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"Só quero ter o meu tamanho real"
Entrevista da revista "Vida Mundial", Ano 34, nº 1749 de 1972
"Os
ossos do ofício"
Entrevista na revista Cinéfilo, nº 8, 22 a 28 Novembro
de 1973
"José
Afonso uma posição de coerência"
Entrevista na revista Flama, nº 1370, 7 de Junho de 1974
Entrevista do programa "Ver, ouvir e contar"
RDP1 em Março de 1985
"O que
é preciso é criar desassossego"
Entrevista no semanário Se7e de 27 de Novembro de 1985
"Zeca Afonso: conjugar o verbo ser"
Excertos da entrevista concedida
por José Afonso
ao jornalista e escritor José Amaro Dionísio em Junho de 1985.
ORIGENS
Não procuro iludir a minha origem burguesa, a minha experiência de
estudante, embora tenha sido relativamente larga, devida a factores mais
ou menos acidentais, como a
possibilidade
de estabelecer contacto com pessoas situadas fora do âmbito
universitário.
Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 24/12/70
Aos
sete anos em Aveiro é a escola primária. Foi violentamente
traumatizante: um professor pendurava-me pelas orelhas porque eu era
distraído. Depois, em Lourenco Marques, outro professor, o Manuel
Joaquim «Chumbador»,
irritava-se
comigo e agredia-me, também com o
argumento de eu estar distraído.
Entrevista a Fernando Assis Pacheco, in «Jornal de Letras»
19/1/82
Não renego nada do que fiz, mas
também não receio corrigir a minha imagem perante mim próprio adoptando
atitudes nas quais não me sinto bem e combatem os meus alibís internos e
autojustificativo.(...) Sou um pequeno burguês, fiho de um juiz do
Supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na
solidão deixa marcas de cuja importância só nos damos conta muito mais
tarde.
Entrevista a José Amaro Dionísio, in «Expresso», 15/6/85
Até ao fim da adolescência, eu ia regularmente
à
missa, assistia ao Santo ofício, confessava-me. Hoje passa-se algo como
um regresso às
origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante,
evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concepção religiosa do
universo. Vi, um dia destes, «O Evangelho Segundo Sao Mateus», de
Pasolini, e fiquei perturbado. E
estou a ter autores como S. João da Cruz e S. Francisco de Assis. Há
uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo
institucional, o eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que
tem tome e sede de justiça.
Idem
ENSINO
Gostei muito de ensinar, mas
o ensino não me ofereceu a diversidade de vivências que retiro da minha
actividade de cantor. Estou indeciso quanto ao que, efectivamente,
prefiro fazer. No fundo, não me desagrada exercer, alternadamente, as
duas profissões: dois anos a ensinar, um ano a cantar...
Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 24/12/70
0
professorado fascinou-me, sobretudo as aulas da noite, onde conheci
indivíduos, entre os meus alunos, que vieram a ser meus companheiros de
luta — como o Matias, que foi um dos fundadores da LUAR, mais tarde
assassinado pela PIDE, e outros.
Entrevista a
Viriato Teles, in «Mundo da Cancão», Fev./Mar. 81
A minha primeira aula foi dada de capa e batina e
estive para aí uns cinco dias sem dormir, a pensar como
a
que iria rer lata e sabedoria para
enfrentar uma turma, como
é
que eu poderia empinar e
explicar a História do Evangelho Segundo São Mattoso. E creio que nunca
cheguei a resolver bem esse problema.
Entrevista a
Viriato Teles, in «Se7e», 26/1/86
«A
minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida
em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um
espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem
dos programas oficiais.»
FADO DE
COIMBRA
O Edmundo Bettencourt foi o
maior cantor de fados de todos os tempos. Ele marcou uma
época,
foi um elemento
decisivo
para a melhoria do gosto coimbrão, tendo
sido,
acima de tudo, um grande poeta.
