dou la gana d’ir al antierro, para quedar cula eilusion de que nun se habie muorto i nun deixara de ser l que siempre fura, ua ambuça de sonidos que se sórben. Até hoije el cuntina-me a cantar, siempre cumo se fura la purmeira beç. Quando oubo las sues modas, mais do que de José Afonso, lhembra-se-me de mi. Ye ua música que m’ampurra acontra mi, zde aquel Agosto marralheiro de 1968. Nó cun suidades, mas cun gana de hoije, i de cuntinar a sonhar cun ua tierra de fraternidade. Cun música que faga bolar, nien que seia solo a cachicos, que ye un modo de un nun se sabarrar tanto ne ls tropieços de l camino.

 

Amadeu Ferreira 

 

Carta de agradecimento a José Afonso, um ano depois da despedida

Conheci-te pessoalmente vai fazer 21 anos.
Esperei-te no cais da Rocha do Conde de Obidos, junto dos funcionários da Alfândega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para trás e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandegárias, ten. tando vencer a (futura) lendária relutância do Dr. José Afonso a falar de música, das suas cantigas.
Guardo uma vaga memória da tua mulher, da(s) criança(s), das respostas evasivas a provocarem-me a situação de desconforto que volta e meia tenho de suportar noutros episódios desta profissão de intruso.
Ninguém para te abraçar, à chegada do navio.
E tu a mostrares-te admirado (desconfiado?) com a minha insistência em falar-te de música, e da importância das tuas canções. A minha tarefa era recolher as tuas primeiras declarações no re­gresso à "metrópole". Não me lembro como, mas eles eram bons profissionais) o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX (Onda Média do Rádio Clube Português, da meia-noite às duas), sabiam que ias chegar naquele dia do Verão de 1967. Encarregaram-se de te entrevistar, e de te convencer a gravar algumas canções para o programa. Gravar gratuitamente, que era a velha forma nacional - porreirista de aproveitar os cantores de resistência sem olhar aos seus dramas, sem nos interrogarmos sobre (se tinham) dificuldades materiais.
Vinhas esgotado da experiência colonial de Lourenço Marques e da Beira. E sem um tostão. Não sabias bem ainda onde ficarias a residir. Julgo que me falaste de Setúbal, mas também de.jaro. Só encaravas o ensino como modo de vida.
Regressei impressionado à Sampaio e Pina. Tentei que os realizadores convencessem os. produtores -
os Parodiantes de Lisboa - a pagarem as gravações que te dispuseras a ir fazer dentro de dias. Recordo a alguém a argumentar (interessa saber quem, em particular?) que o Zeca Afonso se devia sentir muito grato ao PBX por este o relançar no país.
A fiscalização do RCP - junto da qual funcionava um representante dos Serviços de Censura - cortou o programa e só uma cunha do actor Raúl Solnado ao Subsecretário de Estado da Pre­sidência do Conselho, Paulo Rodrigues, permitiu a sua transmissão umas noites depois.
Nunca tive coragem de te perguntar se recebeste algum dinheiro pelas gravações. Julgo que te pagaram apenas os transportes para e de Lisboa. Não me lembro que canções novas (era a exigência) cantaste. A lógica manda-me pensar que foram canções incluidas no LP Cantares do Andarilho (1968) ou nos Contos Velhos Rumos Novos. Porém, não sei porquê, fiquei sempre com a ideia que foi no PBX, em 1967, que deste a conhecer as Cantigas do Maio. Talvez porque a esse espantoso monumento da MPP /Canção de Intervenção nada foi feito antes nem nada foi feito depois que se igualasse.
Para mim, o momento do solitário encontro no cais e o episódio do "cravanço" do PBX constituiram a revelação em corpo inteiro de um José Afonso que andou pela nossa terra, como tu próprio declararias mais tarde, a pagar a sua dívida política e cultural para fins que considerava correctos e a pessoas ou organizações para quem valia a pena fazê-lo.
Jornalista da Rádio, foi a ti, à inspiração da tua música e ao apelo dos teus versos que recorri, como outros companheiros, nos tempos de Salazar e Caetano, para fazer passar a mensagem do inconformismo.
Tu dizias por música o que nós não podíamos dizer por palavras. O que nós não tínhamos coragem para dizer por palavras. Devo-te essa lição.
Devo-te tudo o que se deve a quem nos dá força para resistir. Tudo o que se deve a quem tem a coragem de ser até ao fim igual a si mesmo e às ideias que apregoou algum dia.
"Outra voz outra garganta/Outra mão que se estende à que tombara/Uma fagulha num palheiro acesa/O meus irmãos a luta não pára".

Adelino Gomes  

Era um redondo vocábulo

"Grande engano! Mísera sorte! Estranha confusão! ... - são palavras utilizadas por Luís de Camões para definir alguns desastres do aventureirismo lusitano. . .
E não sei porquê - até porque o espírito que presidiu a essas aventuras se baseava num conhecimento profundo e altamente especializado da arte de marear, devendo-se os desastres a contigências próprias dos anseios descomedidos do Poder, e nunca a falhas gritantes de competência técnica..., estas palavras incisivas do poeta renascentista vêm-me à memória sempre que penso nos sons da angustiosa indigência artística e intelectual prod uzidos por alguns grupos musicais portugueses com larga audiência no nosso caseiro mundo do espectáculo, afora alguns indeléveis recortes para o álbum das recordações excursionistas por terras de Espanha, alegria das famílias e orgulho patriótico de uma imprensa dita especializada...
A eminência parda que, em derradeira instãncia, sempre decide as eternas questiúnculas entre o "querer" e o "poder" é, indubitavelmente, o "saber"... Quem sabe, pode quando quer; quem não sabe, até ignora o que poderia se acaso quisse aprender... Para mim, a norma de conduta mais razoável e eficaz consiste em saber-se o que se pode e fazer-se, em função disso, o que se quer. Quem não sabe o que pode, acaba por fazer o que não quer... E quando vejo louvar e incentivar a actividade desses inválidos da música, o seu trôpego caminhar por sobre os calháus ásperos de um som não dominado, por entre os cardos da inépcia mais grotesca, volto a lembra-me do discurso camoneano, sou tentado a perguntar aos empresários, aos agentes, a certos críticos e jornalistas confessamente virgens de qualquer conhecimento técnico (ou mesmo histórico!...) Na matéria sobre que dissertam enquanto apoiam movimentos de tão previsível mau destino: "A que novos desastres determinas de levar estes Reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhes destinas debaixo de algum nome proeminente? Que promessas de reinos e de minas de ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? Que histórias? Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
Camões acaba por amaldiçoar aqueles que puseram nas ondas o primitivo madeirame de barcaças encimadas por uma vela. Eu não amaldiçoo ninguém, é óbvio; mas espanta-me, assusta-me, a leviandade com que se põe num palco, num estúdio, sujeito à verdadeira - e implacável - crítica do futuro, gente que nem sabe pegar num microfone para gemer a sua importância vocal, poética e musical. . .
De todos os actuais êxitos e aplausos ficará cinza, pó e nada. Ficará o fel das grandes ressacas, o sabor do papel de música que nunca se provou... E isso é tanto mais grave quanto não está provado que todos esses infelizes homenageados de hoje, gozados de um amanhã já próximo, sejam por natureza destituí­dos de jeito, capacidade de aprendizagem, até de certo talento para a arte que tanto amam, ainda que sem serem correspondi­dos... A música (tal como qualquer outra actividade profissio­nal...) não vai nas cantigas de tais namorados: São fulanos que ostentam, na melhor das hipóteses, uma fachada razoável, mas que deixam logo a certeza de não terem o interior mobilado...
Nós podemos apreciar mais ou menos, muito, pouco ou mesmo nada, um determinado estilo, sem que isso nos leve a ignorar onde é que está um profissional, alguém que se sabe mexer, al­guém que sabe cantar, que sabe tocar, que consegue indiscutivelmente transmitir uma ideia, um pensamento, uma filosofia... Essa filosofia pode desagradar-nos, até; mas a capacidade técnica ou artística de quem a comunica não deve ser posta em causa, sob risco de perdermos o desafio por abuso da auto-confiança, por ridícula estultícia e arrogância...
Portanto, nâo interessa, em princípio, saber se todos gostamos ou não da mesma música, se todos estamos de acordo com determinadas correntes de pensamento; trata-se, para já, de exigir que os seus defensores saibam exprimir-se, pois só a partir daí poderá haver discussão ou confronto de opiniões.
Não caindo na tendência altamente reaccionária de separar as formas dos conteúdos, temos que admitir que o mundo em que vivemos - ou sobrevivemos... - tem ao seu serviço expressões artísticas que definem as suas problemáticas, a sua ideologia, as suas coordenadas de pensamento: a música de uma sociedade poluída não pode ser límpida como um ribeiro de águas nascentes, não pode ter contornos sonoros definidos ou puríssimos, mas terá, necessariamente, de ser pastosa, poluente, insalubre, endémica. Na verdade, se consentimos que um rio seja sinónimo de esterqueira, como poderíamos aspirar a uma música de encantos pastorais onde pudéssemos mergulhar e nadar sem o perigo das mais abjectas contaminações?!
É evidente que este é o meu ponto de vista. Mas há quem defenda que toda a trampa vale a pena quando a indústria não é pequena. Há quem colabore com as forças de manutenção deste mundo e que defenda como útil e indispensável a entrega a paraísos artificiais compensatórios do inferno em que transformaram a realidade concreta. Há quem defenda efectivamente a droga e a alienação, a ignorância das tragédias e das aberrações como forma de sobrevivência - e essa filosofia tem a sua música própria, assente numa estética correspondente e coerente.
Eu sou contra esse mundo, essa filosofia e essa música - e estou no meu direito, parece-me... Tal não significa, entretanto, que negue (seria absurdo fazê-lo!) a capacidade profissional dos seus mais eficazes defensores: são de tal modo eficientes que há mi­lhões de pessoas que não reagem contra esse destino de inquilinos de uma sempre crescente lixeira, ou que julgam que para combater semelhantes perigos e ameaças bastará ouvir música e idolatrar cantores, o que deixa, naturalmente, uma invejável margem de manobra aos responsáveis pela esterqueira.. .

Pelo contrário, há grupos musicais entre nós cuja nulidade não permite discussão; é correspondente à sua total ausência de ideologia - direi mesmo de raciocínio em relação aos problemas sociais, culturais ou políticos... Mas essa nulidade permite que o grotesco macaqueamento de uma linguagem de teor neo-fascista, por exemplo, possa ser utilizado, sem atritos de qualquer espécie, numa festa de ideologia progressista - e vice-versa!
Mais ainda, estes párias da cultura são muito estimados e promovidos por todas as forças partidárias, tanto faz que cantem para uns como para outros, que mudem de candidato presidencial ou de grupo parlamentar como quem troca as cuecas. Essencial é que a sua mensagem seja absolutamente oca de sentido e que a própria forma como se exprimem não se arrisque a nenhuma definição de fins nem de princípios. Gente para usar e deitar fora...
Ora essa gente... é gente! longe de os condenar como culpados, eu considero que esses lamentáveis grupos são as grandes vítimas de um sistema efectivamente infame, pluralista saga de uma anti-cultura militante, a castração da crítica, a busca a uma sociedade amorfa e conformada, apenas ruidosa, o muito barulho para nada, a ausência de uma vontade autêntica e actuante. Alguns desses actuais incapazes poderiam talvez deixar de o ser se seguissem um exemplo respeitável, uma filosofia concreta.
O símbolo de uma filosofia de participação e de responsabilização dos artistas e intelectuais nos destinos do mundo encontra-se na música e nas ideias de José Afonso.
É um disparate argumentar-se com a teoria de que ele não sabia música. Sabia a música de que necessitava para defender os seus conceitos. Poucos como ele foram capazes de tomar conhecimento do que podiam para fazerem depois o que queriam!
Em nenhuma obra de José Afonso se pode lamentar que ele não tivesse conhecimentos suficientes para se exprimir literária e musicalmente. Foi um artista que soube paradigmaticamente encontrar a forma que correspondia ao seu conteúdo ideológico, sem cedências nem transigências, sem qualquer vislumbre de conformismo ou de aceitação de uma menoridade: o que fazia era bem pensado, bem escrito, bem composto e bem cantado! José Afonso é hoje muito elogiado, nomeadamente por alguns que ele menos poderia suportar em termos artísticos - e não só... Mas isso não é grave. Antes pelo contrário, pode ser muito relevante se os homenageadores se esforçarem por aprender com o homenageado. Que se transformem, quanto possível, os amadores na coisa amada - e tudo ficará certo...
Não se trata de saber solfejo, leis de harmonia ou normas de contraponto. Nem mesmo se trata de conhecer muitas posições na guitarra. José Afonso nunca precisou disso... Do que ele nunca prescindiu foi de criar uma técnica própria, foi de evoluir artisticamente até ao ponto de ser, para todos os efeitos, um Mestre. E o caminho por ele percorrido passou, inevitavelmente, pela consciência de que toda a arte exprime um ideário, se orienta por conceitos estruturados com base naquilo em que se acredita e que se pretende defender.
Não vou sequer ao ponto de desejar que todos perfilhem - como eu tento perfilhar, na medida do meu possível - a linha ideológica pura e intransigente de José Afonso, um homem bafejado pela Razão e por um superior sentido de Justiça, valores que se pagam muito caro...
Penso, isso sim, que o simples respeito pelo artista que ele foi, o seguir do seu sistema de trabalho como padrão para o estabelecimento de um critério de valores profissionais, já poderia ajudar muita gente a enveredar por uma estrada digna e a livrar-se do juizo final de um público que aplaude, compra, consome... - mas, no fundo, não perdoa!
 

António Vitorino D'Almeida 

 

Chamava-se Catarina

Nascido para, como diz a cantiga, "abrir grandes janelas", o Zeca sempre suportou maio fechamento - quer o das ideias, quer o dos espaços. Das duas vezes que foi a Paris gravar comigo, em 1971 ("Cantigas do Maio") e 1973 ("Venham mais cinco"), nunca ele escondeu quanto lhe desagradava e o indispunha a necessidade de ficar fechado no estúdio durante horas, e quanto ele não gostava nada de Paris nem do ambiente dos portugueses de Paris - hoje entendo como tinha razão.
Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um estúdio de gravações, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espaços sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a força simples e lírica das suas palavras? As máquinas! custava-lhe aceitar que a "limpeza" e a "verdade" do som só pudessem ser conseguidas, neste mundo sujo e atravancado, por meio das máquinas, das técnicas, do isolamento acústico. Custava.lhe aceitar que, para fazer chegar aos outros as coisas belas e simples que inventava, fosse preciso tanta guerra para reconquistar o silêncio, a página branca, o patamar vazio donde tudo tem que partir.
Assim, por entre mil episódios que atestam o que acabo de dizer,
esse - o da gravação do "Cantar Alentejano" ("Chamava-se Catarina... ") - que testemunhei aquando da gravação das "Can­tigas do Maio", juntamente com a Zélia, o Fanhais, a Isabel Alves Costa, o técnico Gilles Sallé e, naturalmente, o violista Carlos Correia (Bóris). A opção de arranjo foi: só a viola, e a voz do Zeca. Sem rede.
O regime de gravações - tardes e noites - fez que, nesse principio de tarde, fosse a altura de gravar o "Cantar Alentejano", "Vamos a isto, Zeca?", ia eu dizendo, naturalmente preocupado com a factura do estúdio. "Não tens nada para ir metendo?", desconversava ele. Via-se que não estava pronto. "Queres ir me­tendo outras coisas? Faltam vozes no "Milho Verde" e no "Senhor Arcanjo"... E assim ia passando a tarde. "Está bem, vamos me­tendo outras vozes". Mas não se conseguia grande coisa. A alma dele - percebi depois - estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. E, como tantas vezes acontecia, andava no estúdio para cá e para lá, em passos nervosos, como o jovem leão na sua jaula.
Até que, já pela tardinha: "Eu vou até lá fora, olhar para as vacas" - o estúdio era numa quinta apalaçada, no meio dos campos. Desapareceu, uma hora ou duas. Quando voltou já era quase noite. "Vamos gravar a Cata ri na". O Bóris meteu-se na pequena cabina, para o som da viola ficar isolado da voz. O Zeca, no meio do estúdio, sozinho e às escuras, cantou. Uma só vez. É essa que está no disco.

Nós, os outros, os privilegiados espectadores, estávamos na central técnica, quase todos a chorar incluindo o técnico francês. "Acham que é melhor eu cantar isto outra vez?"
"Não, Zeca, não. Está muito bem assim..."


José Mário Branco 

José Afonso, cantares de um andarilho

Texto de Augusto M. Seabra publicado no "Expresso" a 29 de Janeiro de 1983, dia do último concerto de José Afonso, no Coliseu dos Recreios de Lisboa.
O concerto de José Afonso, hoje, no Coliseu, é um acontecimento excepcional. Um acontecimento que no entanto deve ser tratado nos seus exactos termos, isto é, dum músico, poeta e cantor que, finalmente, se apresenta num concerto pensado como tal.
Por si só, o atraso com que este concerto se verifica é sintomático dalgumas das contradições que pesam sobre José Afonso, sobretudo o sobrevalorizar da componente política "de protesto", "de intervenção", sobre os aspectos poético-musicais.
Ele foi (é) de facto, um símbolo de transformações na canção e mesmo - pela associação entre o seu tema "Grândola, Vila Morena" e o 25 de Abril no processo histórico-político; a opção de se ligat fundamentalmente a certas tendências e lutas foi sua. Em nenhum caso se poderá no entanto esquecer o dado primeiro: ele não teria uma tal importância se não fosse o músico que é.
Ao olhar principalmente para o passado discográfico de José Afonso não pretendo reduzi-lo a um valor ultrapassado, mas sim analisar sinteticamente aquilo que o distingue. Se opto por abordar fundamentalmente o período anterior ao 25 de Abril, é porque creio que apesar dalguns temas (por exemplo, "Teresa Torga” do álbum ComAs Minhas Tamanquinhas), ou da opção possível que era o lado A do álbum Fura, Fura (integralmente preenchido com as canções que fez para o espectáculo Zé do Telhado da Barraca), não só há posteriormente uma certa indefinição da sua obra, como ela foi afectada por problemas técnicos e contratuais que não são da sua responsabilidade.

DO FADO À BALADA

Começou ele no fado de Coimbra (como nos recordaria o disco que, inesperadamente talvez, gravou em 1981), ou seja, numa tradição musical urbana perfeitamente circunscrita, o que é caso raro, já que por definição aquele tipo de tradições tende a miscigenar-se.
A especificidade do fado talvez explique algo do percurso singular que seria posteriormente o de José Afonso. Num dos mais belos discos portugueses que conheço, Baladas e Canções (de 1967), ele estava ainda dependente do fado - sobretudo no estilo vocal- e ao mesmo tempo já para além dele, num espírito algo trovadoresco em que o lirismo melódico dominava, mormente em temas como "Canção Longe, Os Bravos e Trovas Antigas".
Era ainda, como era apresentado, o Dr. José Afonso (com tudo o que isso tem de coimbrão, que se encontrava com o que seria durante muito tempo o seu companheiro na viola, Rui Pato.
Dessa altura e dos anos seguintes, fica-nos sobretudo um José Afonso "cantor de protesto" ("Os Vampiros", "Menino do Bairro Negro") ou ainda muito ligado a Coimbra ("Menino de Ouro"), que foi progressivamente incluindo no seu repertório canções populares rurais. Entre a produção desse período, registada sobretudo em EP's, um tema como "Canção do Mar", é no entanto já revelador, quer no aspecto vocal, quer no instrumental, duma consciência de que a ideia poética se concretiza também no tratamento musical.
O José Afonso que mais directamente conhecemos é no entanto o que surge em finais dos anos 60, e quando do contrato com a etiqueta Orfeu, numa série de álbuns iniciados com Cantares do Andarilho. A voz está mais segura, encorpada, e sobretudo há um notável recriar (por vezes, em autênticas paráfrases) de linhas melódicas tradicionais. Nos sete álbuns editados durante esse período, até Coro dos Tribunais (publicado já após o 25 de Abril, mas que conclui o período), creio que se podem distinguir fundamentalmente duas faces:
a) Uma, directamente iniciada com Cantares do Andarilho, prossegue nos álbuns seguintes, Contos Velhos, Rumos Novos e Traz Outro Amigo Também - embora neste, Carlos Correia (Bóris) substitua Rui Pato na viola, alteração relativamente importante - e é retomada mais tarde, já após Cantigas do Maio, em Eu Vou Ser Como a Toupeira.
b) A outra concentra-se fundamentalmente nos dois álbuns com arranjos de José Mário Branco, Cantigas do Maio e Venham mais Cinco, e prossegue ainda no trabalho com Fausto em Coro dos Tribunais.

