eu dizia

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“Só quero ter o meu tamanho real”
Entrevista da revista “Vida Mundial”, Ano 34, nº 1749 de 1972

“Os ossos do ofício”
Entrevista na revista Cinéfilo, nº 8, 22 a 28 Novembro de 1973

“José Afonso uma posição de coerência”
Entrevista na revista Flama, nº 1370, 7 de Junho de 1974

Entrevista do programa “Ver, ouvir e contar”
RDP1 em Março de 1985

“O que é preciso é criar desassossego”
Entrevista no semanário Se7e de 27 de Novembro de 1985

“Zeca Afonso: conjugar o verbo ser”
Excertos da entrevista concedida por José Afonso ao jornalista e escritor José Amaro Dionísio em Junho de 1985.

 

| Origens

Não procuro iludir a minha origem burguesa, a minha experiência de estudante, embora tenha sido relativamente larga, devida a factores mais ou menos acidentais, como a possibilidade de estabelecer contacto com pessoas situadas fora do âmbito universitário.

Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 24/12/70

Aos sete anos em Aveiro é a escola primária. Foi violentamente traumatizante: um professor pendurava-me pelas orelhas porque eu era distraído. Depois, em Lourenco Marques, outro professor, o Manuel Joaquim «Chumbador», irritava-se comigo e agredia-me, também com o argumento de eu estar distraído.

Entrevista a Fernando Assis Pacheco, in «Jornal de Letras» 19/1/82

Não renego nada do que fiz, mas também não receio corrigir a minha imagem perante mim próprio adoptando atitudes nas quais não me sinto bem e combatem os meus alibís internos e autojustificativo.(…) Sou um pequeno burguês, fiho de um juiz do Supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na solidão deixa marcas de cuja importância só nos damos conta muito mais tarde.

Entrevista a José Amaro Dionísio, in «Expresso», 15/6/85

Até ao fim da adolescência, eu ia regularmente à missa, assistia ao Santo ofício, confessava-me. Hoje passa-se algo como um regresso às origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante, evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concepção religiosa do universo. Vi, um dia destes, «O Evangelho Segundo Sao Mateus», de Pasolini, e fiquei perturbado. E estou a ter autores como S. João da Cruz e S. Francisco de Assis. Há uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo institucional, o eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que tem tome e sede de justiça.

Idem

 

| Ensino

Gostei muito de ensinar, mas o ensino não me ofereceu a diversidade de vivências que reti­ro da minha actividade de cantor. Estou indeciso quanto ao que, efectivamente, prefiro fazer. No fundo, não me desagrada exercer, alternadamente, as duas profissões: dois anos a ensinar, um ano a cantar…

Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 24/12/70

O professorado fascinou-me, sobretudo as aulas da noite, onde conheci indivíduos, entre os meus alunos, que vieram a ser meus companheiros de luta — como o Matias, que foi um dos fundadores da LUAR, mais tarde assassinado pela PIDE, e outros.

Entrevista a Viriato Teles, in «Mundo da Cancão», Fev./Mar. 81

A minha primeira aula foi dada de capa e batina e estive para aí uns cinco dias sem dormir, a pensar como a que iria rer lata e sabedoria para enfrentar uma turma, como é que eu poderia empinar e explicar a História do Evangelho Segundo São Mattoso. E creio que nunca cheguei a resolver bem esse problema.

Entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 26/1/86

A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais.

 

| Fado de Coimbra

O Edmundo Bettencourt foi o maior cantor de fados de todos os tempos. Ele marcou uma época, foi um elemento decisivo para a melhoria do gosto coimbrão, tendo sido, acima de tudo, um grande poeta.

Entrevista a António Macedo, in «Se7e», 28/3/79

O fado de Coimbra não é de direita nem de esquerda: é um depósito de carácter cultural. (…) Quando fui fazendo canções que me afastavam do fado de Coimbra nunca tive a atitude condenatória de dizer que o fado de Coimbra é uma grande merda, por isso acabou, ponto final. Naquela altura vivia-se um intenso período de actividade antifascista e tudo o que fosse tradicão tinha de ser rejeitado. Foi uma atitude absolutista, de certo modo despótica, que foi necessário corrigir com o tempo e hoje está a ser corrigida.