Entrevista a António Macedo, in «Se7e», 28/3/79
O fado de Coimbra não é de direita nem de esquerda: é um depósito de
carácter cultural. (...) Quando fui fazendo canções
que
me
afastavam do fado
de Coimbra nunca tive a atitude condenatória de dizer que o
fado de Coimbra é uma grande merda,
por
isso acabou, ponto final. Naquela altura vivia-se um intenso período de
actividade antifascista e tudo o que fosse tradicão tinha
de ser rejeitado. Foi uma atitude absolutista,
de certo modo despótica, que
foi necessário corrigir com o tempo e hoje está a ser corrigida.
Entrevista a Belino Costa, in «Se7e»,
25/11/81
0 fado de Coimbra era um folclore de elite, apesar de popularizado.
Atraia irresistivelmente os «futricas» com quem os estudantes tinham
relações simultâneas de carinho e
ressentimento. Essa atracção popular
explica
o caso de grandes
cantadeiras como a Cristina Matos Cortesão, que passou
por várias Républicas e pelas «fogueiras»
e foi uma grande
intérprete também do fado de Coimbra. Trata-se de
um
duple filão: o
do fado de Coimbra, que na
sua
fase de consolidação chega ao
esquema de duas quadras e se canta em
serenatas, e as músicas das «fogueiras», grandes manifestacões populares
onde se podia ouvir o «Real das Canas», o «Apanhar
o Trevo» e o «Vai para o Prego, Meu Violão».
Entrevista a Fernando Assis Pacheco, in «Jornal de Letras», 19/1/82
CANÇÕES
Designei as
minhas primeiras canções por baladas não porque soubesse exactamente o
significado deste termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra, que
comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação.
Achava-o muito sebentarizado, como que uma lição que se recita de cor,
pouco amplo nos termos e nos propósitos, um condimento mais na panóplia
turística coimbrã.
Entrevista a
Jose Armando Carvalho, in «Comércio do Funchal», 1/6/70
O objectivo
(de divulgar a poesia através da música) é válido se a qualidade da
música acompanhar a qualidade do poema ou não a encobrir, o que acho
difícil para quem trabalha de ouvido. Seria mais fácil e porventura mais
acertado confiar essa tarefa a uma equipa de compositores-poetas de diferentes tipos de sensibilidade já que são também diferentes as
características que distinguem por exempio um Camões dum Nicolau
Tolentino.
ldem
A canção, hoje em dia,
é
um
pouco masturbativa:
é
o processo em que sai o tiro pela culatra. As pessoas
começam a classificar as letras,
começam a dividir os textos para verem
se são ou não válidas
a às
tantas o cantor está num beco sem saída. Além disso,
as pessoas que ouvem as canções utilizam-nas um pouco como salvaguarda
das suas próprias consciências, transferem os seus problemas e
responsabilidades para o cantor, que se limita, como cantor de «music
hall», a ser um bem de consumo.
Entrevista a
Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 26/12/70
As pessoas
estão contaminadas por um gosto
que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as
preferências da maioria. Toma-se urgente reagir, contribuir para uma
higienização desse gosto.
Idem
O combate
contra a música de mercado tem de ser mais profundo a não se manifestar
apenas através de iniciativas isoladas.
Entrevista a
António Macedo, in «Se7e», 28/3/79
Não
superlativizo, aliás nunca superlativizei, a cantoria. Quando estou
entregue a mim mesmo, o que faço é ler, praticar actividades fisicas,
ensinar os meus fiihos mas gostaria de ensinar os filhos dos outros.
Praticamente nunca canto por gosto...
Entrevista a
José Carlos de Vasconcelos, in «Se7e», 22/4/80
O mundo
social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos
e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção.
Seduz-me, sim, aquilo que posso fazer
em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que
arranjo, esta «irmandade» progressista que se vai estabelecendo à
medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem
indivíduos que tem determinado tipo de preocupações...
Entrevista a
Viriato Teles, in «Mundo da Canção», Fev./Mar. de 81
Sou um homem
que, entre outras coisas, canta e que acaba por estar ligado mais a isso
do que ao resto. Tenho hábitos que derivam muito para actuações que não
estão limitadas pelo canto: dediquei-me ao desporto, gostava de fazer
animação... (...) Se, por um lado, gosto de fazer música, por outro lado
sou obrigado a fazê-la, devido a um
contrato. De modo que aquilo que tenho feito ultimamente
é um
pouco compulsivo: faço música como quem faz um par de sapatos, isto é,
tento alinhar sons e torná-los coerentes entre si, como quem faz um
utensílio.