TRADIÇÕES POPULARES

A diferenciação não é absoluta porque alguns dos temas dos discos da primeira faceta ligam-se estreitamente à segunda, mas creio que é pertinente sobretudo se se atender a que a simplicidade melódica dominante da primeira é substituída na segunda por uma certa luxúria e invenção sonora, ligadas a diferentes características poéticas.
Digamos que a primeira faceta é ainda e sobretudo um prolongamento da balada, com um encontro directo com tradições populares, e expressa-se sobretudo em temas como "Natal dos Simples", "Tecto na Montanha" e "Vejam Bem" (todos de Cantares do Andarilho), num hino como "Canto Moço", no belíssimo tema que é "Traz Outro Amigo Também" (ambos do álbum com o título do último). Um caso à parte é "A Morte Saiu à Rua", de Eu Vou Ser Como A Toupeira. Caso à parte porque, suponho, só o facto de José Afonso ter sido escolhido, por leitores dum jornal (o Diário de Lisboa) como representante de Portugal num Festival da Canção (do Rio de Janeiro) e ter escolhido apresentar-se com essa canção, permitiu a sua posterior gravação. Caso à parte porque, sendo uma das mais liminares "canções de protesto" (é uma homenagem a José Dias Coelho, militante comunista assassinado pela PIDE, com uma simbologia tradicional - "a foice duma ceifeira", "o som da bigorna"), sobreleva todas as outras na sua qualidade musical.

O DISCO MAIOR

Creio ser no entanto na outra faceta, e no que a ela se liga, que se encontra o mais original José Afonso. Será de recordar os discos que a assinalam.
Cantigas do Maio é evidentemente o disco maior e que melhor sintetiza o músico (ocorre-me que há uns anos, quando o disco foi votado por críticos como o melhor álbum português de sempre, José Afonso reagiu algo mal, falando em que isso seria social-democrata - não percebo porque é que o seria uma tal constatação da qualidade musical, a não ser como elogio à social-democracia, o que não era evidentemente o objectivo).
Se exceptuarmos "Mulher da Erva” (de forçado bucolismo), todos os temas são notáveis. A componente política combina-se com um excepcional trabalho vocal em "Cantar Alentejano", com a fraternidade coral em "Grândola, Vila Morena”. "Milho Verde" prossegue o reportório de temas populares, ligando-se a "Cantigas do Maio" que, com "Maio, Maduro Maio" e "Coro da Primavera" representam uma vertente sempre importante na obra de José Afonso, o do retomar simbólico do ciclo natural das estações. Propositadamente, deixo de fora, por enquanto, "Senhor Arcanjo" e "Ronda das Mafarricas".

IMAGINÁRIO DO ABSURDO

É que penso que essas duas canções, como aliás outras anteriores, sobretudo a titular de Cantares do Andarilho e ainda "Sete Fadas Me Fadaram" e "O Avô Cavernoso" (de Eu Vou Ser Como a Toupeira), e outras posteriores, como "Tenho Um Primo Convexo" e "A Presença das Formigas" (de Coro dos Tribunais), se ligam directamente com o que me parece o álbum mais pessoal de José Afonso, Venham Mais Cinco, constituindo o que ele tem, musical e poeticamente, de mais original, e muitas vezes, de esquecido.
Originalidade que se revela na excepcional adequação entre os poemas de António Quadros (Pintor), poemas mágicos de bruxas e fadas, em que está latente a sombra dum imaginário africano, entre esses poemas, e a forma como José Afonso os musicou - é "Cantares do Andarilho", é "Ronda das Mafarricas", é "Sete Fadas Me Fadaram".
Essa adequação liga-se directamente com características importantes nos próprios poemas de José Afonso e nas suas músicas. Neles se manifesta um imaginário do absurdo, do "non-sense" algo surreal, com constantes referências animalísticas, antropofágicas, físicas e matemáticas. São poemas como: "Senhor Arcanjo/Vamos jantar/Caem os Anjos/Num alguidar/Hibernam tíbias/Suspiram rãs/ Comem orquídeas/Nas barbacãs", "Era um redondo vocábulo/Uma soma agreste/Revelavam-se ondas/Em maninhos dedos" ("Era um redondo vocábulo", seguramente uma das suas mais belas e inventivas canções); "Tenho um primo convexo/Fadado para amnistias/Em torno de ele nadam/ Plantas carnívoras/Agitando como plumas/ As cordas violáceas"; "A presença das formigas/Nesta oficina caseira/A regra de três composta/Às tantas da madrugada".
Musicalmente, este imaginário afirma-se na fusão entre a inventiva melódica e o recurso, mais rímbrico que rítmico, a percussões africanas e brasileiras, numa capacidade de criação de ambientes sonoros que chega a recorrer apenas a sons isolados como envolventes (não suportes) da linha melódica da voz ("O Avô Cavernoso") - são cantares do andarilho.
Mas, ainda de Venham Mais Cinco, não podem deixar de se referir dois temas excepcionais, "Que Amor Não Me Engana", que o acompanhamento de harpa, flauta e violoncelo, envolve como que uma "canção de concerto", e "Se Voaras Mais ao Perto", espantoso tema trovadoresco, inclusive na forma como a voz tende ao falsete.
Se táo múltiplas referências musicais exteriores se podem encontrar assim na obra de José Afonso, adoptadas de forma muito pessoal, é porque ele nunca deixou de se interessar pela multiplicidade das músicas.
O meu contado pessoal com ele, por exemplo, passa por não sei quantos concertos de jazz, ou pelas manifestações de música contemporânea para as quais, há uns dez anos, tantas vezes fiquei encarregue de o avisar, telefonando para Setúbal: na Gulbenkian, iam executar uma obra de Xenakis, de Penderecki, de Stockhausen...
Com tanto atraso, temos esta noite a oportunidade de nos lembrarmos desta simples evidência - José Afonso é um grande músico.

Augusto M. Seabra 

Era um senhor. Desprendido e simples.
Arrogante e firme. Um aristocrata. De uma espécie em vias de extinção: um homem livre.
Quis um pano vermelho a cobrir-lhe o caixão, porque era fiel, como os partisans do poema de Aragon, mas sem insígnias, porque, se ele serviu de bandeira a muita gente, a muitos grupos e partidos, a quem emprestou a voz, a bolsa e a vida, não pertencia a ninguém. Era de uma espécie em vias de extinção: um homem livre, solitário e fraterno.
E ademais um poeta. Um grande poeta lírico, - da família de Nobre e Camões. Um cantor, como Dylan e Ferré. Tão grande ou maior do que eles todos, como pretendia Paco Ibañez? Talvez, mesmo se uma doença traidora e a má sorte de nascer em Portugal, que ele tanto e tão bem amou, lhe fecharam tão cedo os horizontes.
Berlioz fez adoptar a «Marselhesa» pelo povo de Paris, nos dias eufóricos de Julho; ele compôs a «Grândola» em comunhão clandestina com o povo, que a iria adoptar nos dias memoráveis de Abril. É ela, e não a «Portuguesa», o nosso Hino Nacional.
Dizem que teve dúvidas, hesitações, desalentos. Era o sinal da grandeza. Mas não baralha­va os inimigos: a miséria e o medo, a mentira e o abuso.
Nestes tempos de promiscuidade e memória curta, em que uma espécie de SIDA moral começa a contaminar tudo e todos, ele disse sempre de que lado estava, sem ambigui­dades. Era um homem de esquerda, irredutível, irreconciliável. Um exemplo.


António Pedro Vasconcelos 

Falar do Zeca é falar de um grande amigo com quem convivi muito intimamente em Coimbra, sobretuto nos anos 50.
Quando se dão os grandes acontecimentos dos anos 60 eu já não estava lá, já me tinha formado. O Zeca se fosse vivo tinha mais quatro anos do que eu de idade, mas eu era dos cantores o que me formei mais cedo, porque tinha a mania de ser bom aluno, e não era suficientemente boémio, se fosse hoje, reprovava mais de dez anos.
Formara-me em Outubro de 1958 e em
1959 já estava em Lisboa, nos Hospitais Civis, e a partir daí perdi aquele contacto diário, constante, com esses meus queridos amigos, o Zeca era um deles. Como é evidente, com essa vinda para Lisboa, perdi o convívio com aquela geração, e com aqueles acontecimentos da época lá em Coimbra. Mas acompanhei-os muito de perto.
Entretanto fui mobilizado, para a Guiné, onde estive dois anos e, quando voltei, procurei recuperar o tempo que tinha perdido em termos de cantigas, estimulado por terceiros. Depois lá recuperei um pouco e entrei numa fase da minha vida, mais amadurecida talvez, mais velho por dentro também, e, naturalmente, modifiquei a minha maneira de ser. Mas, falar do Zeca é falar de uma pessoa inesquecível. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um lírico, punha as palavras também ao serviço do coração. Eu sei que era assim. E depois de tantos episódios curiosos vou-lhes lembrar apenas um. Eu durante muito tempo não fui repúblico em Coimbra, porque a minha mãe vivia lá, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o único cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa. O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma "República", e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: "Ó D. Leopoldina", que era a minha mãe, "não se importa que os miúdos fiquem aí?" E a minha mãe respondia: "Ó Sr. Doutor", a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, "isto é uma maravilha, hem?". Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: "Ó Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele... quando é que?... "E eu: "...O quê? ainda cá estão?..." Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los. Isto é um episódio que revelo com muita ternura, com muita saudade e com muita afectividade. Eu tenho orgulho de ter pertencido à geração dele, e também, em ter contribuído à minha maneira, para que as coisas mudassem. Mas não me esqueço dele. Foi um grande amigo, é uma grande memória, uma pessoa que eu trago sempre no coração e na minha sensibilidade.


Luiz Goes 

Um homem de coragem

 

Era um homem de coragem. Mas também terno, frágil, de uma infinita tristeza. Falava da esperança, lutava pela liberdade e cantava tudo isto, falando em lealdade, em amizade e em amor.

Sempre.

Acreditava na solidariedade, no sonho e na poesia, como armas de paz. Porque Zeca Afonso era sobretudo isso: um homem de paz, que se insurgia contra a violência, contra a prepotência, contra as desigualdades e as hipocrisias, através daquilo que compunha, que criava.
Encarou o fascismo com uma firmeza e uma rebeldia muito própria, muito pessoal: com aquele seu olhar distraído e espantado de criança; com aquela sua tranquilidade silenciosa, com aquela sua timidez bonita, que todos testemunhámos.

Zeca Afonso deixou atrás de si uma obra importante na música portuguesa, mas para mim ele foi, sobreudo, um amigo especial, diferente, que recordo com saudade.

Um homem de palavra e das palavras livres.

Maria Teresa Horta 

 

Zeca Afonso

Não faço parte dos amigos que sempre o acompanharam na sua luta contra a corja dos malditos. Faço parte dos homens que sempre o admiraram, e seguiram o itenerário desse coração doce que nunca se cansou de lutar pela liberdade da malta.
Vi-o várias vezes na Bélgica e na França a avisar a malta contra o poder fascista que conspira na sombra.
Depois do 25 de Abril fui visitá-lo a casa, em Azeitão, já o Zeca estava doente, mas ainda o poeta teve força para me exortar a continuar a luta, a dar com os pés, à bruta, na medonha centopeia.
Do homem ficou-me o exemplo da coragem do poeta ficou-me a lição de força: o que faz falta é animar a malta!
Poeta da liberdade, o Zeca "expatriou-se" na música e através dela fez-nos perceber quanto a luta sendo raiva que nunca será vencida também é doçura que nunca será sufocada.
Mesmo quando corre tudo mal: no trabalho, na doença, nas amizades, é preciso não renunciar à poesia.
A poesia foi a grande arma do Zeca, arma que meteu medo a muita gente.
Artesão infatigável da canção portuguesa, o Zeca faz parte da música verdadeira: aquela que vive com poucos meios e uma grande amplidão de coração.
O Zeca deixou-nos grandes lições de ternura e de encorajamento: quem nos domina, não nos vence.
Saindo das quatro paredes dos egoísmos burgueses a música veio para a rua e foi cantada pelo povo - é nesta transacção que o poeta se faz homem, e o homem se faz cidadão.
As canções do Zeca fazem parte da memória do Povo. Depois do 25 de Abril voltou-se pouco a pouco à escuridão. Aqui, em Bruxelas as perspectivas são más.
Os eurocratas vivem em casulos dourados, só ouvem música mal-fadada e a malta ouve fados mal-falados.
A ironia da sorte faz que, quanto mais a malta fala de pacifismo, mais as pessoas morrem de tiro.
O alfabeto dos eurocratas não incorpora a música do Zeca Afonso. Não pode!
Quanto mais nós entramos no mundo da comunicação, mais os Ramsés da Comissão Europeia se fecham em casa, entretidos com os bigoudis do computador.
A música, as canções do Zeca Afonso são duma dimensão diferente. São a porta aberta. Há sempre espaço para receber um companheiro, há sempre tempo para conversar com um amigo.
A Cultura do Zeca Afonso era a Cultura das raízes populares, da força de viver, do prazer de amar.
Para além da emoção das palavras, está a intransigência do homem que se opõe à ganância do Poder.
Querem fazer-nos crer que o mundo perdeu a noção das injustiças. É barrete!
O que há é que a repressão é cada vez mais terrível. O poeta tem a vantagem de poder lutar com a força do humor. É este humor feroz que está em muitas canções do Zeca.
A universalidade da música está na intuição do poeta, que o obriga a tomar posição social - a música desligada dum projecto de luta é coaxar imperfeito.
Grândola, terra morena faz parte das canções mágicas da nossa Cultura - não se pode abafar. Foi cantada ontem, será cantada amanhã! É preciso saber encontrar o mistério das coisas.
O Zeca está sempre presente no meu atelier. Ensinou­me a não ser um observador passivo. Ensinou-me que é preciso intervir!

Saldanha da Gama
 

José Afonso - Reflexões das (suas) andanças galegas

 

Uma mesa cheia de feijões.

O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão...

Acaso são ainda «verdes» os «campos» da cultura? A pergunta, a dúvida e a desilusão ficam a bailar-nos, estranha e incomodamente, na mente. Assim, de súbito, de todo inesperada, desenterrada dos pequenos nadas que fazem dos nossos dias um tempo de encontros e desencontros em nome do nosso inefável direito à diferença.
Quando uma cantora galega como Uxia ergue a sua voz para recordar o «muito amigo» Zeca Afonso, num palco de diálogo e de convívio sem fronteiras, a alma com que o faz devolve-nos a «cidade sem muros nem ameias», rasgando os nevoeiros de um «deixa andar» institucionalizado que faz do real um exercício passivo de consentimento e de rendição.

O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.

Se em vez de mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas...

Algures numa aldeia galega não muito distante de Santiago de Compostela, na casa do artesão Pablo, um sonhador do metal gravado com fragmentos da nossa história comum mais remota mas ainda teimosamente viva, a voz do Zeca irrompe da tecnologia dos coloridos «Ieds» para se embrenhar numa Galiza ainda hoje profunda e misteriosa, com um à vontade típico de quem pertence a essa paisagem, como se dela nunca tivesse saído. E nada nos parece estranho. Sabemos das andanças galegas do Zeca, dos cantos de raiz que também interpretou, das amizades que por lá fecundou. E, cada vez mais, chegam ecos dessa presença sempre renovada e dessa integração familiar no universo expressivo dos cantores, compositores e intérpretes galegos.


Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que personalizar cada uma delas...

Talvez Almada Negreiros e outros poetas-gato­branco estejam, em amena cavaqueira, a invectivar o Zeca com um expressivo «deixa-te de merdas, Zeca, emigra e não dês cavaco às tropas», distribuindo pródigos pim! pam! pum! contra a lusa mediocridade, a que só a infinita paciência do Zeca consegue resistir, com aquele inefável «deix'os poisar!». Ele que sabia bem quão importante era personalizar os «feijões», num processo de recusa da civilização do uniforme e do carneirismo decretado pelo monolitismo oficial. E sempre houve quem quisesse que o Zeca emigrasse (se possível para um o mais distante possível «raios que o parta») por razões e por cantos que a roda pesa­da da história não logrou despojar da sua premente e instante actualidade. Só que o canto, esse ficou e o homem, teimoso como era, ainda por aí anda...

O primeiro gesto, o de reunir, aunar, tornar uno,
todas as pessoas de um mesmo território, é o processo da Civilização.

O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização, é o processo da Cultura.

... E a teimosia é tão necessária como o pão (nosso?) de cada dia e como o ar que respiramos. Em vésperas de um encontro jacobeu de algumas «voces ceibes», entre as quais se contam as de Benedicto, Bibiano, Vicente Arauguas e Miro Casavella, para o qual se anunciam os cantos de Zeca Afonso, então essa teimosia surge mais como uma lição de perma­nência do cantautor no seio da grande família cultural do que propriamente uma simples evocação do amigo. O encontro vai acontecer entre o granito secular de Santiago, numa «praça de gente madura», em tempo de festa e de celebração, com alguns poetas-cantores­gato-branco acocorados nos telhados vizinhos, entre os quais nada nos surpreenderia se se encontrassem,ao lado do Zeca, o Astor Piazzolla, o Dizzie Gillespie, o Atahualpa Yupanqui, o Adriano, o Daniel Filipe, o Almada Negreiros (a personalizar feijões...) E também de nada nos surpreenderia se, depois da festa, fossem todos até à Casa das Crechas, beber um copo e ouvir o incrível gaiteiro Carlos Nunez «atacar» a «maruxa», com apoio das gentes de Milladoiro, Luar na Lubre, Na Lua, Xorima e tantos outros que semp~e fizeram, naturalmente, do Zeca, um dos seus. E, perante tudo isto, então somos forçados a admitir que, um dia, o Zeca é mesmo capaz de perder a paciência e passar das palavras aos actos:

- Sou bardo!

Sem tiro curvo

Ou marinheiro a bordo Grito de novo
E o eco me anuncia:

P'ra cá não volto
Que a maré está fria.
José Afonso

Mário Correia 

José Afonso

"Veio, de menino de oiro pela mão, acordar a madrugada. E fez mais, às vezes, uma só canção do que muita panfletada" .
Nos depoimentos que frequentemente são produzidos acerca do Zeca Afonso acaba sempre por haver uma tendência para destacar as riquezas, sem dúvida apaixonantes e essenciais, da sua imensa personalidade. Tal facto dever-se-á por certo à clara transparência da sua prática de vida e à naturalidade com que punha, no mais quotidiano gesto, todo o sentido dos valores que respirava - numa palavra, o exemplo que foi todo o seu percurso como cidadão, companheiro e artista.
Num país (e numa época) em que, por força da opressão, a criação - frágil e livre - se viu obrigada a alistar-se nos exércitos da utilidade social, é de esperar que se repare mais na luminosidade do exemplo do que na genialidade intrínseca da obra.
Mas José Afonso - a par de Ferré, Brel, Yupanqui, Dylan ou Chico Buarque - é um dos poucos autores/intérpretes que, no nosso século, provaram que a forma musical "canção popular" ultrapassa muito o estatuto de arte menor e atinge os mais altos níveis de qualidade estética poético-musical.
Diga-se, em abono da verdade, que o próprio Zeca Afonso nunca apreciou muito que se puxasse para este campo o debate sobre a sua obra. Sempre cuidando (e com que mestria!) os aspectos formais as suas canções, ele sobrelevava sistematicamente a sua potencial utilidade para as pequenas e grandes causas da Humanidade. Sentia-se mais à vontade na pele de testemunha activa do seu tempo do que na de um poeta prospector de eternidades. Certamente por saber, como sempre souberam os grandes, que os "aspectos formais" não são assim tão meramente formais, e que é sempre do solitário combate contra a matéria que acaba por nascer o sentido da obra criada.
O gesto criativo de José Afonso era, à primeira vista, espontâneo, simples, quase primitivo e orgânico. A balada coimbrã - matriz de origem, ela própria radicada no cancioneiro tradicio­nal beirão e açoreano - foi o veículo formal de um poderoso assumir das suas raízes poético-musicais. Anos mais tarde, a vivência africana provoca-lhe uma verdadeira explosão de formas melódicas, rítmicas e tímbricas, e - talvez mais que tudo - da função musical da palavra cantada.
O chão desta fonte de música era a sua profunda cultura humanística, assimilada e vivida. Praticar a liberdade dá asas à criação, eis o que a vida e a obra do Zeca nos ensinam.
A obra de José Afonso, no seu todo, é um património fundamental da cultura portuguesa deste século. Fonte inesgotável de propostas, de caminhos possíveis, limiar de contacto directo com as sombras da nossa identidade de povo antigo e perdido. E, tal como a todo o nosso património, essa obra vive no perigo permanente de lhe acontecer o que vi, não há ainda muito tempo, numa praça de Lisboa: uma belíssima vivenda pombalina disfarçada de loja de "hamburgers".
Começam a abundar, por aí, deploráveis sinais de um aproveitamento bastardo e oportunista do seu génio.
Que não se cansem de nascer as fontes onde o Zeca foi beber.