Entrevista a Belino Costa, in «Se7e», 25/11/81

O fado de Coimbra era um folclore de elite, apesar de popularizado. Atraia irresistivelmente os «futricas» com quem os estudantes tinham relações simultâneas de carinho e ressentimento. Essa atracção popular explica o caso de grandes cantadeiras como a Cristina Matos Cortesão, que passou por várias Républicas e pelas «fogueiras» e foi uma grande intérprete também do fado de Coimbra. Trata-se de um duple filão: o do fado de Coimbra, que na sua fase de consolidação chega ao esquema de duas quadras e se canta em serenatas, e as músicas das «fogueiras», grandes manifestacões populares onde se podia ouvir o «Real das Canas», o «Apanhar o Trevo» e o «Vai para o Prego, Meu Violão».

Entrevista a Fernando Assis Pacheco, in «Jornal de Letras», 19/1/82

 

| Canções

Designei as minhas primeiras canções por baladas não porque soubesse exactamente o significado deste termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra, que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação. Achava-o muito sebentarizado, como que uma lição que se recita de cor, pouco amplo nos termos e nos propósitos, um condimento mais na panóplia turística coimbrã.

Entrevista a Jose Armando Carvalho, in «Comércio do Funchal», 1/6/70

O objectivo (de divulgar a poesia através da música) é válido se a qualidade da música acompanhar a qualidade do poema ou não a encobrir, o que acho difícil para quem trabalha de ouvido. Seria mais fácil e porventura mais acertado confiar essa tarefa a uma equipa de compositores-poetas de diferentes tipos de sensibilidade já que são também diferentes as características que distinguem por exempio um Camões dum Nicolau Tolentino.

ldem

A canção, hoje em dia, é um pouco masturbativa: é o processo em que sai o tiro pela culatra. As pessoas começam a classificar as letras, começam a dividir os textos para verem se são ou não válidas a às tantas o cantor está num beco sem saída. Além disso, as pessoas que ouvem as canções utilizam-nas um pouco como salvaguarda das suas próprias consciências, transferem os seus problemas e responsabilidades para o cantor, que se limita, como cantor de «music hall», a ser um bem de consumo.

Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 26/12/70

As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as preferências da maioria. Toma-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto.

Idem

O combate contra a música de mercado tem de ser mais profundo a não se manifestar apenas através de iniciativas isoladas.

Entrevista a António Macedo, in «Se7e», 28/3/79

Não superlativizo, aliás nunca superlativizei, a cantoria. Quando estou entregue a mim mesmo, o que faço é ler, praticar actividades fisicas, ensinar os meus fiihos mas gostaria de ensinar os filhos dos outros. Praticamente nunca canto por gosto…

Entrevista a José Carlos de Vasconcelos, in «Se7e», 22/4/80

O mundo social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção. Seduz-me, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta «irmandade» progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que tem determinado tipo de preocupações…

Entrevista a Viriato Teles, in «Mundo da Canção», Fev./Mar. de 81

Sou um homem que, entre outras coisas, canta e que acaba por estar ligado mais a isso do que ao resto. Tenho hábitos que derivam muito para actuações que não estão limitadas pelo canto: dediquei-me ao desporto, gostava de fazer animação… (…) Se, por um lado, gosto de fazer música, por outro lado sou obrigado a fazê-la, devido a um contrato. De modo que aquilo que tenho feito ultimamente é um pouco compulsivo: faço música como quem faz um par de sapatos, isto é, tento alinhar sons e torná-los coerentes entre si, como quem faz um utensílio.

Idem

Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta.

Canto estas canções porque não sei cantar outras. Se as canções têm ou não interesse, isso pertence a quem escuta. Estamos num momento mitológico da canção. Qualquer dia oraganizam-se sindicatos de cantores e academias de baladeiros com pessoas muito sisudas, a escutar os mestes, muito sabedoras, a espremerem uma coisa que não tem nada para espremer.

Parto da música para o texto.(…) Semeio palavras na música. Não tenho pretensões de dar a estas minhas deambulações pela música qualquer outro rótulo. Faço apenas canções. A canção insere-se sempre dentro de um processo. A sua eficácia depende do processo em que se insere. A sua importância depende da vastidão desse processo.

Devo muito ao meu tio (tio Filomeno), com o qual não tenho pontos de contacto ideológico, mas que me ensinou a cantar e me incutiu o gosto pela música, a Flávio Rodrigues, Roseira Boavida, Edmundo Bettencourt e José da Lata (cantor popular do Pico), às cantadeiras das fogueiras de São João (Coimbra), a Cristina de Matos Cortesão (empregada doméstica de várias repúblicas) com quem aprendi várias cantigas.