Idem
Eu
sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão,
é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o
compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento
histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com
quem ele canta.
Canto estas canções porque não sei cantar outras. Se as canções têm ou
não interesse, isso pertence a quem escuta. Estamos num momento
mitológico da canção. Qualquer dia oraganizam-se sindicatos de cantores
e academias de baladeiros com pessoas muito sisudas, a escutar os
mestes, muito sabedoras, a espremerem uma coisa que não tem nada para
espremer.
Parto da música para o texto.(...) Semeio palavras na música. Não tenho
pretensões de dar a estas minhas deambulações pela música qualquer outro
rótulo. Faço apenas canções. A canção insere-se sempre dentro de um
processo. A sua eficácia depende do processo em que se insere. A sua
importância depende da vastidão desse processo.
Devo muito ao meu tio (tio Filomeno), com o qual não tenho pontos de
contacto ideológico, mas que me ensinou a cantar e me incutiu o gosto
pela música, a Flávio Rodrigues, Roseira Boavida, Edmundo Bettencourt e
José da Lata (cantor popular do Pico), às cantadeiras das fogueiras de
São João (Coimbra), a Cristina de Matos Cortesão (empregada doméstica de
várias repúblicas) com quem aprendi várias cantigas.
Eu fiz uma canção (Grândola) que, vendo bem, já não me pertence. Agora é
mesmo cantada em meios populares. Mas um cantante com as minhas
características tem de fazer canções elaboradas a partir de elementos
culturais que sejam da sua própria existência.
INTERVENÇÃO
Se a canção
de protesto pretende directa e concretamente atingir uma dada estrutura
político-social num dado momento histórico com referência a factos,
indivíduos e lugares, então eu não sou um cantor de protesto.
De resto, as minhas canções são predominantemente líricas. Mas elas
pretendem opor-se (quer as Iíricas quer as intencionais) a padrões de
vida, gostos e predilecções vigentes entre nós. São a minha
contrapartida, a minha «revanche». Chamemos-Ihes canções de
réplica. Reproduzem um meio, mas colaboram (ou pretendem colaborar) na
sua reconstituição. Se, neste sentido, eu próprio as não considerasse
uma forma de protesto não me sentiria justificado como cantor pela
simples razão de não me sentir justificado como homem.
Entrevista a
José Armando Carvalho, in «Comércio do Funchal», 1/6/70
Há quem pense
que a arte de determinado tipo é aquela que viva de slogans considerados
aprioristicamente possuidores de certo conteúdo político. Ora eu penso
que o tema amoroso, como qualquer outro, pode ser tratado dentro de uma
perspectiva objectivamente interessante. A arte panfletária não é necessariamente revolucionária. Há muita gente que ignora que nos
não temos arte directamente contestatária. Folheando os nossos
romanceiros, os nossos cancioneiros, não se encontram canções que ponham
em questão uma dada estrutura político-social. Nem sequer as cantigas de
escárnio e maldizer. Dentro do nosso património cultural popular existe
uma aceitação implícita das estruturas
vigentes. Quando se fala de arte popular e se pretende que um
cantor traduza de uma forma quase dialéctica, em termos
precisos, uma situação social e proponha, através da sua canção,
um plano, eu penso que se esta a pôr o carro adiante dos bois. Antes das
canções há muita coisa a fazer.
Entrevista a
Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 24/12/70
Talvez porque
tenha uma deformação de 16 anos de
ensino, dou a minha
preferência
à
intervenção
directa, prefiro levar o ouvinte a fazer a sua própria
festa
com
o imediatismo que a
canção suscita. Preferência que me afasta,
como é
lógico, de festivais
como o
da RTP.
(...) Embora não seja contrário à participação de cantores de
intervenção no Festival da RTP, julgo que, por enquanto, não temos armas
para combater os meios de que se usa a RTP pare fazer a selecção das
canções. Tudo o que saia do gostopadrão, do gosto-marketing é
marginalizado.