José Mário Branco
 

Só me calham Dukes

Privei pouquíssimo com o Zeca, não fiz parte dos seus amigos mais chegados, a última vez que estivemos juntos foi em casa dele e havia o sentimento pesado da morte que entrava já pela varanda, bulindo com os cortinados.
Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso. Vou tentar fugir-lhe.
A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!
Bom, não importa, eu era capaz de gostar do Zeca e do Duke Ellington, à vez ou ao mesmo tempo. Um solo a introduzir o Perdido parecia-me tão rico e tão cheio de música como qualquer canção da Beira Baixa ou dos Açores arregimentada pelo fado da cidade. O que eu não fazia era correr a foguetes para um sarau da Queima das Fitas, e escusassem de me lembrar as serenatas ditas monumentais na Sé Velha porque a essa hora onde eu já ia.
Ao Zeca habituei-me. Foi de resto fácil: andava no Orfeon Académico e ele tinha por hábito juntar-se ao grupo nas excursões, actuando em fim de festa. Era simplesmente o melhor. A voz mais bonita, a interpretação mais inteligente. Aí eu calava-me muito bem calado, cedendo ao instante mágico. Mas nunca falámos disso. Para quê, se eu devia parecer-lhe o que realmente parecia à vista desarmada, um pernóstico sem cura.
Também não assisti à guerrilha da balada em Coimbra, pelo motivo bem mais prosaico de uns anos de tropa com que a Sagrada Família me entreteve, mas na hora de fazer as malas escolhi dois discos de 45 r.p.m. do Zeca para irem estagiar comigo em Nambuangongo e Zala, de onde voltaram tingidos de um castanho avermelhado que era a vera cor da guerra. Foram muito ouvidos nos dois aquartelamentos, até pelos srs. oficiais de carreira, que não eram propriamente surdos e agradeciam uma musiquinha de fundo para empurrar o quinto ou sexto brande à noite, pouco antes do chichi-cama.
E pronto, acabaram-se os tiros, voltámos todos ou quase, o Zeca também tinha ido veranear a África (Moçambique, no seu caso),vieram uns versos, veio a música dele, ele às tantas foi para Setúbal e eu remanesci em Lisboa. Em vinte anos não nos teremos encontrado duas vezes vinte vezes. Mas tive ocasião de escrever sobre os discos dele, ou somente sobre ele, entrevistei-o em Caldas da Rainha, lá fui uma tarde a Azeitão com o Viriato Teles - a cena dos cortinados - e depois foi o fim.
Recordam-me duas histórias. Uma em 1960, em Paris, quando a meu pedido ele entrou numa livraria toda pinoca para requisitar gratuitamente a antologia do Maiakovski traduzida pela Triolet, que eu não tinha massas para comprar. Foi tudo rápido e brilhante e nem o Houdini teria feito aquele passe que o Zeca fez. Só faltaram as palmas.
A outra é o recital de despedida no Coliseu, insuportavelmente belo. Ele sobe ao palco, ajeita os óculos, baralha-se com os papéis, tenta descobrir ao longe - mas não é possível, as luzes cegam-no - uma cara conhecida com quem dividir a emoção do momento. A minha servia, mas o Zeca está longe e não me topa.
Digo-lhe adeus com a mão.


Fernando Assis Pacheco 


Um pássaro igual a ti

Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se tudo o passado não fosse senão um sonho longínquo.
Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.
Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da 'vida artística', na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente.
Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas.
Veja-se a Televisão, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe negou em vida, para descobrir agora (só agora, ó céus?) que, afinal, Zeca é um símbolo da democracia e da resistência antifascista! E proclama hossanas em sua glória, como se já não bastasse a dor que ficou.
Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas lições de liberdade já se aperceberam também de todo o ridículo que se esconde por detrás destes lamentos hipócritas. E sabem que José Afonso, poeta e trovador, não é dos que morrem assim, sem mais aquelas.
Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em bisca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste até aqui: não lhes ligues, ri-te deles, lá desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as últimas cá de baixo. Afinal, já sabes como é: o mundo está mesmo feito às avessas. Se assim não fosse ainda agora por cá te teríamos, a mandar vir como era teu hábito contra "essa cambada engravatada e escolopêndrica" que insiste em controlar a gente. E até vão fazer de ti nome de rua, imagina!
Olha: lá fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, há um pássaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou serão lágrimas? Seja como for, o pássaro é igualzinho a ti: por mais que tentem, ninguém consegue impedi-lo de voar.


Viriato Teles 

O "London London" de Zeca

Londres, 1970, talvez. José Afonso gravava Traz Outro Amigo Também nos estádios da Pye. Ao lado, os Status Quo registavam o segundo álbum, Spare Parts mas tinham de o interromper de quando em quando para não prejudicar o andamento mais sereno de Zeca. Dois jovens técnicos tratavam do Zeca e do Bóris. E nem quando verteram um copo de café no gravador ficaram aflitos. Aflitos ficavam quando amiúde José Afonso tinha de interromper a gravação porque se esquecia da letra do que estava a cantar.
Londres fervilhava. Era o fim dos Beatles, do «Chelsea Drugstore» que os Stones cantavam, o aparecimento dos skinheads, a morte lenta dos hippies, da Carnaby Street e de King's Road.
Mas havia outros motivos de interesse. Para Londres convergiam os exilados políticos de outros países, nomeadamente do Brasil. Entre eles, Gilberto Gil e Caetano Veloso que cedo conviveram com Zeca.
Nos intervalos das gravações, o Zeca jogava judo comigo em casa da Nina, em Oakley Street, no coração de Chelsea. A irmã, Manuela, cuidava das moedas no meter para não faltar a electricidade. O seu companheiro, José Labaredas, homem bom do Couço, amigo do Zeca, cantador de fados de Lisboa, assistia. Todos juntos éramos uma família. Faltava Rui Pato, meu vizinho da instrução primária em Coimbra. Por causa da crise académica de 1969, onde fora um dos dirigentes estudantis, a PIDE não o deixara sair do País.
Uma noite, fomos todos jantar a um dos restaurantes portugueses de Beauchamp Place, mesmo ao lado do Harrods. Ou foi no Fado ou na Caravela, já não me lembro. Eu, o Zeca Afonso, o Zé Labaredas, a Nina, a Manuela, a Milu, todas irmãs, o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Caldo-verde lembro que comemos.
No meio dos pastéis de bacalhau, Caetano Veloso confessou que estava atrapalhado. Os seus amigos do Brasil perguntavam-lhe como era a vida em Londres. Ele queria responder com uma canção, mas não sabia como.
E foi nessa noite londrina, num recanto bem português, que José Afonso trauteou o que viria a ser o famoso «London London» de Caetano Veloso. Sem créditos, a não ser para os que assistiram ao parto da canção.


Luís Pinheiro de Almeida 


Grândola» Gravada às 3 da Manhã»

Quando, naquela manhã de Abril de 1970, entrei no avião com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos estádios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o álbum intitulado Traz Outro Amigo Também.
De facto, a minha inclusão naquele trabalho tinha sido decidida poucos dias antes e por razões (como era hábito) um pouco fortuitas. O meu passado musical, muito mais ligado à guitarra eléctrica e ao rock (exercido em conjuntos «à Shadow» ou «à Beatle» como foram os HI-FI e os Álamos), tinha apenas uma única experiência na arca da MPP (Música Popular Portuguesa!) com o disco que tinha gravado com o Duarte e Ciríaco.
Assim, apesar de pouco credenciado para a tarefa, entrei facilmente nos temas e, recordo claramente, nunca receei falhar na sua execução em estúdio. Sei agora que esta confiança derivava directamente da universalidade da música do Zeca.
Acontecia-me afinal o que acontece quando contactamos com uma obra tão consistente como a do Zeca: parece-nos que já a conhecíamos há muito tempo e que, mais do que isso, ela já estava dentro de nós. Foi sempre assim com a música dele. Quando ele a expunha pela primeiríssima vez (às vezes ao telefone e a desoras) vinha a sensação inevitável de «eu já senti isto». E já. Só que o Zeca sabia traduzir tudo isso para um formato exteriormente inteligível.
À partida do aeroporto, a primeira surpresa: o Luís Filipe Colaço (homem da rádio, companheiro de Coimbra e ex-guitarrista dos Álamos), já dentro do avião, é chamado pelo comandante, mandado sair e retido em Lisboa pela DGS por dois ou três dias. Conseguiu juntar-se a nós em Londres, mais tarde, recorrendo sei lá a que expedientes para convencer os zelosos Pides da inocuidade da sua viagem.
À chegada, a segunda surpresa. A guitarra que, muito profissionalmente, levava sob o assento e sem caixa protectora, apresentava uma rachadela monumental que a tomava, para sempre, inútil.
Só os bons ofícios dos amigos que o Zeca tinha em Londres (o Zeca tinha amigos em toda a parte) permitiram arranjar uma guitarra decente para a gravação.
As sessões no estúdio começaram com o «Maria Faia» e com a delícia de trabalhar com uma máquina de 4 (quatro!) pistas. A abundância de meios técnicos, superiores aos que conhecíamos, foi inspiradora. Pude sobrepor várias faixas de guitarra, obtendo efeitos orquestrais que, na época, pareciam interessantes.
As onze faixas foram gravadas sem sacrifício em várias sessões diurnas, ao longo de duas semanas ponteadas por passeios pela grande capital que parecia, então, tão diferente do nosso meio natal.
Nos corredores alcatifados do hotel, o Zeca colocava a sua energia em demonstrações amigáveis de judo (modalidade que abraçara recentemente).
Dos muitos amigos que apareciam no estúdio para ver o grande autor-intérprete, como já era reconhecido, recordo o brasileiro tropicalista Gilberto Gil, exilado pela ditadura. Esteve presente na gravação de «Verdes São os Campos» e a introdução de guitarra - inventada na hora - teve a sua aprovação.
Terminado o trabalho e quando, já em Portugal, recebemos um exemplar do disco para avaliação, o Zeca reprovou-o por não gostar da mistura e deu instruções para esta ser feita de maneira diferente. Se havia (e havia) zonas em que o Zeca não fazia concessões, uma era de certeza a que dizia respeito ao ambiente musical das suas canções, especialmente se eram para colocar em disco.
Nos dois discos que gravei com ele, testemunhei esse perfeccionismo, inesperado num homem tão simples e que não era, de modo nenhum, um instrumentista, nem um conhecedor das subtilezas técnicas dos estúdios de gravação. Nem precisava ser.
Ainda conservo o protótipo rejeitado (um vinil). A venda do disco, editado pela Arnaldo Trindade, decorrera como era costume: um ou dois dias nas montras das lojas e, depois da proibição pela censura, clandestinamente e ao mesmo ritmo. Ficámos, provavelmente, a dever ao Sr. Arnaldo Trindade a edição de autores como o Zeca e o Adriano, em condições comercialmente tão adversas.
No ano seguinte - em Outubro/Novembro a minha segunda experiência discográfica com o Zeca. Aqui, já ele tinha ouvido as duas vozes portuguesas no exílio em Paris que traziam os sons novos que ele constantemente procurava. O José Mário Branco foi incumbido da direcção musical desse novo disco que viria a chamar-se Cantigas do Maio. Foi ele que enquadrou o Zeca num ambiente de trabalho bem estruturado e com o tacto humano adequado a não fazer o Zeca sentir-se engaiolado e artisticamente diminuído.A gravação decorreu num castelo-estúdio dos arredores de Paris e teve a colaboração (bem audível em algumas faixas) do Francisco Fanhais.
A direcção musical e a presença humana do Zé Mário Branco revelaram-se fundamentais para o bom sucesso do trabalho. O seu conhecimento do meio musical parisiense conseguiu trazer ao estúdio músicos de primeira categoria -como é o caso do percussionista Michel Delaport, com os seus sons indianos tão bem aproveitados no «Senhor Arcanjo».Foi aí que gravámos (em sessões, desta vez, nocturnas) o «Grândola» com o som dos passos obtido no exterior do castelo às três da manhã.A mistura final foi feita no estúdio e desta vez (abençoado Zé Mário) não foi rejeitada. Foi o meu segundo e último disco com o Zeca. A minha vida profissional afastou-me irremediavelmente do meio e só volto a vê-lo, anos mais tarde, no quarto de urna clínica em Coimbra. Já estava ferido de morte pela doença, mas pensava ainda em mais canções e tinha esperança.


Carlos Correia (Bóris)
 

Ensaios na «Brasileira»

Conheci o Zeca nos meus 16 anos, tinha ele 33, já licenciado em Letras, a leccionar em Mangualde, mas aproveitando todas as folgas para vir a Coimbra, ansioso por mostrar aos amigos as suas últimas baladas.
Até essa altura, a sua actividade musical tinha sido, na década de 50 e princípio da de 60, a de um estudante com boa voz, que cantava no Orfeão e que, juntamente com o Rolim, Machado Soares, Goes, Levy Baptista, Lopes de Almeida, Portugal, Brojo e outros, se agrupavam para executar fados e guitarradas, actuando quer em espectáculos do Orfeão, quer em espectáculos da Tuna, quer em serenatas e, de vez em quando, para a gravação de um disco de fados.
Eu ouvi o seu nome, as primeiras vezes, ao meu pai que, como jornalista em Coimbra, fazia questão de viver intensamente a vida coimbrã, saltitando das tertúlias futrico-intelectuais para as académicas. E nestas últimas pontificava o Zeca, como o seu bom humor, com as suas permanentes distracções e com uma irreverência intelectual a que chamavam de «existencialista». Mais tarde, já com os meus 12 anos, ao tentar a minha sorte como aprendiz de fadista, acompanhando à viola rapazes da minha idade em guitarradas e fados, o nome do Zeca vinha à baila, a propósito dos fados que ele cantava como ninguém (os «Contos Velhinhos», «Aquela Moça da Aldeia», etc, etc.) e que nós tentávamos imitar no seu jeito de voz «caprina», como dizia o Menano. Mas em 1962, ano tumultuado em Coimbra, com a Academia envolvida numa das mais violentas crises estudantis, o Zeca, já cansado com aquilo a que chamou a «quinquilharia passadista do velho romantismo do Penedo», sempre que podia, vinha a Coimbra para sentir esse fervilhar das novas gerações.
Começa assim a sua fase de ruptura com aquilo que mais o tinha ligado até então à cidade, «o tanger dos bordões da viola, as casas de prego, as bicas nos cafés da Baixa e as arengas dos teóricos da bola».
Possuía, além disso, um profundo conhecimento do grave problema colonial, porque, além de ter em Moçambique muita família, fez algumas digressões com a Tuna e com o Orfeão às colónias. Era, também, um tempo de separação dolorosa com a mulher que lhe tinha dado os seus primeiros dois filhos.
É neste contexto de viragem, caldeada com muita angústia, que conheço o Zeca. A sua mudança deveu-se, no meu entender, ao seu amadurecimento intelectual, às profundas marcas deixadas pela desilusão afectiva, às mudanças do ambiente coimbrão, à desilusão dos primeiros anos de docência, às notícias de África e, muito principalmente, ao contacto com novos amigos como o Barahona, a Luísa Neto Jorge, o Luís Andrade, o Bronze, o Pité e tantos outros.
Ele vinha de Mangualde a Coimbra para mostrar aos amigos um outro tipo de música, sem o «espartilho da Guitarra de Coimbra», com uma grande liberdade rítmica e que necessitava apenas de uns leves acordes de viola para sublinhar o poema que era o mais importante da canção.
Assim nasce «Menino de Oiro», «Tenho Barcos, Tenho Remos», «Os Vampiros», «O Senhor Poeta», etc., ensaios muitas vezes feitos no segundo andar do Café Brasileira, ou em minha casa ou em qualquer República onde ele tinha o estatuto de «livre trânsito» quando vinha a Coimbra e necessitava de dormir.
Conseguiram-se os dois primeiros EP que tanto escândalo provocaram nos meus «amigos do fado». Foi considerado uma afronta à tradição. Mas os meios intelectuais e os meios operários de esquerda logo nos aproveitaram para saraus mais ou menos clandestinos. Zeca vai tentando o ensino, saltitando, depois de Mangualde para Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro.
Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas férias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana na sua casa, no n.º 68 da Rua Duarte Pacheco, em Faro. Partíamos de manhã com destino à ilha do Farol ou da Armona, de barco com a viola e uma ração de duas sanduíches e duas meloas. Quando eu não podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra à boleia ou então apanhava o comboio até à estação para a qual o pouco dinheiro que dispunha dava - «venda-me um bilhete de 60 escudos em segunda classe em direcção ao norte» -, fazendo o resto à boleia ou a pé e cá chegava cheio de fome, sem um tostão no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.
Negociávamos, na altura, um contrato com a Rapsódia, que lhe desse alguma estabilidade económica. O Zeca pretendia quatro contos por mês e cinco por cento na percentagem das vendas. Mas partiu em Agosto de 1964 para África, sem conseguir esse «fabuloso contrato», mas feliz com o seu recente casamento com a Zélia. São dois anos em que semanalmente escreve para minha casa, com o remetente «caixa postal n.º 50-Beira», cartas repletas das suas próprias contradições, da sua instabilidade, mas cheias de notícias dessa África em ebulição. Terminavam sempre com o envio de abraços para o Serrano, Abílio, Rui Mendes e para toda a malta.
«Quero aí chegar a tempo de mandar rufar os tambores que para o efeito tenho ensaiados e ouvir o coro que ressuscitará o Lázaro do seu túmulo», escrevia ele em Março de 1965. E veio, pois em 1967 acabou por ser expulso de Moçambique por vários problemas com a administração colonial.
Volta e vai para Setúbal. Manda-me cassetes com as últimas músicas. Vou até Setúbal, de vez em quando, ficando aboletado na casa dele, na Quinta do Montalvão, lote 5-2.º esquerdo, com a Zélia e já com a sua terceira filha, a Joana, muito pequenita.
Mais dois LP e muitos espectáculos - Almada, Barreiro, Seixal, Vila Franca, Marinha Grande, etc., sempre casas cheias de gente de oposição ao regime da altura, muitos operários e estudantes, a PIDE a pairar e, por vezes, a intervir.
Entretanto, junta-se a nós o Adriano, o Manuel Freire, o Fanhais e outros que não me recordo. É bastante difícil avaliar o impacte que o contacto com figuras como o Zeca, o Adriano, o António Portugal, entre os 16 e os 20 e poucos anos, tem na formação da personalidade de um adolescente. Nessa altura, eu não tinha a noção da dimensão humana e intelectual desses amigos. O meu desgosto é ter tido uma fortuna enorme em ter amigos desse quilate e, na altura, sem a noção desse valor, não ter agarrado cada momento, deixando até, por vezes, que a memória me falhe e tantos momentos bonitos e ricos se percam.
A partir de 1968, devido à minha situação académica e à impossibilidade de o acompanhar ao estrangeiro para as gravações, deixo de ser o acompanhante habitual. Felizmente para o Zeca, pois assim conhece o Iglésias e o Bóris (Carlos Correia) que tocavam bastante melhor do que eu. Passo a vê-lo menos vezes, mas sempre que posso estou com ele para o acompanhar ou só para o ouvir. A última vez que pego numa viola ao seu lado e a seu pedido, foi no célebre espectáculo do Coliseu, pouco antes da sua morte.


Rui Pato 

José Afonso: De Coimbra até ao Sul

A voz que guardo dentro de mim não está gravada em nenhum disco: anda a cantar «contos velhinhos de amor, numa noite branca e fria», algures, em Coimbra.
Foi assim que conheci José Afonso, num Inverno de há muitos anos. Ainda se faziam serenatas, as raparigas agradeciam acendendo e apagando a luz três vezes e nós viajávamos pela noite dentro, «bêbados de coisas inextricáveis», como escrevia então Herberto Helder. Já a voz do José Afonso anunciava outras trovas, mas naquele tempo a Académica era ainda (foi-o sempre) a nossa dama, por ela sofríamos aos domingos no Calhabé ou nos campos do País onde chegávamos à boleia, de capa e moca, e sem um tostão no bolso. Até que um dia o Zeca resolveu partir para Marrocos. Conseguimos apanhá-lo a tempo, graças a uns ciganos nossos amigos. Mas a tentação do Sul já estava dentro dele. Ou talvez daquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão, Alentejo, Algarve, a planície, as areias e o mar. É preciso dizer que nessa altura já ele era distraído (nós dizíamos despistado). Uma noite estava a jantar em minha casa e de repente deu um salto na cadeira: onde é que deixei o meu filho? E lá fomos à procura. Mas o miúdo, habituado aos despistanços do pai, tinha ido tranquilamente do estádio para casa.
Tínhamos então grandes discussões. Eu já andava na militância política, o Zeca era, havia de ser sempre, um libertário em estado quase puro. Ainda se debatia a questão da arte e do empenhamento social e político do artista.
Teoricamente o Zeca era contra, mas as coisas foram mudando e quase sem darmos por isso todos nos fomos comprometendo cada vez mais. Foi primeiro o Decreto 40 900, contra a autonomia das associações e a resposta estudantil, com uma grande manifestação em Coimbra. E depois 1958, o general Delgado e aquele vendaval que varreu o País de lés a lés. Então o Zeca quis pegar em armas. Mas como?
Tivemos que recorrer às que tínhamos à mão: a poesia, a guitarra, o canto. A guitarra do António Portugal tornou-se de repente mais nervosa, experimentando novos ritmos e dissonâncias, e o Zeca aparece a trautear melodias estranhas. Até que saiu a «Balada do Outono». Foi uma iluminação. Assim como alguns poemas aparecem feitos, também aquela balada dava a impressão de ter estado sempre ali e de ter sido colhida no ar num dos momentos de distracção concentrada do Zeca. A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança.
Entretanto o Zeca partia para o Sul. E eu para Angola. Reencontrámo-nos no início de 1964, numa festa de recepção aos caloiros da Faculdade de Medicina no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Tinha eu acabado de regressar da prisão em Angola, estava com residência fixa em Coimbra, mas vim sem pedir licença.
Trazíamos a «Trova do Vento Que Passa». Cantou-a primeiro o Adriano, a seguir o Zeca, depois ambos. E acabámos em coro, na rua. Era assim, naquele tempo. As trovas e baladas tinham o ritmo da nossa inquietação, de uma luta, da nossa vida. E vieram o «Menino do Bairro Negro», «Os Vampiros», «O Coro dos Caídos». O Sul entraria na música do Zeca com o seu «Pastor de Bensafrim», o seu «Sol de Verão», Catarina, o Alentejo, a cigarra, o silêncio, o grande espaço, a sombra de uma azinheira e o calor da fraternidade. E depois a África, seus ritmos e seus tambores, na fase da maturidade. Vieram os exílios, as longas separações, as pequenas e grandes batalhas, o 25 de Abril, encontros, desencontros, reencontros. E a voz do Zeca sempre, a avisar e animar a malta.
Como os provençais da época de oiro, cuja lição Ezra Pound tão bem captou, José Afonso foi um grande trovador moderno, ligando de novo a poesia e a música. Desse modo renovou uma e outra e contribuiu para mudar a própria vida, como queria Rimbaud.
Foi um homem fraterno, despojado, por vezes até ao exagero. Mas era assim: um revolucionário franciscano, como lhe chamei, irritado por vezes com o seu desprendimento de tudo e de si mesmo. Talvez as sociedades não consigam suportar a força subversiva de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tantas vezes censurado. Por isso continua simultaneamente a encantar e a incomodar. Eu sei que gostariam de transformá-lo em álibi ou torná-lo inofensivo depois de morto. Mas não é possível. A sua voz está tão cheia de ternura que será irremediavelmente subversiva.
Como disse António Portugal: «Um homem cuja voz foi a nossa voz durante muitos anos e que ajudou a tomar possível o nosso encontro colectivo com uma identidade perdida e com um destino que hoje orgulhosamente assumimos.»
Talvez seja isso o que uns tantos não conseguem perdoar-lhe. Mas é com certeza por isso que ele continua a ser a nossa voz.


Manuel Alegre
 

O músico

O músico que José Afonso foi é um tema que me deixa perplexo. Se eu disser Zeca Afonso!, toda a gente vai lembrar o Grândola Vila Morena. Alguns são capazes de se lembrar do Maio Maduro Maio. E mais alguns dos albuns dele dos anos em que era mais mediático (no sentido de aparecer nos media).

Mas isso é redutor. Desculpem: é de bimbo, mesmo. A obra musical e poética de José Afonso pode ser dividida em três períodos. O período do meio é de longe o menos importante da obra -- apesar de ser infelizmente o que perdurou na memória colectiva de um país distraído.

Os primeiros albuns dele, ainda no tempo da ditadura, são obras primas. Ouvir, como eu estou a ouvir neste momento, De Capa e Batina, é mergulhar na História de Portugal dos anos 60. Nessa altura Portugal era um país rural e atrasado, sem classes médias, mergulhado na obscuridão por via do isolamento a que Salazar o conduziu (orgulhosamente sós - era, imaginem, o lema da altura). Os poemas de Zeca Afonso, sobretudo cantados por ele, reflectem a tristeza profunda e as angústias das pessoas.

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
do outro lado do mar
...
A lua que é viajante
é que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar

O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desata vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar
(in Menina dos Olhos Tristes, letra de Reinaldo Ferreira e música de José Afonso)

Cantado por ele, como um fado coimbrão, é de arrepiar. Espelha num instante - como nenhum livro sobre a guerra colonial é capaz de fazer - a crua realidade das meninas, senhoras e senhores desses anos em que as batalhas de Portugal para tentar manter as colónias esvaziavam o país quer de dinheiro quer de gente. Eram os homens novos que partiam para a guerra, deixando cá as namoradas, noivas, mães, pais numa permanente angústia. Milhares regressaram em caixões. Não havia família na "Metrópole" (Portugal continental) que não tivesse alguem no "Ultramar", (as colónias), a dar o corpo às balas. Poucas famílias portuguesas terão passado os anos 60 sem a dor que é um jovem adulto morrer numa guerra.

Só quem viveu esses tempos sabe do que falo. As gerações mais novas NÃO precisam de passar por isso ou sequer de recordar. Mas ouvir e ler José Afonso é historicamente importante. É um pedaço da nossa História. É importante para a cultura portuguesa, mesmo que o Ministério da Cultura não pense assim. É só aí que quero chegar.

A revolução do 25 de Abril abriu um período extraordinário na criatividade e sobretudo no entusiasmo dos meios culturais. Tem hoje a Direita da blogosfera toda a razão quando se queixa do excesso cultural esquerdista da época. Visto daqui, de agora, é compreensível: era uma moda. É como hoje ir "às Docas". É in (na altura não se usava a expressão). Ou como hoje blogar.

José Afonso participou activamente nesse período. Incansável, percorreu milhares de quilómetros pelo país fora com a guitarra às costas. O objectivo dele não era ganhar dinheiro com a música ou sequer ser famoso (no sentido big-brotheresco, ou warholiano que o termo hoje tem). O objectivo dele era levar às pessoas uma mensagem de esperança, de vida, de entusiasmo, porque os maus tempos (do fascismo) tinham acabado. Estávamos a construir um país novo (este, em que hoje vivemos) e as pessoas eram analfabetas: 37 por cento da população portuguesa não sabia ler e escrever. Através da música, Zeca chegava a elas. Passava a mensagem. Acelerava o processo de aculturação dessas massas ignorantes porque ignoradas.

A importância dele para a cultrura, nesses anos, foi menor. No sentido estrito apenas: é claro que foi grande, sobretudo por ele ter funcionado como um catalizador, uma autêntica pilha energética, que arrastava outros músicos e criadores criando um ambiente quase feérico na cultura musical portuguesa. De um sentido só, o revolucionário. Claro. Era a época.

Mais tarde, já cansado, já a revolução a esmorecer, já o país a solidificar, já a entrada para a então denomidada CEE (hoje União Europeia) às mãos de Mário Soares, já a democracia estabelecida e o capital a regressar, José Afonso voltou a ser um poeta do povo.

No seu último algum de originais (Galinhas do Mato, 1985) está longe do fado de Coimbra e da canção revolucionária. É porém ainda um baladeiro que reflecte o estado de alma de um país. Embora um tanto desfasado: o país era, por altura de 80, já o embrião do país de hoje, emocionalmente dividido ao meio. Zeca espelha um dos lados, o lado desiludido. O lado da Esquerda, a Esquerda desse tempo (hoje há uma nova Esquerda que já não vive de desilusões como está bem patente no Bloco de Esquerda e nos blogs como o Barnabé e o Blogue de Esquerda).

Ficam as dúvidas (ainda hoje as tenho, eu...) Como em Década de Salomé:

Estamos na Europa.
Civilizados
já cá faltava
uma maison
Pour la Patrie
plo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o Patron!
[...]
Aos grandes Super-Mercados
chega a cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se
enlatados
lavados com "champon"

Acertou na mouche. Dos átrios das igrejas, dos salões de festas mal amplificados que lhes arruinaram gargantas (a ele e aos outros andarilhos de Adriano Correia de Oliveira a Sérgio Godinho, de José Mário Branco a Janita Salomé, de Vitorino a Júlio Pereira, de Né Ladeiras a Luís Represas, então um jovem muito jovem) das sessões de esclarecimento, dos comícios, da festa do Avante, a cultura foi passando para os super-mercados. Onde ainda hoje está. A massificação cultural, a amálgama, tem virtudes (que ele não cantou, embora eu suspeite que as detectou mas considerou menores face aos defeitos) e tem defeitos.

Na faixa Galinhas do Mato, do album homónimo, Zeca regressa à "sua" África e experimenta sonoridades novas. Seriam o seu caminho futuro não fosse a doença tê-lo levado dois anos volvidos. Aliás, esse album foi produto de uma gigantesca prova de amor prestada pelos camaradas de ofício: José Afonso, já doente, mal podia mexer-se e quase não cantava. Foram Júlio Pereira e José Mário Branco as traves mestras do album.

Pessoalmente considero históricos e fundamentais os primeiros albuns, até 1974, e os últimos dois albuns. Galinhas do Mato é uma obra experimental de um músico já acima dos sessenta, um recomeço, uma viragem, uma abertura, uma interrogação. Depois de ter sido um dos grandes cronistas do Portugal da segunda metade do século XX, foi isso que ele nos deixou antes de partir. Pela minha parte, agradeço.


Paulo Querido 


O Homem

Eu não tinha mais de seis anos. Era um Verão qualquer de meados de 60. Tínhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas — acabam de me recordar as minhas queridas irmãs. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petróleo. Eu vinha da água roxo, depois de horas incansáveis a mergulhar das pontes, com a Irmã Mais Nova. Eu não sabia nadar bem, mas usava braçadeiras insufláveis e com elas aventurava-me fosse para onde fosse, mesmo sem pé. À noite, depois do jantar, ouvíamos música. Otis Redding. Charles Aznavour. Coisas que os adolescentes da altura (os meus irmãos e primos) ouviam. E também Adriano Correia de Oliveira. E Zeca Afonso.

É a minha primeira recordação de José Afonso. Uns anos mais tarde, mas não muitos, lembro-me de estarmos na sala de estar e alguem toca à campaínha (coisa comum, vivíamos numa pensão). Subitamente o meu irmão corre a tirar do prato do gira-discos o 33 rotações que estávamos a ouvir.

Recordo-me lindamente da capa. Que não da música: eu teria uns 8, 9 anos. Perante o sururu, devo ter feito uma pergunta de puto e deram-me uma resposta básica, para puto entender: havia coisas que não se podiam ouvir, eram proibidas pela polícia, pela PIDE, e aquela era uma delas. Os porquês eram demasiado complexos para mim, muito puto. Mas aquilo encaixava em duas coisas: eu não gostar de polícias, porque o polícia de giro parava sempre os nossos jogos de bola na rua, e já ter ouvido nas conversas da tasca (tínhamos uma "casa de pasto" abaixo da pensão, é hoje um bar na famosa Rua do Crime, em Faro, que na realidade, irónica, se chama Rua do Prior) que havia um viajante (pensão e tasca eram frequentados sobretudo pelos caixeiros viajantes) que era informador da PIDE, fosse lá isso o que fosse, e o meu pai tinha ido responder qualquer coisa à PIDE uma vez. O meu pai era um homem absolutamente de Direita e cumpridor, embora houvesse coisas do Salazar que ele não gostava muito: não imagino porque terá lá ido.

A minha Irmã Mais Velha foi aluna do José Afonso em Faro, onde ele deu aulas. O meu Irmão também. Na então chamada Escola Industrial e Comercial de Faro. Ela recorda-se de um «mau professor, que faltava muito e era despistado. Não seguia o programa, falava de outras coisas». Certo e sabido era que por alturas de Abril ele ia faltar, pelo menos um mês. Os alunos sabiam porquê, recorda essa minha Irmã: «com o aproximar do 1º de Maio, a PIDE ia lá e engaioláva-o durante um mês».

O meu Irmão não partilha da mesma opinião dele como professor, talvez por ser já na altura mais politizado e, digamos, avançado que ela. Quando deixámos a Pensão Mirense (onde nasci) que foi a seguir pensão de putas e mais tarde o primeiro Lar de Estudantes da Associação da Universidade do Algarve (está à venda, decrépita, fica por cima do bar Ovelha Negra), surripiei a colecção "Vida Mundial", onde ele se informava na altura. (Ainda tenho a capa do Homem na Lua.) Ontem o meu Irmão recordava, com alguma emoção, como o professor «usava os sapatos desatados». E «faltava para ir fazer as gravações em França».

Eu conheci José Afonso em circunstâncias muito diferentes. Muitos discos, prisões, revoluções depois. Em 1985/86. Conheci-o em circunstâncias no mínimo estranhas, num apartamento em Faro, na presença do então director do Tal & Qual, José Rocha Vieira, e do meu camarada jornalista Francisco Rosa, que tinha uma Dyane onde o Guilherme Silva Pereira fazia o Gagarine (sair por uma janela, passar pelo tecto e entrar pela janela oposta — em andamento). O Guilherme foi depois capa do Tal & Qual por causa duma cena qualquer. Era (acho que ainda é) uma figura controversa...

Zélia acompanhava José Afonso. Era um homem doente. Ajudávamo-lo a andar pegando-lhe por debaixo dos sovacos. Tinha um olhar absolutamente sereno. Conversava com brilho. Em voz pausada, por causa do esforço. Mas com inteligência e perspicácia.

Dias depois visitei-o na casa de Azeitão. Conversas soltas. Eu era personagem secundária no cenário. Lembro-me das estantes vergadas com o peso de centenas de livros. Conheci a Joana Afonso, filha dele (que entrevistei mais tarde para um pasquim chamado "O Rebelde" que foi percursor das revistas para adolescentes).

Lembro-me de um homem admiravelmente consciente da proximidade da morte e ainda assim um homem sereno, tranquilo. Forte. Estar junto de José Afonso era estar mergulhado numa paz activa, estimulante. Quando falava era um sábio. É essa a imagem que retenho dele: uma pessoa sábia, consciente das realidades do mundo, nada interessado em falar dele ou da doença, mas sim da actualidade. Com notável perspicácia, algum humor e um belo poder de antecipação das tendências sociais e políticas.

O José Afonso que eu conheci não é o Zeca Afonso comunista, não é o Zeca Afonso perigoso revolucionário, não é o Zeca Afonso maldito, aparentemente malquisto e incómodo, até hoje, à Esquerda e aos partidos que ajudou dando a cara por eles, mesmo que não lhes pertencesse (o José Afonso nunca pertenceu a nada senão à cultura portuguesa e ao povo português). Era uma pessoa que dava gosto conhecer, com quem dava gosto estar e conversar. Um pessoa de bom fundo e carácter vincado com opiniões sábias e nada extremas, bem pelo contrário.

Este "meu" José Afonso não tem também nada a ver com a "malta de Esquerda" desses tempos que, em período final do cavaquismo, desistiu de lutar pelos seus ideiais. O capital é mais forte, desisto: onde está o bom emprego, onde posso ir beber uns copos? O "meu" José Afonso, não fora a doença, teria continuado a lutar pelos seus ideais noutro palco. Um palco qualquer. Um palco onde ele fosse preciso. Há menos de um ano tive o grato prazer de conhecer alguns dos que não desistiram. Continuam a luta nos foruns prisões, associações, escolas, etc a defender os direitos individuais, a sensibilizar e educar as pessoas nos seus direitos e deveres. Quando conheci o António Pedro Dores lembrei-me do José Afonso e de pensar: é a mesma força. Há gente que não desiste de ser melhor e fazer os outros melhores. Ainda bem.


Paulo Querido
 
 

A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a “pureza” a nota maIor desta arte: Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, «limpo», cheio de graça, com mais vigor para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificativo e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: De riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil sem maneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descolniu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da Juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo a traz nauseada, José Afonso conseguiu rapidamente uma enorme audiência. Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza a recompensa e a glória de José Afonso. Nem  tudo está podre no reino da Dinamarca.

Bernardo Santareno 

José Afonso poeta

 

A canção lírica e satírica de raizes populares, pela qual há quase oito séculos principiou o registo da poesia portuguesa, veio encontrar um surpreendente renovo no último decénio, ou pouco mais, de resistência ao fascismo e a uma guerra injusta, e depois neste quase decélÚo mais recente em que tem decorrido um processo sinuoso e ainda indecidido de luta por uma democracia real à medida das actuais possibilidades técnicas e humanas. José Afonso é um daqueles novos segréis que mais criativamente reatam uma tão velha tradição nacional.

Reconhecemo-lo, imediatamente, nos ritos paralelísticos, numa enorme liberdade de fantasia enternecida, solidária ou sarcástica, proporcionada pelo perfeito entrosamento entre a letras e a música; e em motivos folclóricos rurais ou marítimos. Mas o que há de mais fascinante na face poética deste segrel nosso contemporâneo é a gama extraordinariamente rica do seu temperamento. Além do certeiro tino com que sabe escolher poesias alheias muito vocacionadas para o canto, José Afonso, como poeta, consegue admiráveis coisas como estas: recuperar a maior candura infantil ou rural (Balada do Sino), dar a rédea mais solta e criadora à lírica pessoal (Chamaram-me Cigano); atingir a invectiva mais flagrante e estimatizadora (Os Eunucos); exprimir o mais persuasivo e generoso companheirismo (Traz outro amigo também); colher os mais belos efeitos em incursões à beira do sem-sentido (colectânea Venham mais cinco); assumir formas de ataque frontal e quase sem metáfora à traição antidemocrática farisaicamente legalista (colectânea Com as minhas tamanquinhas); aliar a simpatia humana mais pura à denúncia da exploração salarial nas «praças de gente», do colonialismo e da violência (Lá no Xepangara, Cantar Alentejano, Por trás daquela janela.
Não foi por simples acaso que o santo-e-senha musical com que se abriram as esperanças de Abril veio a ser a Grândola, Vila Morena. É que, na sua serena e directa simplicidade, esta canção constitui a melhor contraprova da criatividade que noutros poemas-canções de José Afonso se assinala por inflexões imprevisíveis de humor, de intriga ou sequência frásica, de imagem, ou pelo imaginativo jogo de correlação letra/ curva melódica/ harmonia musical. Nesta canção, hoje emblemática e historicamente imortal, comparecem as grandes aspirações pelas quais tão corajosamente lutaram (os que lutaram) nos anos de sessenta, e por que se continua a lutar nos de oitenta: uma fraternidade real sem mistificações televisivas e outras, o direito à igualdade de ensejo para todos os portugueses ou portuguesas, a fidelidade ao princípio de que «o povo é quem mais ordena». E nem sequer ali falta a marca da área natal onde, apesar de tanta velhacaria e violência, resiste ainda uma reforma agrária já há seis séculos desejada pela peonagem rural patriótica de Nun' Álvares: uma azinheira erguida a símbolo dos anelos tão antigos e imorredoiros de liberdade real, numa vila morena como a terra que um dia acabará de ser resgatada para sempre.