Entrevista a
António Macedo, in «Se7e», 28/3/79
Não confundo
canção de intervenção com panfleto partidário,
embora, em determinada altura, eu tenha incorrido nesse erro. Para que
exista canção de intervenção é preciso um certo voluntarismo dos
intervenientes e uma coordenação de esforços que pode exprimir-se
através de formas de organização como cooperativas, atentas às diversas solicitações. A canção de
intervenção implica, também, espírito de renúncia a um triunfalismo
fácil, bem como ao vedetismo; implica a noção de que estamos a fazer
música mais como serviço público do que como forma de averbar glórias.
Estamos numa fase em que a canção política apenas já é apreciada como
produto comercial, à margem de
qualquer compromisso político e ético. É uma atitude em que se está a
incorrer e que considero muito grave. Considero incorrecto que a canção
de intervenção apenas se deva reger pela qualidade. A canção politica
não se esgota num perfeccionismo que reduz a sua capacidade
mobilizadora.
Declarações a
António Duarte, in «Jornal de Letras», 25/5/82
É necessário
que não se perca um certo sentido militante que existia, por exemplo,
naquela fase em que um cantor ia aqui a ali, por vezes com poucas
condições, o que fazia com que o nosso trabalho
se espaIhasse pelos mais diversos lugares. Quando se perder
totalmente esse espírito, a nossa música deixará de se distinguir da
música que qualquer outro indivíduo faz pelo simples gozo
de estar em cima de um palco a
cantar.
Entrevista a
Viriato Teles, in «O Jornal», 27/4/84
Eu sempre
disse que a música
é
comprometida quando o músico, como cidadão,
é um
homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse
compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve como momento
histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com
quem ele canta.
Entrevista
a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85
A
música, entre aspas, "popular portuguesa" continua viva. E a prova
é
que têm saído coisas, cada músico tem qualquer coisa
de seu, não se confunde com outro. Há uma marca pessoal que
é
desejável. E digo música, entre aspas, "popular portuguesa" porque esse
conceito
é
muito polémico. Não sei se the chame música de texto,
música social, música de intenção política, música de intervenção. São
tudo conceitos muito indefinidos, mas música popular é ainda mais polémico.
Senão voltamos outra vez para a discussão sobre música popular e
musica traditional e eu não quero entrar nisso. Prefiro dizer "a música
da minha área" ou da "nossa área", abrangendo
um conjunto de colegas ou ex-colegas que sempre estiveram nestas coisas,
que sempre tiveram um percurso próprio.
Idem
CULTURA
É
importante assumir um passado cultural ainda presente
e essa
é uma orientação que
a canção de intervenção pode seguir.
Entrevista
a António Macedo, in «Se7e», 28/3/79
A realidade
é tudo:
é aquilo que existe, aquilo
que nós supomos que existe e aquilo que nós inventamos. Há mais coisas
na realidade do que muita gente pensa. E não existem temas nobres e
temas que não são nobres. Depende, em certo modo, da nossa
originalidade.
Entrevista
a Viriato Teles, in «Mundo da Canção», Fev./Mar., 81
Custa-me ver
no meu pais este massacre contracultural de que estamos a ser vítimas.
Isto a começar pelos incêndios, destruição criminosa do nosso património
artístico, destruição da nossa arquitectura rural tradicional para dar
lugar as construções a três cores dos
emigrantes... Há ainda a quebra da nossa memória histórica, que
se entende perfeitamente. Há um hiato muito grande depois da guerra
colonial. Tenho uma certa nostalgia da imagem de Portugal que me foi
dada por Raul Brandão, Camilo Castelo Branco, pelo próprio Eça de
Queiroz (que era, de certo modo, um afrancesado), pela poesia popular
portuguesa, pelos cantores de décimas, pela Rosa Ramalho, pelas festas
populares, pelas adegas que hoje estão a ser substituídas por
snack-bares, pelos cinemas de bairro que hoje estão a ser substituidos
por estúdios...
Entrevista
a Belino Costa, in «Se7e», 25/11/81.