Óscar Lopes
 

AQUELE - o ZECA - é terra da nossa terra. Eis a voz... e já não sabemos se é de metais que nos fala, das coisas do Inverno, se tem o signo do pólen, do estrume glorioso das palavras, ou semente. Não sabemos se é notícia, anúncio ou pré-anúncio de Abril aqui, de Abris além.
Ouvindo-o talvez o mouro reacorde e procure os seus caminhos de meca, um velho godo apreste armas e ferramentas, o sefardita prepare o farnel da viagem. Talvez a helénica citara e o como pastoril dum viriato em nós. Há cajados, gaitas e concertinas, botas grossas, mãos calejadas, cântaros partidos junto às fontes. Ouvindo-o, fala-nos a viola e o cavaco, gela a angústia das pedras e o sangue corre à beira dos rios. Quasi ao rés-bronze canoro do Paredes, cristal e água do Bettencourt, o quente o e frio da nossa pátria, que ele é também herdeiro pobre dum povo deserdado. Quasi ao rés sela-se o compromisso, apertam- -se as mãos e levantam-se os punhos. Ouvindo-o.
Pensando-o, pensa-se a pátria cinzenta, a clara mágoa do tempo e a sua tristíssima alegria. Quem te pôs na
garganta tal força e tal fraqueza? Tanta cinza e tanto mármore, meu velho e aflito coração? Um povo de romeiros e vagamundos, o que abriu as portas do mar e perdeu a chave da casa, que bebeu vinho e lágrimas, uu que descobriu mundos e não descobriu os próprios braços. Fui eu e foste tu e mais aquele e o outro, os vivos e os mortos, os que abrindo a arca do peito, do tempo a Arca abrirão um dia.
 

Manuel Louzã Henriques
 

Um que não vai em futebóis

Na Coimbra dos anos 50, provinciana e falaz, já havia todos os candidatos possíveis às ortodoxias que depois nos estoquearam o lombo. Aquilo era o centro geográfico do parece mal, e digo-o com mágoa porque nasci lá, num rés-do-chão de estudante, sem saber ainda (1937), ingénuo de mim, o que me tocaria em sorte. Mas no pior pano cai a boa nódoa desses anos 50 a tenderem para 60, aos gritos chamava-se José Monso, no liceu «Furcopês», inventor de música. Vinha de Aveiro, vinha duma serra na eira, vinha de África, de muitos sítios e de todos ao mesmo tempo, pecha de que nunca se livrou.
Abreviámos-lhe o nome para Zeca, ouvíamo-Io em silêncio e, às tantas, perdêmo-Io de vista: andava pela provincia a ensinar meninos, a ganhar uns tustes com que aguentar a família precoce. os seus regressos, por vezes numa estrada à espera de um autocarro com o Orfeon ou a Tuna dentro, eram sinal de festa. Falava pouco, mas diferente, por falar nisso, encostou muita gente à parede. Outra sina sua.
O país de fora-parte conheceu-o só nos idos de 60, quando as universidades bateram com o pé no chão. Já ele, creio bem, partira para novos casos, novas causas, descobrindo que o Portugal que sobrava das escolas superiores era quase todo, e algum passava mal. Se no 25 de Abril os capitães escolheram a «Grândola» para senha do movimento foi uma naturalidade: quem, de entre os anjos de pedra lioz, poderia responder-lhes?
Ser heterodoxo, minoria de um, avesso das verdades oficiais, custa como o diabo. José Afonso está aí que não me desmente. Honra lhe seja feita, ele é da raça dos que não vão em futebóis mansos.
 

Fernando Assis Pacheco
 

A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue, nas horas de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que toma o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão... José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais tema faúlha de tuar na praia cólera da poesia, da balada nova.

Urbano Tavares Rodrígues  

José Afonso tem um significado muito importante no panorama da cultura musical portuguesa. Isto, para além do valor de cada uma das suas criações, em função da comunicabilidade para com um auditório vasto e diferenciado. Um significado que tem a ver com a habitual, há muito estabelecida e felizmente em vias de ser superada, oposição entre música dita "clássica", ou "séria", e música "ligeira".

Tirante um que outro caso especial, nomeadamente a do "jazz", entendeu-se que todo e qualquer trecho de música não só portuguesa, mas europeia, tinha que ser arrumável numa das duas classes: ou na "séria" ou na "ligeira". E bem sabemos quão deplorável era, em regra, o conteúdo da segunda, com excepções, aliás, interessantes e meritórias, entre as quais avulta o exemplo de um Frederico de Freitas.
É evidente que a arte poético-musical de José Afonso não pertence, nem sequer minimamente, à esfera do ligeiro. Como tão pouco pertence essoutro caso notável de música portuguesa que é o de Carlos Paredes. O mais de salientar é que, em José Afonso, o sentido e as implicações das palavras dos poemas cantados, contribuindo embora para aquela incompatibilidade com o "ligeiro", não são factor exclusivo. O papel da música toma-se relevante, num fenómeno ao mesmo tempo unitário e dividido por dois planos.

No plano criativo, impõe-se acima de tudo o carácter português de raiz popular, isento de qualquer efeito de estilização de artificio que procurasse o afago do pior gosto musical, ou pseudomusical. É um portuguesismo autêntico que também resulta imensamente da perfeita arte de tratar a nossa língua, em termos de verdadeira

música. Finalmente, no plano interpretativo, sem esquecer a inconfundível qualidade da voz, o medular sentido rítmico e a intencionalidade expressiva da articulação, gostaria de focar a peculariedade de José Afonso que talvez tenha sido, até hoje, a menos referida. A sua emissão de voz, habilmente conjugada com a tessitura estabelecida nos diferentes trechos, constitui, se não estou em erro, um dos mais actuantes ingredientes da irresistibilidade da sua mensagem de artista.
Se os encartados arrumadores de música persistirem, mesmo assim, em recusar à obra de José Afonso um lugar na categoría da música "clássica", que se apressem a rever a sua definição desta, antes que, por completo, os deixemos de tomar a sério.

João de Freitas Branco 

As canções de José Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num verão longínquo, durante o qual frequentei um curso de língua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. Regressada à Áustria, minha terra natal, e apesar de ainda não conhecer a totalidade da sua produção, decidi escrever a minha tese sobre a sua lírica. Mais tarde, ao longo de um ano em que vivi em Lisboa para iniciar o trabalho de pesquisa, conheci pessoalmente José Afonso – que se tornou meu mestre, não só em relação à sua obra, mas também a este país que ele amava e que ao mesmo tempo o desesperava.

Nesse tempo, o Zeca já era um cantautor consagrado, e no entanto, o meu projecto de tese causou-lhe algum espanto, porque em Portugal ninguém se tinha lembrado de fazer algo de parecido. E mesmo hoje em dia, passados quase vinte anos sobre a sua morte, neste país os seus textos não constam de nenhuma antologia lírica, nem encontramos o seu nome referido nas histórias da literatura portuguesa. Será que a música ensombrou os seus textos?

Não há dúvida de que as numerosas adaptações, variações e reinterpretações e o uso de uma canção de José Afonso em circunstâncias festivas ou reivindicativas provam a sua canonização. Mas por outro lado continuam ignorados os seus textos, musicados ou não, uma obra lírica de mais de 300 páginas, com uma evolução ao longo das décadas, marcada por influências literárias, circunstâncias sociais e desenvolvimento pessoal. Poderia descrever essa evolução como um arco que se inicia com textos inspirados em tradições populares, nos fados e baladas de Coimbra, na lírica de Camões e Pessoa, entre outros, passando por influências surrealistas e fases de grande hermetismo como resposta à censura da época, passando também, logo depois do 25 de Abril, por uma “abertura” discursiva (e nesse aspecto, José Afonso foi um dos poucos no campo da literatura cuja produção reflectiu também formalmente a revolução de 1974). Mas foi também o desencanto que moldou a sua poesia, e naqueles anos entre 1978 e a morte, os seus textos documentam a história deste país e sobretudo a sua história pessoal.

A crítica literária portuguesa tem manifestos problemas em reconhecer um valor autónomo à lírica do Zeca. Se, no universo das canções de intervenção em geral, existem letras que, sem música, perdem a sua força, não é este o caso dos textos de José Afonso. É verdade que a música transforma e intensifica o texto (e poderia aqui lembrar, numa outra escala, as versões musicais que Franz Schubert fez a partir dos poemas de Goethe); mas parece-me óbvio que a autonomia do texto depende simplesmente da sua qualidade e não da circunstância de ser ou não musicado.

Para explicar o fenómeno do desconhecimento de que é vítima ainda hoje em dia o poeta José Afonso, gostaria de desenvolver um pouco mais uma tese que já defendi em outras ocasiões. É o rótulo de “político” que veda a entrada da poesia de José Afonso no campo da literatura reconhecida. Gostaria de deixar bem claro que, em minha opinião, “político” não é apenas um rótulo, mas uma realidade; só que não pode pôr em causa outra realidade, a “estética”. Esse veredicto, aliás, tem uma longa tradição e peca por cegueira e erros de lógica. É mais um gesto de “vade retro” do que um julgamento baseado em critérios científicos.

Senão, vejamos: no caso da lírica de José Afonso, a qualidade de “político” nem sequer é sempre intrínseca ao texto, mas muitas vezes é devida às circunstâncias em que o texto surgiu e em que depois chegou ao público (ouvinte). São disso exemplo “Grândola, vila morena”, mas também os cerca de vinte poemas que nasceram na prisão de Caxias e de que há pouco tempo só conhecíamos como canções criadas pelo próprio Zeca “Era um redondo vocábulo” (do disco Venham mais cinco, de 1973) e “De sal de linguagem feita” (de Fura fura, editado em 1978). Surgiu agora um inédito, que João Afonso interpreta no seu mais recente álbum Outra vida (2006). Trata-se do texto “Ao Zé Letria que também sofre de azia”, escrito em Caxias a 11 de Maio de 1973, e intitulado agora “Bombons de todos os dias”.

O hermetismo inerente a todos esses poemas é a consequência do isolamento físico e psíquico de que José Afonso foi alvo na prisão, mas também da necessidade de cifrar a mensagem.

A suposta contradição entre valores poéticos e políticos que a crítica literária académica tantas vezes invoca, encontra o seu reflexo em abordagens isoladas do poema político sem fazer a ligação dialéctica entre eles, ou seja, a interpretação estética só analisa a forma artística, enquanto a abordagem ideológica só avalia o conteúdo. Mas é paradoxalmente por causa do seu valor “ideológico” no sentido mais lato do termo que o valor artístico do poema político nem sequer é tomado em conta.

E que fazer dos inúmeros poemas de José Afonso que não foram musicados e/ou que não são políticos? Que fazer de facetas do poeta e homem que admirava os textos de Santa Teresa D’ Ávila e de São João da Cruz? Ou que propôs ao Padre Mário fazer um LP inspirado no seu livro Maria de Nazaré com o argumento de que “aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma mulher revolucionária”? (jornal fraternizar Nº 161, Abril/ Junho 2006. Padre Mário no Café Concerto, “E quanto ao poder que vá para a puta que o pariu!”)

O que distingue os textos políticos de José Afonso do chavão e os torna poesia não é diferente da qualidade que torna poesia os seus textos não-políticos. O chavão é sempre redução, é o chapéu que cobre as particularidades. Mas a literatura nasce sempre do particular, do subjectivo, para poder ser lida como universal. A título de exemplo gostaria de pegar em dois poemas, “Inúteis eram as vozes”, texto não musicado e escrito em Caxias, e “Benditos”, musicado e parte do disco Galinhas do mato.

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro preso dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho esta névoa


Mesmo se não soubéssemos onde e em que circunstâncias nasceu este poema, percebíamos que o texto assenta no contraste entre um fora e um dentro, entre um mundo em movimento povoado de sons de barcos e pessoas, onde o tempo passa normalmente, e a clausura de um indivíduo separado desse mundo. Isolamento e dor caracterizam a sua situação, a inutilidade e, provavelmente, a impossibilidade de comunicação. Os muros da prisão não são nomeados. Mas também não é preciso, eles estão lá, no texto. O poema poderia não tratar da prisão de Caxias, mas sempre tratará da experiência extrema do cativeiro. O elo entre estes dois mundos separados são as imagens do “cativeiro represo dos sentidos” e da comporta que se abre, é um elo meramente imaginário porque “a matéria dura de que é feita a vida” fica inalterada. Este poema, por partir de uma situação pessoal de limite e ao mesmo tempo encontrar meios literários adequados para transportar a sua mensagem, consegue não só exprimir, de uma maneira universal, o sofrimento do indivíduo preso, mas transforma-se ao mesmo tempo numa acusação. A mais-valia do texto reside, a meu ver, exactamente no facto de essa acusação não ser directamente expressa por palavras.

Por fim, e no fim da minha (espero) breve intervenção, convido-os a olhar um pouco mais de perto o poema “Benditos”.

Já fui neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda
Da lira a vibrar

Já fui servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui como a erva do chão

Bendito seja o pão
Bendita seja a dor
Benditas as portas do amor
Já fui favo de mel
Cajado de pastor
Já fui a nuvem correndo no céu

Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do Levante
Já fui andarilho e cantor

Bendita seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul

Não há, na literatura que conheço, um texto de despedida que mais me comova. E não é por ter conhecido pessoalmente José Afonso.

Só há duas formas de verbo ao longo do poema: o passado que nomeia tudo o que o “eu” já foi “em vida” e o conjuntivo que projecta o desejo da bênção num futuro que já não faz parte do texto (e do tempo do “eu” que fala). De entre aquilo que o “eu” já foi, aparecem fenómenos da natureza, como “a neve no mar”; instrumentos como a “espada na mão”; aparece a caracterização como “servo de um Deus” e “andarilho e cantor”; momentos existenciais como vida/nascimento e morte. É um inventário de identidades de quem parte e se quer reassegurar daquilo que já foi.

E a partir dessa (s) identidade (s) que nitidamente destroem as fronteiras entre o que é considerado humano e não-humano, é proferida a bênção a todos os aspectos pretensamente simples da vida como o pão e a paz, a beleza e o amor, em suma, à criação.

Mas onde fica quem abençoa? Não há presente no poema, a não ser o acto de fala de quem se lembra daquilo que foi e que deixa um legado. É um legado de uma pessoa que já está a partir e que fez as pazes com todos os seus caminhos e desvios. Se olharmos de perto as enumerações que surgem no texto, vemos contradições. Quem foi espada na mão, não foi, ao mesmo tempo, favo de mel; quem foi cajado de pastor, não foi, ao mesmo tempo, andarilho e cantor. Mas quem foi tudo o que o texto diz, em momentos diferentes, sem renegar nada do seu passado, encontra-se no lugar certo.

A despedida poética e a outra despedida de José Afonso não se fizeram com amargura. Por sugestão dele, o título do último disco estava para ser “Nem o pai morre nem a gente almoça”. E é espantoso que um dos traços mais marcantes da sua obra seja a força que dá para viver. Deveria ouvir-se mais a sua música, ler mais os seus textos. Pode viciar, mas os efeitos secundários são benéficos.


Elfriede Engelmayer
 

Claro e escuro, mas não a preto e branco

Toda a verdadeira obra de arte está sujeita à acção do tempo, que se encarrega de a lapidar até ela revelar o seu valor intemporal. Por isso, muitas vezes, quando um artista morre, entra numa espécie de limbo. Os que partilharam os problemas sociais e políticos a que ele deu expressão ficam ligados, também emocionalmente, a essa obra. Mas às gerações mais novas - e tendo em conta, como é óbvio, os vinte anos que já passaram sobre a morte do Zeca - falta essa vivência, essa referência. Paradoxalmente, para se descobrir e redescobrir o que a obra de José Afonso realmente significa para Portugal, ainda é preciso algum tempo e, sobretudo, trabalho. Um trabalho que o leve aos mais novos, às escolas, que ultrapasse de longe (mas sem o ignorar!) o conhecimento rudimentar de algumas das canções mais populares, que o valorize não só como músico genial, mas também como poeta e artista que, como poucos, se soube renovar ao longo das décadas e demonstrou uma sensibilidade sismográfica em relação aos problemas do seu tempo. Ou seja: um trabalho de memória que não o transforme numa múmia, um trabalho científico que não o aprisione em grelhas interpretativas, um trabalho pedagógico que não o torne numa chatice. Uma festa viva, plural, tumultuária.
Há quem diga que o Zeca foi um gigante. E, de facto, essa coincidência rara do criador musical com o poeta e intérprete já em si o torna numa figura de excepção. Mas os que o conheceram gostariam com certeza de lembrar mais um dos seus dons que atravessa todos os outros aspectos da sua vida. Falo da sua pureza humana (não confundir com ingenuidade). Ele soube não esconder a criança que existia em si, não rasurar medos, e por isso não criar muros entre si e os outros. Essa parece-me a fonte da sua sensibilidade e solidariedade, do seu sentido de justiça. E essa também é uma das razões por que a sua obra, depositária da sua dimensão humana, sobreviver quando já nenhum dos que conviveram com ele esteja vivo.
Ao olharmos de perto os textos líricos de José Afonso, há os que parecem simples, mas poucas vezes o são, (como exemplo mais conhecido, "Grândola, vila morena") e cuja pretensa simplicidade vem do facto de serem facilmente cantáveis. Outros, herméticos, que, além de nos exigirem o conhecimento das circunstâncias em que nasceram, também do ponto de vista musical só dificilmente são assimiláveis, como por exemplo "Era um redondo vocábulo". E ainda há os muitos outros, não musicados, quase desconhecidos, à espera de reconhecimento por parte de uma crítica literária preconceituosa para a qual a rotulagem de José Afonso como cantor político serve de motivo para o ignorar como poeta.
Alguns dos seus textos, inspirados em formas populares, de facto parecem simples. Mas será que a poesia popular alguma vez foi simples? Para prova em contrário basta a leitura atenta dos Cancioneiros. E basta também pegar num dos poemas do Zeca, de cariz mais popular, para percebermos a sua mestria formal e densidade poéticas. Cito, a título de exemplo, a "Canção de embalar" do LP Cantares do andarilho (1968):

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber ser p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvir s cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Essa densidade que acabei de referir deve-se ao uso, nas quatro estrofes com versos de nove sílabas, à chamada técnica de leixa-pren que retoma elementos do último verso de uma estrofe para os integrar e alargar no primeiro verso da estrofe seguinte. Assim nasce um tecido textual em que o fim do poema remete outra vez para o início. A voz do adulto tem a função de sossegar a criança, de a acompanhar na sua viagem para o sono, mas ao mesmo tempo as imagens poéticas ganham uma autonomia e grandeza que ultrapassam a compreensão do menino. A estrela d'alva, visível ao amanhecer, é o planeta Vénus, também denominada de estrela da tarde, visível ao cair da noite. É a ela que o cantor delega a protecção da criança e, por ela ainda não ter aparecido, a substitui. Mas essa substituição , ao nível do texto, é dupla. Outra estrela tomar o lugar da estrela d'alva na ausência dessa, porque a criança, para não se sentir abandonada na noite, necessita, se não da luz concreta e real, pelo menos da ideia da permanência. Por isso, a voz do cantor evoca as trovas e cantigas, pondo todo o universo nocturno ao serviço do menino e colocando-o numa espécie de redoma para que nada de mal lhe possa acontecer. Ao prometer a estrela para a manhã seguinte ele garante a restituição da ordem visível em que a criança se move.
A estrela d'alva é o elo entre a noite e a manhã, a maior estrela no céu na perspectiva humana, mas no fim do poema o cantor torna-a pequena, à dimensão da criança, para a integrar no seu mundo infantil, tal como procede com a noite, transformada em menina cansada.
A singular beleza desta "Canção de embalar" reside na sequência das suas imagens, em que o ponto de partida é o menino pequenino, para depois evocar o universo todo e, no final, reduzi-lo ao tamanho de uma criança: um acto de amor transformado em cantiga.
Num texto lírico não musicado, "Fui ontem ao Norte", que deve ter sido escrito nos anos que precederam o 25 de Abril, ou seja, em proximidade temporal com a "Canção de embalar", o tema da opressão política invade a linguagem poética e torna-a hermética.

Fui ontem ao Norte
era ainda cedo
guizos tremiam numa feira de gado
Caras extintas por dentro
Caíam das janelas
Perguntei se era ali
a batina do cacique
a mentira das reses
nos açougues
Ao longo da torreira
Cresciam as uvas
De súbito
fechei os olhos
Sons estridentes
rompiam as paredes
Duma casa em ruínas
A suástica luzia
num círculo
de sinais obscuros
Como a morte
Fez-se noite
Ergui o punho
À onda que passava

À primeira leitura, o poema parece "contar" um incidente numa aldeia algures no norte do país em que a irrupção dos sinais do fascismo contradiz uma aparente calma e pacatez. No entanto, deste o início do texto o tom é tudo menos idílico, porque não existe voz humana a acompanhar o tinir alegre dos guizos, e as "caras extintas por dentro" acusam uma ameaça não expressa. O único ser humano que fala é o elemento que vem de fora, o "eu lírico", um intruso que ousa fazer perguntas acerca do cacique (de batina...) e do gado que vai ao engano para o açouge, uma provocação a que ninguém responde.
E é exactamente neste momento que o texto passa para um nível diferente. Porque, como é que se exprime, em palavra poética, o que não é expresso em palavras? Como se torna visível a indesmentível verdade da opressão? José Afonso opta por um paradoxo. Ao fechar os olhos, como se fosse no negativo de uma fotografia, o que estava oculto sobressai iluminado na sua mente. Sons estridentes sobrepõem-se aos guizos, e a suástica fala mais alto do que o silêncio das caras extintas. Esta imagem é tão forte que inverte as leis da natureza, porque, de repente, a morte ensombra a manhã transformando-a em noite. O punho erguido, sinal de resistência, surge no fim do poema como única resposta possível, não verbal, a uma realidade em que a palavra desapareceu, uma imagem tanto mais expressiva se considerarmos as muitas outras imagens de resistência na poesia de José Afonso. Nomeadamente nos textos musicados, ele invoca a própria cantiga ou a voz do cantor como portadoras de esperança e da vontade de continuar a luta. Mas neste poema, a lógica textual exclui a voz audível como contraponto ao silêncio opressor. A imagem fica: "No pasaran!"
Os dois poemas que escolhi - e que, recordo, terão sido escritos num arco temporal muito fechado - revelam uma fascinante contradição. O primeiro, ao anoitecer, é um texto luminoso. O segundo, à torreira do sol, é um texto ensombrado (não sei se não deveria antes dizer assombrado). Na sua dimensão poliédrica, está neles presente o cunho inconfundível do autor, o seu DNA. E só me resta esperar que as entidades que procuram identificar o genome literário sejam mais rápidas do que as suas congéneres na biologia - que se vão agora dedicar ao cavalo (animal que aliás muito prezo).

Elfriede Engelmayer
 


(Texto para o debate "José Afonso, a obra poética", integrado na iniciativa "Com José Afonso, 20 anos de caminho", organizada pela AJA-Norte (Núcleo da Associação José Afonso) e o Clube Literário do Porto. Porto, CLP, 16 de Fevereiro de 2007)

Vida

Há amores que não prestam. O meu amor pelo Zeca foi sempre uma desordem. Não soube estar com ele, raramente o visitei quando adoeceu, não fui ao funeral. Passado quase um ano, encontrei a Zélia e desfiz-me em lágrimas. Fora de tempo. Escondi-me num portal até que o choro passasse, porque ninguém iria perceber. Toda a gente que estava com a Zélia tinha chorado na devida altura. Tinham feito o seu luto, tinham-no acompanhado, tinham guardado dele as coisas imortais. É o único modo de recordar em paz.
Eu não sei recordar, assim como não soube admitir que ele estava sujeito a definhar e a morrer, como nós. Que se acalmem as fúrias ortodoxas: eu não estou a fazer endeusamentos. Quero dizer que os faço, e muitas vezes, e que, sem deuses criados pelo afecto, pelo respeito ou pela imaginação, este mundo seria tão monótono, tão desinteressante como um yuppie a contar-nos o seu plano de vida.
Mas não. Não é por isso que falo assim do Zeca. Pelo contrário, o que nele sempre me impressionoum a ponto de conferir ao meu comportamento este ar inadaptado e doentio naquilo que à sua morte se refere, foi a imensa carga de humanidade que ele trazia consigo, que sobrava, para que à volta dele se alimentassem os que, mobilizados por um mesmo ideal, sofriam da secura que provocam a convicção excessiva e a tolerância.
A grandeza do Zeca era terrena e alegre e, acima de tudo, plena de inteligência. A luz que ele acendia em sua volta era uma luz sem dogmas, uma esperança tão limpa que às vezes não cabia na pequenez política. Com a revolução dele é que se havia de passar de século. Para que, além de justiça e liberdade, haja, isso sim, a boa gargalhada, o perfeito pedaço de poema, a busca, fora e dentro, do erro e do prazer.
Vi-o cantar a meio de um esgotamento, vigiado por pides. Acho que o vi com medo, e ele foi magnífico. Vi-o preocupado porque ríamos alto ­era um grupo de jovens levados pelo Fausto - e os filhos, pequeninos, podiam acordar. Vi-o chegar à porta da colectividade onde ensinava à noite, para nos dizer «olá» e voltar para a aula. Vi-o a correr descalço sobre a terra, entusiasmado e a pegar-me o entusiasmo pelas terapias alternativas. Vi-o, muito doente já, sem forças, a ler a poesia de S. João da Cruz. Como querem vocês que eu me ponha aqui a falar dele com elogios, como num obituário?
Olhem: nessa manhã em que ele morreu, eu passei num centro comercial. Foi lá que soube. As empregadas das «boutiques» estavam todas de preto e com cravos ao peito. Nos corredores e lojas só ressoava «Grândola». Sim: as empregadinhas das «boutiques». Sim: num vulgar e fútil centro comercial. Onde há gente novinha que não se interessa nada por História, que quer curtir e consumir por­que essa é a linguagem do gozo que conhecem. Gente que assim me deu essa notícia pela mais inesperada e comovedora das vias. Elas puseram luto e flores vermelhas porque o Zeca morrera, mas o que eu percebi foi que ele estava mais vivo do que qualquer pessoa sujeita às leis do tempo.
O ano passado organizou-se uma homenagem em Setúbal. Convidaram-me para uma conversa acerca do tema «Solidariedade». Pela primeira vez na minha vida, tive de pensar antes no que iria dizer. Porque uma só palavra, e tão séria, assus­tava. Felizmente, atenderam à minha timidez e chegámos ao fim sem que eu interviesse.
Quando saímos, respirei, aliviada. O Zeca, a filosofia do Zeca, a criatividade do Zeca, achavam­se na rua. Nas ruas. Onde os jovens organizavam tudo, passavam com cadeiras, com festões de papel, com fatos de palhaço, e havia teatro,  música, e encontros, e discussões, e fome. Uma espantosa condensação de vida. Não há morte que chegue para tantos que respiram o ar que ele respirou.


Hélia Correia
 

Foi em Setúbal, um dia.
Foi um dia chuvoso, com algumas résteas de sol e vento, coberto de cravos e de espantos.
Havia no ar uma música própria do universo, tema, hesitante, mas impiedosa, tocada pelas sombras.
Tinham vindo cantores de Espanha, de França, e de todo o lado um mar de gente sem nome, numa última homenagem. Que mais podiam fazer? O Zeca permanecia ali, numa escola fria, aguardando a viagem.
Qualquer coisa de sagrado havia-se-Ihes escoado pelos dedos, a amizade, a música, anos passados em silêncio e outros em luta pela terra, em minas e nas grandes fábricas do ferro e do vidro.
Estava-se ali a ver desaparecer, devagar, pelas ruas, um pouco de todos nós, afinal alguém que não soubemos amar como merecia.
O Zeca ia-se embora, sem mais, por entre milhares de corpos e de pensamentos.
Quantas paixões e ódios deixou para trás é difícil saber. O Zeca era essa ponte de ligação entre muitas pátrias, entre muitas amarguras e vitórias.
Todos sabíamos que ele não morre nunca, mas, naquele momento, a morte era uma estranho pesadelo em que não se queria acreditar.
Fui vendo o Zeca em cantos livres, em cafés, pelas casas de amigos comuns, no meio de comícios de solidariedade com os povos do mundo inteiro.
Estive com ele atrás de palcos, trocando as emoções de quem gostava de mais dos homens e da vida.
Vi-o em sua casa, em Azeitão, mais tarde, umas vezes entristecido, outras cheio de esperança, falando de OteIo, de cooperativas, de poemas, de livros, de teatros e de Brel, apelando sempre para que os jovens não deixassem morrer a música e a poesia.
O Zeca era sobretudo um poeta, mais poeta do que músico. Também ele havia recebido a voz dos deuses para a espalhar pelas planícies e pelas casas.

Era um homem bom, inteiro, demasiado puro para esta vida.
E isso talvez o tenha morto tão cedo.


Rui Ferreira e Sousa
 

Da Introdução do Livro «EH! Zeca Afonso»

«As Canções de Zeca Afonso são inseparáveis da sua pessoa»... «Quando se traduzem os seus textos para alemão isto é bem evidente»... «Por isso considerámos indispensável aprofundar, numa conversa com ele, alguns pontos menos claros, investigar a sua personalidade, os seus planos, os seus desejos...

... Assim que chegámos a Lisboa, começaram as dificuldades: O Zeca Afonso estava em tratamento 100 Kms a norte. Decidimos ir até lá, pensando num agradável passeio através das termas, nas quais seria possível falar de tudo. Conversa! Isso é que era bom! No dia da nossa partida o Zeca não estava nessa cidade. Vários telefonemas em vão, começámos à procura. De casa de todos os amigos e conhecidos nos diziam ou que não estava lá, ou que tinha acabado de sair, ou que estava quase a chegar.
Que ele nos queria ver ou telefonar, mas ninguém sabia onde, quando ou como.
Ele estava" em todos e em nenhum lado, desaparecido no meio dos seus amigos ou conhecidos, impossível de encontrar...
... Ficámos a conhecer com o Zeca Afonso, um dos mais simpáticos aspectos de Portugal: a confusão. Na manhã seguinte, um telefonema ocasional acabou por resultar num encontro para as Caldas da Rainha.
Lá fomos. Recebeu-nos um homem que não aparentava 50 anos, de saco de plástico na mão. Almoçámos num Self-Service, conversando sobre alimentação saudável, a Alemanha, dentistas e dentaduras postiças. Mais tarde, numa casa dos subúrbios das Caldas, perguntas sobre pontos problemáticos dos textos. Ficámos a saber aquilo que já esperávamos. Alguns, ele já os esquecera, outros já não os compreende. Muito proveio da inspiração de um sonho, através de uma vivência casual do quotidiano. A maior parte fica em aberto: por vezes podia ser Salazar, outras um tio, outras uma figura fantasiada, ou todos ao mesmo tempo. Podia... Muitas vezes o texto só é sugerido pela música.
Preenche um espaço que o ritmo lhe prepara. As palavras quase que pairam no ar, na rua, no calão de um bar da periferia, em rimas de embalar. Só esperam que se jogue com eles. São associativas, quase casuais, a maior parte das vezes inesperadas, mais como um acompanhamento para a música. Frequentemente, nelas próprias, «apenas» melodia e poesia. No entanto não se trata de uma lírica esotérica e impotente.
A música de J. Afonso é popular, no melhor sentido desta palavra: em geral utiliza pouco harmonias, preferindo harmonias ricas que ficam no ouvido. O acompanhamento instrumental é simples, só enriquecido num período posterior com instrumentos populares tradicionais e com a influência de ritmos e instrumentos africanos e brasileiros. Os seus textos compõem-se de linhas simples: Muitas vezes repetições e refrões. Muitos são influenciados pelos costumes populares, por danças e canções de embalar. Expressões comuns, ditos apanhados na rua, sabedoria vivencial do mais diverso tipo.
José Afonso, nos seus temas, também trata do dia-a-dia do povo: o trabalho no campo, a luta com o mar, a pobreza, a amizade, o amor. Histórias de encantar, tal como são conhecidas de todas as poesias populares: cavaleiros, bruxas, fadas, mouras encantadas. Heróis populares da resistência antifascista, os problemas quotidianos e os heroísmos das pessoas simples, dos emigrantes, dos pedintes, das prostitutas.
Também uma referência sarcástica à Igreja Oficial, à omnipresença da Pide, à face sangrenta da exploração colonialista.
Tudo isto são aspectos da sua popularidade, diversos aspectos da chamada canção de intervenção.»...


Diecter Offenhawber e Reidi Bergmann
 

Sobre José Afonso

José Afonso não é apenas a voz rica de um precursor a clamar no meio de desertos, charcos parados, ruínas, famélicos fantasmas deambulando pelos ínvios, pisados. repisados caminhos de um cançonetismo caduco.
Ele é também e principalmente um criador de viva sensibilidade que, conseguindo inteligentemente ajustar poema e música, torna a canção uma penalidade autónoma, uma unidade perfeita, nem mais nem menos música, nem mais nem menos palavra, a que confere uma carga comunicativa singularmente poderosa.

António Rebordão Navarro 

A minha história de José Afonso

Havia um poema e um enigma disfarçado de canção, nessa voz atormentada e vagamente trémula que me dizia: "A toda a parte chegam os vampiros..." Eu escutava-o (baixinho e às escondidas), algo ensimesmado pelo acto do meu próprio entendimento, esforçando-me por decorá-lo ­ mas não o compreendia. Palavra! Não o entendia porque não aprendera ainda o segredo das suas palavras, nem por isso a que hoje chamam o sentido figurado ou conotativo da lingua­gem que então se escondia por trás da sua música. Como compreender que o disco tivesse sido proibido (e creio que preso ou desterrado o seu cantor, como na altura se dizia), só por dizer que eles, os vampiros, pousavam nas tulhas, traziam no ventre despojos antigos e nada os prendia a vidas acabadas? Ou seria simplesmente por aquilo de eles comerem tudo, tudo, tudo... e não deixarem nada?
Assim começa a minha história pessoal do José Afonso. Não é verdade que todos temos uma história pessoal àcerca de um homem tão paradigmático, a muitos títulos superior, como foi o caso exemplar da vida, obra e morte do Zeca? Podem elas ser histórias de amor ou de ódio, consoante a postura e a filosofia de quem as viveu; ou mesmo constatações da mais plana e turva indiferença. Mas nunca, presumo eu na minha boa-fé, histórias de um desconhecimento diferente e distinto da pura e frívola ignorância. Por mim, que comecei por amá­lo antes mesmo de o entender, a história de José Afonso situa-se entre dois extremos opostos. De um lado, tocam a minha inocência política e a sua aprendizagem; e do outro, a noção do tempo, da idade e da cultura que se foi constituindo no capital das minhas aquisições pessoais. No extremo dessa minha inocência, começa a memória de "Os vampiros" e da sua proibição; no outro, colhe-me a surpresa de ter sabido ler a mensagem oculta e codificada, a alegoria dessa "Grândola, vila morena", que era afinal a profecia de um país, a sua esperança ou mesmo a sua identificação.
Não tinha idade para decifrar a mensagem, vinda na denúncia encoberta do tal poema que dizia: "Enchem as tulhas, bebem vinho novo / Dançam a ronda no Pinhal do rei". Muitos anos mais tarde, soube desde o primeiro momento que Grândola, na voz e na ideia do Zeca, não era apenas uma vila morena, muito plana, situada ao sul da cidade com um rio - mas a própria cidade branca e altiva da alma e da honra que muitos de nós conhecíamos...
Se eu voltasse a ter doze ou treze anos, como no tempo em que aprendi a ouvir o Zeca, estaria hoje necessariamente dividido entre a ideia da perenidade e a marcação temporal da sua música. Costuma dizer-se que atrás do tempo outros tempos vêm. Não me espanta que os jovens da idade do meu filho adiram
à dimensão espectacular dos "Nirvana", dos "Metallica" ou dos "Guns N' Roses" - porque isso está rigorosamente no centro de uma lógica contestária, ainda que no limite efémero do crescimento afirmativo de uma geração. De certa forma, eles reeditam os "Beatles" e os "Rolling Stones" da minha juventude. Não por recuperação, mas por uma espécie de cosmética dos nomes, das irreverências e dos ruídos sonoros que movem e arrastam atrás de si o centro provisório do Mundo. Menos me admira que sobre o José Afonso eles se dividam entre a benevolência, o respeito e o pudor de o confessarem. O Zeca, no conceito deles, é ainda um "fixe", ou apenas aquele "bacano" que em tempos cantou umas músicas "baris" - com o senão de ter estragado a festa da vida. Por causa da "mania" ou da loucura de se ter metido nas coisas da política...
Houve um tempo em que tínhamos apenas os nossos cantores. Hoje, temos a eternidade deles, que é feita
à
nossa medida. José Afonso continua fora do tempo e das gerações porque nunca foi um credo nem um mito, menos ainda uma lenda não comportada pelos sentidos da música. Ergueu em tomo de si, sem nunca ter tido esse propósito, uma escola para a educação e para o sentimento do mundo. Da sua vida, é injusto dizer que passou. Seria aliás ofensivo recordá-la apenas como um caso de fé. Uma coisa que dela sei é que pode hoje estar aqui, e amanhã ter-se ido no vento, porquan­to nunca teve um destino.

João de Melo
 

 

A solidariedade em José Afonso

 

Era por excelência solidário, o Zeca. Foi-o, a bem dizer, até ao derradeiro limite, desprendido de si e do que é de uso chamar-se, numa perspectiva de fora, os interesses pessoais... que não eram naturalmente os seus interesses pessoais. De o ser, pelos caminhos da vida e ao longo dela, de temperar a prática de o ser no crisol dessa inexaurível convivência com as situações, as pessoas comuns e seus agrupamentos, a solidariedade que dele se desprendia era uma soalheira sala-abrigo, toda caiada de branco, um gesto natural, uma espécie de atributo da personalidade. Nunca todavia contraditoriamente inconsciente e fácil, menos ainda piedosa. O fraternal impulso para com os outros, especialmente os "esquecidos" do poder (com os quais se identificava), melhor dizendo, de todos os poderes, institucionalizados ou não, convertia-o ele na exigência dum sentido de mudança (não esta festiva e formal mudança em que vivemos), no alertar pedagógico das consciências para a potencialidade da acção colectiva. Tendo por horizonte a edificação da cidade utópica, de que nos fala a canção, "sem muros nem ameias, gente igual por dentro, gente igual por fora"? Esse desígnio ideal, profundamente ancorado no seu substracto ético e político, não o impediu de se bater pelas causas concretas, radicadas nos interesses e nas organizações populares, profissionais ou outras, de as estimular ou apoiar à sua maneira. Por muito imediatos e circunstanciais que fossem, segundo o princípio mesmo da solidariedade assumida. Zeca media bem a distância que vai da sociedade real, desumana e injusta, para o sonho dela que sempre sonhou. E, para além das metas realizáveis sabe-se lá quando, que serão as utopias senão a denúncia, por alto contraste, da cidade actual?
Essa atitude solidária era claramente adversa a todo o dogmatismo intransigente, ou talvez este segundo comportamento seja a condição essencial do primeiro. Aos juízos categóricos, às verdades reveladas, trans­cendentes ou imanentes, às infalibilidades dos papas laicos que enxameiam o nosso pequeno universo
- tudo isso que desde sempre traçou as fronteiras da intolerância - opunha ele o permanente interrogar-se das questões, a dúvida crítica e o esforço da sua superação, a relatividade das soluções, em suma, a abertura
de espírito. Questionando os outros e a si mesmo, lançava pontes de diálogo, abria clareiras de convívio, atava os laços da aproximação, sem ceder todavia nas suas posições de fundo e na sua "praxis" actuante.
Esta postura transmudou-a o Zeca para o plano musical. Cantou. Mas o canto solidário foi mais do que mera consequência da atitude solidária do seu autor. Dele fez deliberadamente - como sabemos - um instrumento de acusação e de protesto colectivos, uma senha de reconhecimento comum, uma mensagem de luta e de porvir. Nos signos explícitos da linguagem do tempo reconhecemos os nossos verdugos e o seu fim anunciado. Uma vezes em metáforas carregadas de significação facilmente perceptível ("Coro dos Caídos", "Os Vampiros", "0 Avô Cavernoso", etc.); outras, ser­vindo-se de casos singulares como paradigmas da opressão a vários níveis ("Vai Maria Vai", "Cantar Alentejano", "Teresa Torga", etc.); sobre o pano de fundo dum lirismo que mergulhou as raízes na verdade da terra e da gente, e tinto também, aqui e ali, das tintas do surrealismo.
Foram perto de trinta anos da "canção de intervenção". Se quisermos fixar um momento, poderemos dá-Ia por começada em 1959, com a edição do "Menino do Bairro Negro" e prolongada por todo o tempo que a ditadura levou enfim a cair. Zeca não se deu, no entanto, por quite com o derrube do fascismo. Celebrou, em novas formas semânticas e musicais, o prometimento do novo dia, exprimiu, de modo mais conjuntural e directo, as vicissitudes dessa época histórica, e, visto que o acto solidário se não nega em fronteiras, cantou o amanhecer esperado doutros povos, não tão seguro como isso. Escarmentou, por fim, o adiamento da sociedade prometida pela revolução de 74, os seus alibis, as suas entorses, os seus glutões insaciáveis, herdeiros
, directos dos vampiros de recentes eras. Esteve onde o reclamaram, enquanto pôde, ele mais os seus colegas de ofício, até ao osso da resistência. Pelas associações recreativas e culturais, nos colectivos dos trabalhadores, nas escolas e academias, entre os intelectuais e os emigrantes, nos campos e nas cidades, em Angola e Moçambique, ele e a sua voz foram companheiros fiéis das nossas dúvidas e revoltas, dos nossos anseios e esperanças.
Em 1985, ano da última gravação, Zeca cantou, na sua "Alegria da Criação", o que podemos interpretar como sendo uma espécie de balanço antecipado,