AGITAÇÃO
Liguei-me muito
à CDE, principalmente na altura do
último Congresso de Aveiro, frequentei a emigração e tive contactos mais
ou menos fortuitos com os vários leques de esquerda,
desde o PC à
LUAR. Em 1970 fui a Cuba,
começo a sofrer um controlo policial muito grande e acabei por ser
preso. Finalmente as minhas possibilidades de cantar eram praticamente
nulas — vivia mais ou menos em casa de amigos — e acabo por me dedicar
quase exclusivamente à
agitação.
Entrevista a Viriato Teles, in «O mundo da Canção», Fev./Mar. 81.
Após o
25 de Abril julguei que a única coisa que tinha de fazer era contribuir
para o processo geral. Agora, dou por mim a contabilizar as minhas
actuações. E divido a minha actividade em duas partes: vou
lá
fora arranjar
dinheiro para o chamado pé-de-meia familiar e
cá
dentro pago a minha
dívida política e cultural para fins que considero correctos e pessoas
ou organizações para que vale a pena fazê-Io. E como muito poucas vezes
canto por gosto - prefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, às
vezes até me passa pela cabeça que gostava de mudar de personalldade,
como as personagens de Pirandello
-,
preciso de muitos estímulos para cantar, tocar e fazer
coisas novas.
Entrevista a José Carlos de Vasconcelos,
in «Se7e», 22/4/80.
Tive sempre a preocupação, aliás dificílima, de me dar com todas as
forças de esquerda, não obstante existirem pontos de total discordância
entre, por exemplo, o PC, a UDP e FVP. Não alinho nos anátemas dos que
transformam a política numa espécie de sessões de insultos mútuos. É o
caso dos PC's, que classificam os
outros de esquerdistas — mas depois apelam ao voto dos
esquerdistas, o que é perfeitamente contraditório. E é também o que se
verifica corn outras forças políticas, onde existe uma intransigência
semelhante, com chavões em barda e um triunfalismo que se pretende
incutir nas massas, como se
estivéssemos a dois passos do poder operário e popular, quando
não se criaram condições para isso.
(...) As massas têm de ingressar na actividade política através
de uma análise constante e com liberdade crítica...
Entrevista a Viriato Teles, in «Mundo da
Canção», Fev./Mar. 81
Em Portugal existe a preocupação de conotar com o que quer que seja.
Estamos todos em cima uns dos outros, vigiamo-nos mutuamente. É uma
mentalidade inquisitorial que se calhar vem lá das calendas, do D. João
II, sei lá, e que afecta até indivíduos que dizem lutar
contra ela... (...) Como todos os indivíduos que não têm um
comité central por cima de si, sou obrigado a analisar o que se passa e
a tomar atitudes em conformidade com isso.
ldem
Os meios de comunicacão progrediram, mas hoje a Europa
sabe menos, está menos informada sobre o que acontece fora dela. Só
interessam a
Polónia
e o Afeganistão. Em Paris, 125 organizações de esquerda progressistas,
vieram para a rua protestar contra a situação na Polónia.
Muito bem! Só que pelo
que se passa em Angola, no Líbano, em El Salvador ninguém protesta...
Não acredito na social-democracia europeia, na transformação de um
continente em consumidores de objectos de consumo. O modelo europeu
ocidental e, inclusivamente, o da Europa de Leste, do socialismo por
vias administrativas e com representantes vitalícios da vontade popular,
nao são coisas que me agradem. Espero que o nivel de mercantilismo
político do PSOE nao atinja o do PS português. Aqui, os políticos de direita parecem ser
mais coerentes que os dirigentes socialistas. 0 PS cumpre uma missão
histórica de traição à
causa
popular.
Entrevista a Leonardo Cáceres, in «Tiempo», 18/10/82.
REFLEXÃO
Eu sou
do tempo em que os polícias andavam pelos jardins a ver quais eram os
parzinhos enlaçados para lhes pedirem a identificação e
os
levarem para a
prisão. É importante que estes putos novos saibam que o fascismo não era só
um sistema
político, mas que era também um modo de vida que nos envenenava a todos
e que conspurcava aquilo que havia de mais caro, mais imediato e mais
sincero em todos nós... E que este tipo de "permissividade”
que, apesar de tudo, se vive hoje e a naturalidade com que hoje
se encaram coisas que eram consideradas grandes
pecados
são dados resultantes do 25 de Abril...
Entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 26/1/83
O
medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. 0 medo a que se
sobrepunha uma sensação de angústia, género «Como
é
que me vou
comportar em tal ou tal situação?». Pouco depois dos acordos do Alvor
fiz uma digressão com o Fausto, em Angola, e vivemos situações difíceis.
Também aí tive medo várias vezes. (...) Tudo começou numa conferência de
imprensa em que eu defendi o MPLA contra os outros movimentos. A partir
daí as provocações acompanharam-nos por todo o lado. Tipos da UNITA, da
PIDE, que ainda por lá andavam, da FNLA, etc. Foram uns bons cagaços.
(...) O medo é uma coisa substancial em mim.
Entrevista a José Amaro Dionísio, in «Expresso», 15/6/85
(...)
Seria incapaz de ler
alguma coisa como «O Capital», no seu conjunto. O meu
envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da
observação directa de situações que me revoltaram e que tem a ver com o
mundo do trabalho, da família, ou com noções muito gerais como a luta
anti-imperialista, o direito dos
povosà autonomia, etc.
E
algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira
como cada um se move no mundo, do que por questões de princípio ou de filosofia.
Idem
O que
é
preciso
é
criar desassossego.
Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo,
entao está tudo lixado! (...) Acho que, acima de tudo, é
preciso agitar, não ficar
parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós,
neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos
reduzidos à condição de “homenzinhos” e
“mulherzinhas”. Temos é
que ser
gente, pá!
Entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85
Continuo disponível para novas batalhas e não estou disposto a desistir.
Entrevista a
Viriato Teles, in «O Jornal», 27/4/84
Não
me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com
reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que
fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o
inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E,
por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e
os alíbis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos
campos de luta.
Toda
a perspectiva progressista é compatível com aspectos conservadores da
cultura que se pretenda conservar. O Brecht, com certeza, utilizou
tradições da Alemanha e tradições do teatro chinês. Todos os
trabalhadores da arte utilizam as tradições dos povos. Pelo contrário,
penso que é retrógado cortar abruptamente com tudo isto e entender que o
que é necessário é fazer uma sociedade à imagem e semelhança de um outro
tipo de sociedade, por exemplo, a do Texas. Por exemplo, destruir uma
data de caas para fazer uma torre(...). E no plano musical, que só a
música marketing, utilizando determinado tipo de chavões, é que dever
ser aproveitada.
Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer
determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que
renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria
ter sido diferente. É apenas uma vaga sensação que se instala, sem que
saibamos defini-la muito bem. No fundo sou muito mais contraditório e
supersticioso do que quis admitir ao longo dos anos.
...
de facto, os jovens por vezes não se destacam do sistema. Limitam-se a
constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são
eles que a têm de modificar. Se for preciso partir a loiça, escavacar
tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente,
eles que o façam. Partam mesmo a loiça. Mas são eles que o têm de fazer.
Não são os homens da minha geração. Os homens e as mulheres. Aliás, sem
as mulheres não se pode fazer nada. Pressinto que, de facto, as mulheres
vão ter um papel muito importante na futura sociedade, contanto que não
tentem imitar os homens no que eles têm de mau...
Como
é que da política se chega à música e da música à consciência? Eu acho
que as coisas podem estar ou não ligadas, depende do lado para onde
estivermos virados. Mas o que é preciso é criar desassossego. Quando
começamos a procurar alibis para justificar o nosso conformismo, então
está tudo lixado. E, quando isto acontecer comigo, eu até agradeço que
os meus amigos me chamem a atenção e me critiquem.
No campo da música continuo interessadíssimo. (...) Estou interessado
sim, pelo que por cá se faz. Acho que, acima de tudo, é preciso agitar,
não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E
nós, neste país, somos tão pouco corajosos que qualquer dia estam os
reduzidos à condição de 'homenzinhos' e 'mulherzinhas'. Temos é que ser
gente!
Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro
comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos
lutar onde exista opressão seja a que nível for.
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