"De nada me arrependo

Só a vida

Me ensinou a cantar

Esta cantiga"


João Afonso dos Santos
 

 

Variações sobre vozes esmorecidas

 

O apelo metafórico do poeta-cantor ao não esmorecimento da voz exige que se faça algum enquadramento e, concerteza, alguma especulação. O contexto em que o "apelo" surge teve por cenário uma luta que progredia (quem nela estava envolvido era progressista...), um horizonte positivo, utópico, uma libertação que se entendia concretizável.
Ao poeta-cantor exigia-se esse sopro mágico para que o seu empréstimo da voz nos fizesse fervilhar o sangue pelo corpo e pela alma e assim nos mantivéssemos permanentemente recarregados na luta. A voz do artista era então a voz feita nossa, nossa mesmo como colectivo ancorado numa esperança provavelmente vaga mas comum.
Esmorecer significava pois quebrar a alma, ficar pelo caminho por falta de forças, perdendo, portanto, a garra. As canções queriam-se necessariamente hinos e confiscava-se muitas vezes ao artista a sua criatividade, singularidade e quantas vezes o direito à sobrevivência em função utilitária desse destino que se tinha por certo. E nem sempre o artista, por opção ou por abdicação, conseguia impôr-se àquele condicionamento. Porventura muito poucos conseguiram sair incólumes destas dinâmicas festivas.
Muito poucos, como o Zeca, claro. Não só pelo que é imanente à obra que deixou, mas também pelo que ficou explícito, como por exemplo a entrevista que deu em 1973 ao "Cinéfilo", onde muito claramente se percebe que a relação entre Zeca/música/público/povo não deixa lugar à ambiguidade. Adverso ao populismo (onde o artista por mimetismo dissimula a sua condição e simula-se num meio que não é o seu), perfilhou sempre o princípio de beber em todas as fontes sendo que nada criava que não ficasse marcado pela sua singularidade e pela sua existência.
O mesmo se poderá dizer em relação ao pensamento e postura política. Assim a voz e a palavra não condescenderam na sua espontaneidade em pro­veito de se ajustarem na aparência ao catálogo normativo das retóricas vigentes. Deste modo a sinergia virtuosa na sua obra entre solidariedade, fraternidade, liberdade e criatividade deu frutos para muitos bons anos.
Que eficácia ou sentido tem hoje o apelo ao não esmorecimento das nossas vozes? É sabido que as utopias estão de rastos (e também fora de moda, diga-se) e que não há futuro ou destino que se tome por comum. Exceptuando algum folclore europeu cada um está gerindo o seu destino privado. A própria "utopia" privatizou-se e encarnou em pequenos ou grandes objectos de consumo. Esta "utopia" caseira assenta num discurso perfomativo onde a realidade nos surge simuladamente tão perfeita e tão ilusoriamente perto. Somos felizes, civilizados, democratas e ricos não porque o somos verdadeiramente mas porque surgimos da negação do Outro.
O Outro é aquele que nos surge na televisão (como se sabe hoje a via preferencial de contacto com o "real"): uma massa infeliz, informe e anó­nima de vítimas da fome, da seca, da guerra, indefesas e perfeitamente impotentes, não só pela amplitude do(s) desastre(s) mas acima de tudo pela incapacidade de reacção social, como que apelando à nossa providente salvação. Nada nos prende assim à sorte daquelas almas a não ser o sentir­mo-nos mais e mais seguros. (Pensando bem, que valem os nossos problemas do desemprego, racismo, xenofobia, criminalidade, droga, etc., perante tamanhas desgraças?).
Tempos próprios do desabanço (o termo era do uso do Zeca) ? "Apocalipse ou torneira a pingar no bidé"? Ou será que beneficiamos do efeito invertido da teoria da borboleta e das catástrofes? Assim já não é o bater das asas da borboleta num determinado lugar que pode provocar a catástrofe nou­tro, mas o apocalipse dos outros que faz pingar a torneira no nosso bidé!
As vozes que se saiba não estão esmorecidas, estão, na maior parte dos casos, vazias de som. Carentes de vida, de existência vivida, sem corpo, sem sentido colectivo que as ligue, estão, portanto,
à mercê daquele(s) que são apresentados como a voz representativa. Sem bússola, perdidos no deserto que mais ansiamos senão por um guia que nos oriente e leve?
Neste quadro de razão pessimista, de desertificação física, espiritual e de muita esterilidade criativa a voz e a figura do Zeca parece surgir novamente, por várias vias, com alguma regularidade, na ribalta. E surge muitas vezes quer por mão de vozes melancólicas, de "utopias perdidas", cujo pendor mumificador em relação ao artista tem, por certo, muito mais a ver com uma desesperada recuperação da decadente imagem política dos promotores, quer por vozes mercantis que não olhando aos mínimos direitos legais vêem na reprodução da obra um filão especulativo de mercado.
Mas uma voz como a do Zeca perdura no tempo e resiste ao uso conveniente e oportuno que cada um faz dela. A voz fecunda, temperada numa experiência intensa e numa autenticidade criativa vibra mais longe que o seu tempo. Sempre que se faz ouvir ela poderá acordar e estimular a dimensão criativa e a dimensão social no homem.
É nesta perspectiva que o não esmorecimento da voz pode ganhar algum sentido de que estamos carentes. Não como repetição mecânica de velhas formas e refrões, mas como estímulo àquilo que nos faz falta, ou seja, um esforço criativo descomunal, uma consciência da necessidade, um sentido solidário do futuro... "E quem vencer esta meta que diga se a linha é recta".

Jorge Abegão
 

 

Sons, sonhos e afectos
 

Não consigo falar de José Afonso de forma desapaixonada. Logo à partida é o uso do seu próprio nome de baptismo formal que me soa a qualquer coisa de remoto e de artificial, como aquelas capas das suas primeiras gravações que o referiam pomposamente como ‘Dr. José Afonso’, na boa tradição coimbrã. Para mim ele será sempre o Zeca Afonso, o Zeca que eu mal conheci pessoalmente e com quem nunca cheguei a ter qualquer convívio directo mas que foi uma presença constante e fundamental dos anos da minha entrada na adolescência, na viragem para a década de 70.
Os seus discos não passavam na rádio nem na televisão, nem sequer no Zip-Zip, que no ténue degelo da Primavera marcelista rompia vagamente na RTP o bloqueio da herança salazarista para nos deixar pela primeira vez ouvir as vozes de Fanhais e de Manuel Freire. Mas cada novo disco seu que saía chegava-nos através dos irmãos e dos amigos mais velhos, por vezes com recomendações de cuidado, porque – diziam-nos – «está proibido». Ouvi-lo era para nós a sensação de entrar numa aventura fascinante, que nos unia num gesto necessariamente juvenil e ingénuo mas nem por isso menos convicto de ruptura, de rejeição da estupidez da ordem vigente, de certeza de que era possível outra realidade em que os nossos sonhos e os nossos ideais poderiam tomar corpo. O Zeca, mesmo sendo da idade dos nossos pais, era um de nós, era a nossa voz, como uma espécie de Peter Pan que se recusara a envelhecer e que conquistara pelo seu génio de criador e pela coragem da sua postura cívica a juventude eterna dos grandes ideais.
Aprendíamos de cor as letras e as músicas. A menina dos olhos tristes que chorava porque «o soldadinho não volta do outro lado do mar» era a imagem perfeita da nossa própria angústia naquele universo de jovens que víamos partirem todos os dias para a guerra e não regressarem, num destino que sabíamos poder em breve vir também a ser o nosso. A brutalidade estúpida dos filmes cortados e dos livros proíbidos, de que nos apercebíamos como a imagem quotidiana mais imediata da censura, despertava-nos anseios de liberdade de pensamento que o Zeca mais uma vez expressava como ninguém: «Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar». E a realidade envolvente de uma pobreza cujos extremos são hoje difíceis de descrever de forma credível à geração nascida nos anos 80 tinha retratos emblemáticos no menino do bairro negro, «onde não há pão, não há sossego», ou na mulher da erva de «saia rota, subindo a estrada». Éramos adolescentes de uma classe média de existência confortável e protegida, e escusado será dizer que esse nosso sentido generalizado de descontentamento não tinha ainda qualquer vertente subversiva eficaz que pudesse fazer perder o sono ao regime. Mas era uma sementeira de recusa que marcava toda uma geração e a que as canções do Zeca serviam de hino apaixonado.
Quando a Grândola, vila morena foi a senha do 25 de Abril não nos surpreeendemos, era quase que um direito adquirido. E tampouco foi surpresa ver o Zeca associado a um olhar essencialmente libertário sobre a vaga revolucionária que se seguiu, fiel ao que de mais autêntico e generoso se desencadeava assim na consciência dos portugueses e distante de todas as traições e manipulações que procuravam preverter esse anseio de construção de um país diferente: «Tenho visto muita gente dizer-se amigo do povo, uns são do partido velho, outros vão fundar um novo».... Depois foram os anos da doença, cada vez mais cruel no anunciar de uma sentença de morte incontornável, agravados pela angústia de uma realidade política bem distante dos sonhos acumulados. Eu estava nos Estados Unidos, em pleno doutoramento, quando me enviaram o vídeo do concerto final do Coliseu, e lembro-me de não conseguir conter as lágrimas quando vi o Zeca, numa combinação mágica de fragilidade física e de força moral, cantar o refrão da Balada de Outono, que agora assumia um significado trágico à luz do seu estado de saúde: «Água das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar»...
Não sei bem como começar a descrever a música do Zeca Afonso. Ouvindo, a posteriori, as suas primeiras gravações, entre finais dos anos 50 e inícios da década seguinte, percebe-se uma filização evidente na tradição da balada de Coimbra, que de resto ele nunca negou – veja-se, muito em especial a sua homenagem comovente ao género, no seu conjunto, e em particular à figura de Edmundo de Bettencourt, no álbum «Fados de Coimbra e Outras Canções», de 1981. Mas essa tradição vai sendo repensada, logo nos seus primeiros EPs de maior fôlego, com uma distanciação crescente.
É um esforço criativo profundamente original, para o qual não se pode, em boa verdade, apontar influências exteriores directas: estamos, é verdade, na época de um Pete Seeger na balada ‘folk’ norte-americana, no arranque da Bossa Nova brasileira, com João Gilberto e Tom Jobim, e em pleno desenvolvimento da canção francesa, com Brassens, Brel ou Ferré, mas entre estas correntes e a obra de Zeca Afonso e o seu contexto imediato não se podem estabelecer paralelismos directos para lá das preocupações genéricas de consciência cívica e de exigência poética que lhes são comuns. A nova canção de Coimbra corporizada pelo Zeca parece ser antes de mais o produto da interacção local de um grupo de músicos especialmente dotados, em que encontramos as guitarras de Portugal e Brojo, as violas de Rui Pato e Durval Moreirinhas, como mais tarde a de Carlos Correia (Bóris), entre outros instrumentistas, e no qual o percurso individual de José Afonso se vai desenhando em paralelo com os de Adriano Correia de Oliveira ou Luiz Goes, por exemplo, todos eles marcadamente individuais.
A presença da canção tradicional rural é também um factor marcante, sobretudo no gosto que Zeca Afonso manifesta desde cedo pelas melodias de substracto modal, próximas de tantos tomances populares ancestrais. O mesmo traço se pode detectar, de resto, com relevo semelhante, na música de Carlos Paredes, e trata-se, afinal de contas, de uma presença com tradições estabelecidas no repertório coimbrão, já nas décadas ‘clássicas’ do género, nos anos 20 e 30. Como mais tarde será também nítida uma presença das músicas africanas, sobretudo no gosto pelos ostinatos rítmicos e pelo uso das percussões. A África era, afinal, uma memória dos primeiros anos de infância do cantor, reforçada depois pela sua passagem por Moçambique como professor do liceu, entre 1964 e 67, e o seu sentido profundo de solidariedade entre o combate interno pela democracia e a causa da luta anti-colonial só poderia vir a reforçar esta sintonia musical com as tradições africanas, que se torna cada vez mais clara nos últimos álbuns.
Por sua vez, a partir de 1971, com o álbum Cantigas do Maio, a diversificação crescente dos seus acompanhamentos instrumentais, em particular pelo papel que neles passam a desempenhar os arranjos de José Mário Branco e pela participação de um vasto número de outros músicos destacados da canção de intervenção, muitos deles de gerações mais jovens, acentua a plena evolução de uma linha de depuração de linguagem e de pesquisa de novas soluções que só as limitações físicas crescentes dos últimos anos vêm interromper. Aliás, sublinhe-se que a vontade de comunicar com o seu público e de fazer passar uma mensagem política empenhada nunca levou Zeca Afonso a soluções de facilidade que comprometessem a integridade essencial da sua escrita poética e musical. Sentimo-lo, nos trabalhos dos seus últimos anos, apostado numa procura artística sempre inovadora, que a doença e a morte nos roubaram antes de tempo, estupidamente.
Lembrar as palavras, a música e a voz de José Afonso, vinte anos depois da sua partida, é sem qualquer dúvida uma prioridade para a nossa consciência da identidade cultural portuguesa nos meandros massificadores da globalização e do consumo musical industrializado. Por mim, no entanto, nunca conseguirei separá-las da presença viva do Zeca, hoje como ontem a acordar-nos como referência ética e cívica num mundo cada vez mais à revelia dos valores e dos ideais generosos que ele soube incarnar como ninguém.

Rui Vieira Nery 

 

Somos nós os teus cantores

O Zeca Morreu! – Foram as palavras que meu pai, apoiado na janela, disse como num desabafo. Eu apenas sabia que o Zeca, que só mais tarde se me mostrou José Afonso, era uma voz saída do aparelho de música todos os sábados de manhã e um incómodo, um quase descontentamento se me dava caso não a ouvi-se. No despontar de minha infância o Zeca era aquele cantor que fazia os olhos de meu pai olharem longe, alcançando horizontes que ainda não compreendia. Por isso aquela notícia se anunciou estranha, era como se por algum motivo o disco não mais fosse girar e aquela cantiga tão amiga não mais soasse. – Foi o nosso cantor! –  A única frase soluçante que até hoje ouvi de meu pai, que laconicamente deslocou a agulha encontrando o disco em movimento. Maio maduro Maio quem te pintou, quem te quebrou o encanto nunca te amou…num gesto quase de imitação sentei-me à janela olhando o horizonte e imaginando que o Zeca era o meu cantor, que naquele momento apenas eu e meu pai o ouviam. O horizonte tão quotidiano como que se pintou e eu via lá longe uma falua que vinha lá de Istambul, e Maio para mim, que nem sabia de cor os meses do ano, passou a ser o melhor deles todos. -Quem foi o Zeca pai? – Meu pai, agora reclinado na cadeira, parecia já adivinhar a pergunta - O Zeca foi o maior cantor e compositor português, foi poeta, usou a música como arma política, lutou contra o fascismo…foi o nosso cantor. Foi então que me lembrei das discussões dos domingos à noite em que eu, deitado, provocando o gato, ouvia falar de uma tal Revolução, palavra a qual não sabia o significado mas achava bonita. Cresci ouvindo o Zeca, todos os dias primaveris, abrindo as janelas, punha o disco “Venham mais cinco” ou “Com as minhas tamanquinhas”, continuando a achar que o Zeca era o meu cantor e em segredo ia apontando letras das quais palavras saltavam, enigmáticas, de minha imaginação. Um dia já mais velho passei numa loja e vi a um canto um CD com uma mão na capa, era do Zeca, comprei-o e trazia com um disco um livrinho que tinha fotos, fotos do Zeca. Um homem meio despenteado, com olhos semi-serrados, por detrás de uns grandes óculos que à força da imaginação tentava endireitar. Durante muito anos rejeitei aquelas fotos; para mim aquela voz profunda e bela que ouvia nas canções não tinha um rosto próprio, talvez um vago perfil de um homem reclinado na janela.
José Afonso, para mim sempre Zeca, morreu há 20 anos. Tempo em que deixou de ser apenas o meu cantor, passou a ser a voz de Abril, um cantor sem igual que nos brindou com a mestria de suas composições acompanhadas com a firmeza de seu carácter. Mais do que cantor, sua obra se transcende na mensagem de inconformismo caiada de rebeldia poética e concisa. Ainda hoje olho o horizonte que há 20 anos o Zeca transformou e sinto que não morreu, vive hoje e sempre na obra e em sua imagem inalterável. É tempo de se ouvir Zeca Afonso, ouvi-lo em casa, nas escolas e universidades, nas rádios e televisões, ouvi-lo sobretudo em nossa tão íntima realidade pois hoje: somos nós os teus cantores!


Adriano Campos
 

O José Afonso foi meu colega desde o 4º ano de Liceu e aí começaram as primeiras gui­tarradas e os primeiros fados de rua que era a maneira de nós não sermos derrapados, lá em Coimbra, com o Mário Barroso.
Saíamos para as nossas noitadas desde que se cantasse e tocasse bem ou mal, e ele can­tava bem e o Barroso tocava muito bem, eu é que era o mais insipiente. Fomos colegas desde o 4º ano, e mais, vim a ser seu compadre, padrinho do seu primeiro filho.
Estava eu na Faculdade de Engenharia no Porto, quando recebi um recado dele, à sua boa maneira: - Quero que sejas o padrinho do meu filho. E lá fui eu para o notário da Avenida da Sofia com a minha comadre, uma moça de Pinhel, a Leia. Entretanto o José Afonso foi dando os nomes e as datas do pai, da mãe e dos avós e daquelas coisas todas que lhe pediam, até que o notário the perguntou: - Em que dia é que nasceu a criança?... e ele: Eh, pá, em que dia é que nasceu o meu filho??? E eu disse 17 de Janeiro de 1952. Histórias...! ele tem tantas... Uma em que ele quer receber a Tuna Académica de Coimbra que vinha de Nova Lisboa, em Angola, para o Lobito, no Caminho de Ferro. Ele pertencia à Comissão de Recepção. Eu já não via o Zeca há seis anos. Ele saíu do comboio dirigiu-se a mim e disse-me: Eh pá, esta malta agora tem um sentido exagerado de propriedade, e eu perguntei-lhe: Porquê, pá? E ele explicou: Olha quando me levantei, calcei as meias do parceiro que vinha na cabine, comigo, e o tipo refilou tanto, tanto, que eu estive a quase a ir-lhe ao focinho...
Outra vez, ainda no Liceu, quando apareceu o aspecto ortográfico de acentuação, o Zeca nas aulas de Português dizia "Estando os conégos da Se com os cotóvelos apoiados numa mesa de pau de ebâno bebendo uma pinga de cáfe, estando uma menina a ler, diz um deles: "Ai que bem que a menina le", pois ainda não é nada, porquanto ainda vamos no prológo quando formos no epilógo das formigas...! E muitas outras mais... Há muitas coisas que se sabe pouco dele, eu devo dizer, para mim, que o Santos Silva, engenheiro na Figueira, o Manuel Nemésio, filho do Vitorino Nemésio que o conhecemos na intimidade desde crianças, sabemos da sua generosidade, da sua coragem e da sua energia física. Nós punhamos as capas em cima da cabeça e ele saltava aquilo. Na Universidade ele corria muito bem... e como é que aquele homem vem a morrer com aquela doença de atrofias musculares ele que era de uma elasticidade física como poucos.
Era uma pessoa de grande coragem, pois por vezes em situações de grandes conflitos, em que ele não se metia, mas que não arredava pé.
Dizer dele, que era um homem de boa fé, duma descuidada ingenuidade, um homem bom e assim vivíamos. Convidou-me no dia seguinte ao casamento dele, que fez com umas testemunhas quaisquer, que encontrou. Sentei-me e comi com ele, o primeiro prato de bacalhau com duas batatas, no quarto dele no Beco da Carqueja, era um Beco que havia mesmo em frente da Sé Velha, e ele vivia ali no 3º andar.
Muitas vezes encontrei o Zeca Afonso a dormir na minha cama na minha "República" e eu a ter que me deitar num colchão no chão, porque ele não aceitava que o fossem tirar da cama onde dormia, aquilo era dele. São alguns pormenores que posso contar. Falar dele é falar de muita saudade. São muitos os episódios, mas acho que o António Fernandes Santos Silva engenheiro da Figueira da Foz, tem um livro que traz umas histórias sobre o Zeca. O Santos Silva, julgo que foi a pessoa que melhor retratou a vida do Zeca. O resto, floriram, e na minha opinião exploraram a pessoa que ele era. Nalgumas coisas, utilizaram a sua maneira de ser mas este, o Santos Silva, deu em toda a sua beleza a sua grande dimensão com a amizade de irmão.

Carlos Couceiro
 

"Ó pá, desculpa lá isso!".
Zeca Afonso

Atrevo-me a dizer que é verdade que o bom senso me desaconselha a reproduzir certas palavras de Zeca Afonso sobre Belmonte. Creio mesmo que, em tempo de Comemorações dos 500 anos do Achamento do Brasil, por Pedro Álvares Cabral, navegador de raiz belmontense, seria politicamente correcto... omitir.
Mas é certo que a sua intransigência na defesa de princípios e valores tornaria imperdoável desvirtuar as suas memórias. Vénias rituais nunca couberam na voz em que ressoava a poesia e o apelo à fraternidade. É, por isso, proibido, imoral, esconder a fala do mistério duma relação com as gentes e um lugar...
Em 1938, diz "...fui para casa de meu tio (em Belmonte) onde vivi o pior ano da minha vida, o mais desgraçado. O meu Tio era Presidente da Câmara, comandante da Legião, germanófilo (...)"*. Foi um período "fechado". Sentia-se só, privado de contactos. Lembranças que não oculta, justifica e ilumina em busca de outra verdade: o tio que assinava o "Sinal" e outras revistas, que faziam o elogio do esforço bélico alemão, que sintonizava a Rádio Paris colaboracionista... "teve uma coisa boa: ensinou-me cantigas populares antigas da Beira; ouvi-o cantar líricas de óperas (...)"*; acrescenta: "foi ele que me incutiu o gosto pela música"*.
O prisma das cores é múltiplo e de Belmonte ficaram imagens polícromas. E guardou também o Professor Tavares "... que gostaria de ver porque era um indivíduo sério"; e os jogos populares (canicho e bilharda) em que não participava por ser "sobrinho do senhor doutor".
Na vila acontece-lhe a primeira "paixoneta", por Helena Cabeças que "... me desapareceu furtada por um indivíduo com muito mais experiência do que eu"*; a segunda nasce também na localidade, por uma rapariga judia: "Nutri por ela uma paixão inexprimível e inenarrável"*. Amores que não eram confessados e eram vividos em tempo de passar férias na casa do Tio.
Sem dúvida que o passado que se conta, não pode ser se não imperfeito... e, (quantas vezes) contraditório. Todavia, o saber que diz aquele Belmonte, a ternura com que acalentou as memórias desvelam a verdade de um lugar e de um tempo com versões verdadeiras...
Talvez, por isso, ainda em Abril, em 1974, veio à Beira e a Belmonte festejar a Esperança de um tempo novo. No Castelo teve uma recepção inigualável. Toda a gente sabia quem era Zeca Afonso, a liberdade rodopiava por ali a propiciar intimidades, cumplicidades, fraternidade. Zeca estava do lado dos desfavorecidos, ninguém ignorava. Na vila tinha sido o "sobrinho do Senhor doutor". No Castelo , ouviu, então: "Ó meu sacana não te lembras, quando me atiraste um calhau às costas?" O Zeca olhou-o estremecido; condoído abraçou-o, e saiu-lhe "Ó pá, desculpa lá isso!".
Guardou esta história e lembrava-a, quando nos juntávamos.
As "meninas Martinho", como dizia, tinham também lugar no álbum da memória. A última vez que falámos, quando desaparecia a esperança de voltar à Beira, pediu: "Dêem um abraço às meninas Martinho". E no dia em que a Zélia Afonso, veio a Belmonte para participar na homenagem da Câmara Municipal, ao Zeca, em 1990, Judite Martinho ofereceu-lhe uma peça que confeccionara com carinho "... uma lembrança para o enxoval da filha, da menina".
Em Belmonte, uma placa lembra Zeca Afonso; foi colocada em frente da casa doutro amigo - Zeca Argentina -, junto da Escola Primária mais antiga, num largo que, pelo Natal, ouve a voz do Zeca:

"Muita neve cai na serra,
Muita neve cai na serra,
Só se lembra dos caminhos velhos,
Quem tem saudades da terra.".

Nota: * José A. Salvador, Livra-te do medo, Lisboa, A Regra do Jogo, 1984

Maria Antonieta Garcia
 

Era uma vez: chegada à Marinha Grande para um recital. Operários vidreiros recebem-no com entusiasmo. Rui Pato acompanha-o de novo. Primeiro pedido do Zeca: umas meias. Tinha-se esquecido de calçar peúgas... Em Coimbra, diz-me o Rui, o Zeca sempre teve fama de maluco. Aconteciam-lhe coisas estranhíssimas e a mais vulgar era andar com uma meia de cada cor. Trazia sempre com um saco de remédios. Uns para dormir. outros para acordar. À noite enfiava calmantes, de dia estimulantes... Tinha também o hábito da vitamina C. Quando chegava à gravação dizia que não tinha voz e tomava uma injecção de vitamina C para «aclará-la». Era raríssimo haver ensaios. Para gravar um «long-play» começava-se de manhã e à noite vinha-se para casa. Hoje isso leva um ou dois meses. Aquilo era à primeira e no máximo à terceira. As coisas acabavam por ser modificadas e refeitas no acto da gravação. Era o que há de mais improvisado. O Zeca punha sempre dificuldades nas gravações. Às vezes dizia que não fazia a digestão. Um dia propus-lhe uma refeição leve. Comemos um ovo estrelado. Estávamos prontos para gravar e ele disse que não conseguia cantar. Respondi-Ihe que não podia ser do almoço, não fora pesado. Então ele ripostou: «Ó pá, sinto o ovo estrelado no cimo da cabeça».
in "Livra-te do medo - estórias e andanças do Zeca Afonso" de José A. Salvador

Rui Pato 


Numa tarde de Primavera

Numa tarde de Primavera de 75 havia encontro marcado numa terreola a pouco mais de uma hora por estrada de Lisboa. Meia dúzia de casas chãs à vista e outras tantas meio escondi­das entre morros e arvoredos e onde se chegou por umas voltas longas, poeirentas, com o sol a bater na chapa, até se desaguar de repente num largo sem forma de largo onde brincavam crian­ças e uma porta aberta com cartazes de bebidas a sugerir haver por ali café, ou tasca. Acostámos a esse porto de abrigo com sede e fome autênticos de náufragos.
A primeira questão resolveu-se patriotica­mente com garrafas de «Sagres» e sandes de chouriço, o que foi possível, mais umas bicas e maços de «Português suave».
Na sala, três mesas e meia dúzia de cadeiras e um balcão estreito de formica vermelha ser­viam de cena a uma televisão aberta em surdina, com um moço a dormitar por detrás do balcão sem angústias aparentes. Da televisão, não era difícil perceber, vinha tudo ou quase o que a terra ali não podia dar: rumores e novidades do mundo. E o mundo era naturalmente tudo o resto, Lisboa inclusivé, donde as novidades, suponho pelo melhor, mais cheiravam a conversas barrocas de bêbados.
Nós, os quatro ou cinco forasteiros anónimos, descarregados de uma carrinha suja e baru­lhenta, pertencíamos visivelmente a esse mundo de rumores distantes e de novidades confusas da televisão. Mas havia um pormenor.
A um canto, junto ao cartaz do totobola, uma folha de letras toscas anunciava cantorias para dali a seguir, na escola, e o moço do balcão percebeu e não se conteve, esticando os beiços em sentido e exclamado prazer, mas você é o Zeca!
Com a minha ironia fácil, adiantei, não, é a Amália!... que o Zeca nestes casos sorria, fran­zia o sobrolho e calava.
Creio que ninguém no momento percebeu a ironia, nem eu, senão pelo que me pareceu até um mau gosto de ocasião. Mas depois repeti o dito já como verdade digerida e afirmada, e a revelação era assim, que efectivamente o «antigo regime» tinha caído, e a prova provada estava ali.


Vasco de Castro
 

Já o sol era nascido acima do horizonte atlântico que se avistava do paquete “Pátria”, de regresso a Lisboa com a Tuna Académica. O pelotão da noite regressava às «casernas» da 2ª classe para retemperar energias para o dia seguinte.
Éramos uns três ou quatro, incluindo o Zeca e eu, de viola, caminhando no deck, da ré para a proa.
A noite tinha sido mágica. Cabelos ao vento, qual deusa grega, Natália Correia recitou poemas que a brisa levou e o Zeca cantou umas coisas que já não eram fado, e que ainda não eram balada.
Na rotina dos cuidados de higiene e limpeza do navio, um marinheiro mangueirava o deck com fortes jactos de água marinha.
Caminhávamos. De repente, o Zeca parou e disse: «Tenho os pés molhados». E flectiu a perna para inspeccionar o que se passava com a sola dos seus sapatos. Assistimos então a uma revelação: as solas de ambos continham crateras do tamanho de medalhas comemorativas de não sei o quê; e onde devia haver sola, cabedal ou couro, só havia buracos, e mais, onde devia haver meia, também não havia.
À luz nascente daquele novo dia, a única e primeira coisa que se vislumbrava, enquadrada pela moldura do buraco, era a pele da planta do pé do cantor, que ele, agredido na sua sensibilidade cutânea, dizia «molhada».
E então, o Zeca, lentamente, descalçou o primeiro sapato. Depois, o segundo. E, num gesto e movimento que me lembrou aquela devolução que os «matadores» fazem para o público, das ofertas que lhes atiram para a arena na volta triunfal das lides, o Zeca lançou os sapatos ao mar.
Ainda se mantiveram à tona por segundos. Depois, foram rapidamente engolidos pela espuma e deglutidos pela sucção do mar.
«E agora, José?» - teria pensado eu.
«Ó Zeca, como aqui no barco não há sapatarias, como é que vai ser amanhã?»
O Zeca, descalço e de peúgas rotas e molhadas, caiu finalmente em si:
«É pá, pois é, não há sapatarias... »
No dia seguinte, quando o avistei, a primeira coisa que fiz, com curiosidade, foi olhar para baixo, para o chão, para ver como era o pedestal da estátua. Um espanto: sapatos reluzentes, engraxados, talvez de marca.
«Ó Zeca, onde é que, como é que...», perguntei eu.
Já não me lembro da resposta dele, nem penso que interesse para o caso porque, às vezes, as respostas já vêm contidas nas perguntas.

José Niza
 

Em 1974, já depois do 25 de Abril, o Zeca Afonso foi a Londres gravar mais um dos seus discos, o «Coro dos Tribunais». Competiu-me a mim a produção e ao Fausto a concepção dos arranjos e a direcção musical.
O Zeca, sobretudo quando gravava no estrangeiro, gostava sempre de convidar outros músicos e outros cantores. Sentia-se melhor assim, mais acompanhado, e gostava também de ouvir as suas opiniões e as suas sugestões.
Dessa vez, além do «núcleo duro» do disco (Fausto, Carlos Alberto Moniz, Michel Delaporte, Yório) estavam também o Adriano e o Vitorino, mas nenhum teve envolvimento permanente na gravação.
E, assim, enquanto nós estáva­mos em full-time na gravação, e o Vitorino e o Adriano andavam turisticamente por Londres, à descoberta de coisas.
Um belo dia, a meio da tarde, entram os dois, esfuziantes de contentamento, estúdio adentro.
Interrompida a gravação e perante a estupefacção dos engenheiros de som ingleses, o Vitorino anuncia a grande notícia: ali mesmo, a dois passos do estúdio, tinham descoberto um «lugar» onde se vendia chouriço, presunto, vinho tinto e pão caseiro!
Mais não bastou para que instrumentos musicais e outros apetrechos sonoros e acústicos
fossem postos em repouso, perante o ar incrédulo dos ingleses.
E o Zeca disse: «Bem, vamos lá então ao chouriço e a molhar a goela»! E se assim o mandou, melhor o fez.

José Niza
 

"A noite estava fresca e escura, sem lua que se visse sobre os telhados, mal iluminada pelos pontos de luz fracos e parcamente disseminados. Na rua não havia qualquer movimento especial, como não havia nas escadas dando acesso ao vestíbulo da sede do simpático clube do Barreiro velho. A dúvida tomava conta do espírito, já de si inquieto, do jovem estudante que tivera aulas em Lisboa até tarde: «E se não fosse fidedigna a informação surgida por via familiar e rodeada do secretismo próprio do tempo?»:
Vai haver uma sessão de baladas no Luso com o José Afonso!... transmitira, em jeito de confidência, o primo Caria."
"— Quando? — antecipara-se o jovem aos restantes inter-locutores receosos.
— Nos princípios de Novembro, telefonou o Zé bicas...
— Se fora parente distinto, então a informação era digna crédito, só faltava apurar a data.
A angústia momentânea fazia tolher os passos, ainda no corredor, onde se situavam os balneários. Não se via ninguém, a porta ao fundo estava encostada, a dúvida já dilacerava: «Se calhar não era hoje? Ou então foi cancelada!...»
Empurrada devagarinho, a porta do salão abriu-se, enquanto o coração batia descompassado de dúvida e esperança, para logo pular de alegria e emoção, o salão estava literalmente cheio, talvez 300-400 pessoas.
A sessão já tinha começado, no palco uma viola (Rui Pato) acompanhava uma voz feminina terna e timbrada (Teresa Paula Brito), num blue ou algo do género (Summertime). O calor das palmas revelava o entusiasmo dos presentes, algumas caras conhecidas, poucos jovens da zona (faltava esclarecimento e mobilização entre a malta).
A seguir a poesia dita com muita alma (Odete Santos e a Marcha Almandenim) e uma explicação para a não participação do Adriano Correia de Oliveira, também presente: «Estava na tropa e não lhe era permitido cantar.» Assobio, alguém ensaia um grito isolado: «Abaixo a guerra!», sem seguidores. No fim acabaria por cantar em coro, mas naquele momento segurava os papéis com as letras que o memorável Zeca Afonso começava a cantar.
Por cada intervenção a sala explodia em aplausos e gritos. Para além dos méritos do cantor, algo mais ali se celebrava, era Portugal amordaçado abrindo o grito de protesto contra a tirania, pela voz do poeta que melhor fazia a sua denúncia. A poesia generosa e revolucionária despertava a vontade de participar no combate à repressão que prendia e torturava a resistência à ditadura. Como de resto neste caso também iria acontecer.
Na plateia um novo grito se juntava, cada vez com mais insistência, conforme o poeta-cantor avançava na noite. Tanto podia ser interpretado como uma acusação, como um pedido:
— Vampiros! Vampiros!
Alguém da organização (Álvaro Monteiro) explicava no palco ser aquela uma sessão comemorativa de um aniversário (Cine-Clube do Barreiro), devendo-se evitar complicações. A resposta da plateia foi eloquente, gritando com mais força ainda:
— Vampiros! Vampiros! Vampiros!
Um assistente perto da porta, com ar de quem tinha vindo de longe, comentava judiciosamente:
— A canção está proibida! É um risco desnecessário cantá-la Não insistam!
Ouvindo o reparo contrariador, mais vozes se juntaram ao imenso coro e o poeta cantou, com centenas de gargantas embargadas de emoção:
Se alguém se engana com seu ar sisudo,
E lhes franqueia as portas à chegada,
Eles comem tudo, eles comem tudo!
Eles comem tudo e não deixam nada!
Se há acontecimentos que marcam uma geração, a sessão de Canto e Poesia, promovida no dia 11 de Novembro de 1967, pela direcção do Cine-Clube do Barreiro, em colaboração com o Luso Futebol Clube, ficará para sempre gravada no coração dos barreirenses. Dos que estiveram presentes, como daqueles que depois ouviram contar, se é que é possível transmitir a emoção até às lágrimas duma noite inesquecível."

Armando Sousa Teixeira  

A comoção é o mais evidente sinal de que também o coração pode ser inteligente.
Se hoje (se ainda hoje) nos comovemos perante a voz, a figura e o exemplo de um tal José Afonso Cerqueira dos Santos – provavelmente, é porque nos sucede sermos portadores de um coração inteligente, de uma alma com memória e, ainda, de algo a que se pode (e deve) chamar gratidão.

O tal senhor chamado José Afonso Cerqueira dos Santos tornou-se no Zeca. O Zeca de todos nós. O Zeca como só ele. Nasceu em Aveiro no dia 2 de Agosto de 1929 e começou a resistir praticamente desde então. Dizem que morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987. A pessoa física, sim: morreu. O artista, o músico, o cantor, o poeta e o compositor, esses todos que ele era em um só corpo, esses não morreram. Nós somos, hoje e aqui, amanhã e acolá, a mais fundamentada prova de vida de Zeca Afonso.

Poucos homens e poucas mulheres podem ser recordados como tão altos. Poucas mulheres e poucos homens fizeram tão bem rimar existência com resistência. O Zeca Afonso foi sempre, é na mesma e sempre será um pássaro que nos falava de gaiolas. Um poeta do “raio de sol queimado”. Popular sem populismo, libertário sem libertinagem, consciente da dupla condição da vida: breve no corpo, perpétua na voz. Temos de aprender a ouvi-lo de novo: ele continua a dizer o dia de hoje.

Para o fim da vida, na última das suas casas, tinha pelas paredes o rasto gráfico do momento mais alto da sua e da nossa vida: o 25 de Abril de 1974. Foi dele que veio a madrugada cantora, a aurora marchante, os compassos morenos da primeira cidadania que, ao fim de tantos anos escuros, nos foi permitida. Zeca Afonso não era, não foi e não pode ser ouvido como a “cassete” do 25 de Abril. José Afonso é o 25 de Abril – mais alguns homens e mais algumas mulheres.

Das canções mais imediatas às de maior densidade semântica, o Zeca Afonso devolveu à língua cantada e à música popular aquilo que, depois dele, lhes vem sendo indecorosamente roubado: a dignidade expressiva de um coração inteligente e de um pensamento solidário. Ou seja: uma poesia e uma música que são, de facto e deveras, para todos.

Da renovação da balada coimbrã (a partir de novas ousadias harmónicas, melódicas e líricas) à inconfundível obra pessoal dos discos posteriores, o Zeca Afonso é sempre alguém que nos trouxe algo para puro efeito de partilha. Não há solidão na música e na poesia de José Afonso. Só há solidariedade. Até porque nenhuma multidão começa sem se estar sozinho.

Esquerda, extrema-esquerda, reviralho e revisionismo, direita e extrema-direita: todas as franjas do espectro político-social do nosso País, nos últimos 33 anos, continuam a ser tocadas pela graça magistral deste homem que queria tirar, do homem, o lobo do homem. A aparente facilidade da sua obra é, provavelmente, o único engano que ele nos legou: a obra dele é tudo menos fácil. Mas é de todos. Ele não ficou com ela só para ele. É nossa.

A glória do Zeca Afonso não é de panteão nacional. Não é uma gloríola de 10 de Junho, de verso e reverso de medalha. Não aceitou nunca ser general. Era um homem de pão, paz e pombas: era um português, como há já tão poucos. Pelos menos, com memória de sê-lo: português não aduaneiro, não missionário, não superior a ninguém. É uma estrela – certamente: mas uma estrela humilde. E pessoal. E transmissível.

Depois do 25 de Abril fundador da nossa Liberdade, José Afonso Cerqueira dos Santos não chegou a existir fisicamente sequer 13 anos. Resta-nos, dele, a pedra aérea, a pedra leve, a pedra definitiva dos seus versos humanistas e humanizadores. Isso e a estranha pureza da sua música nova, das suas canções em que é tão fácil reconhecer a grandeza. O legado do Zeca é o canto livre, moço, resistente e lúcido. Não é para trautear. É para cantar mesmo.

Não há rótulos a colar ao corpo deste operário que hoje recordamos. O Zeca está para além de qualquer autocolante. Não há gaveta onde o possamos arquivar sem risco de uma amnésia mortífera. Por isso o celebramos em vida. Dizem que morreu há duas décadas. Talvez o portador de bilhete de identidade tenha cedido à doença. O que não é possível, de modo algum, é renegar a evidência da sua presença em cada madrugada. A noite só vem se nos esquecermos. Dele e de nós.

Daniel Abrunheiro