Eu fiz uma canção (Grândola) que, vendo bem, já não me pertence. Agora é mesmo cantada em meios populares. Mas um cantante com as minhas características tem de fazer canções elaboradas a partir de elementos culturais que sejam da sua própria existência.

 

| Intervenção

Se a canção de protesto pretende directa e concretamente atingir uma dada estrutura polí­tico-social num dado momento histórico com referência a factos, indivíduos e lugares, então eu não sou um cantor de protesto. De resto, as minhas canções são predominantemente líricas. Mas elas pretendem opor-se (quer as Iíricas quer as intencionais) a padrões de vida, gostos e predilecções vigentes entre nós. São a minha contra­partida, a minha «revanche». Chamemos-Ihes canções de réplica. Reproduzem um meio, mas colaboram (ou pretendem colaborar) na sua reconstituição. Se, neste sentido, eu próprio as não considerasse uma forma de protesto não me sentiria justificado como cantor pela simples razão de não me sentir justificado como homem.

Entrevista a José Armando Carvalho, in «Comércio do Funchal», 1/6/70

Há quem pense que a arte de determinado tipo é aquela que viva de slogans considerados aprioristicamente possuidores de certo conteúdo político. Ora eu penso que o tema amoroso, como qualquer outro, pode ser tratado dentro de uma perspectiva objectivamente interessan­te. A arte panfletária não é necessariamente revolucionária. Há muita gente que ignora que nos não temos arte directamente contestatária. Folheando os nossos romanceiros, os nossos cancioneiros, não se encontram canções que ponham em questão uma dada estrutura político-social. Nem sequer as cantigas de escárnio e maldizer. Dentro do nosso património cultural popular existe uma aceitação implícita das estruturas vigentes. Quando se fala de arte popular e se pretende que um cantor traduza de uma forma quase dialéctica, em termos precisos, uma situação social e proponha, através da sua canção, um plano, eu penso que se esta a pôr o carro adiante dos bois. Antes das canções há muita coisa a fazer.

Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 24/12/70

Talvez porque tenha uma deformação de 16 anos de ensino, dou a minha preferência à inter­venção directa, prefiro levar o ouvinte a fazer a sua própria festa com o imediatismo que a canção suscita. Preferência que me afasta, como é lógico, de festivais como o da RTP.
(…) Embora não seja contrário à participação de cantores de intervenção no Festival da RTP, julgo que, por enquanto, não temos armas para combater os meios de que se usa a RTP pare fazer a selecção das canções. Tudo o que saia do gosto­padrão, do gosto-marketing é marginalizado.

Entrevista a António Macedo, in «Se7e», 28/3/79

Não confundo canção de intervenção com panfleto partidário, embora, em determinada altura, eu tenha incorrido nesse erro. Para que exista canção de intervenção é preciso um certo voluntarismo dos intervenientes e uma coordenação de esforços que pode exprimir-se através de formas de organização como cooperativas, atentas às diversas solicitações. A canção de intervenção implica, também, espírito de renúncia a um triunfalismo fácil, bem co­mo ao vedetismo; implica a noção de que estamos a fazer música mais como serviço público do que como forma de averbar glórias. Estamos numa fase em que a canção política apenas já é apreciada como produto comercial, à margem de qualquer compromisso político e ético. É uma atitude em que se está a incorrer e que considero muito grave. Considero incorrecto que a canção de intervenção apenas se deva reger pela qualidade. A canção politica não se esgota num perfeccionismo que reduz a sua capacidade mobilizadora.

Declarações a António Duarte, in «Jornal de Letras», 25/5/82

É necessário que não se perca um certo sentido militante que existia, por exemplo, naquela fase em que um cantor ia aqui a ali, por vezes com poucas condições, o que fazia com que o nosso trabalho se espaIhasse pelos mais diversos lugares. Quando se perder totalmente esse espírito, a nossa música deixará de se distinguir da música que qualquer outro indivíduo faz pelo simples gozo de estar em cima de um palco a cantar.

Entrevista a Viriato Teles, in «O Jornal», 27/4/84

Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve como momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta.
Entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85
A música, entre aspas, “popular portuguesa” continua viva. E a prova é que têm saído coisas, cada músico tem qualquer coisa de seu, não se confunde com outro. Há uma marca pessoal que é desejável. E digo música, entre aspas, “popular portuguesa” porque esse conceito é muito polémico. Não sei se the chame música de texto, música social, música de intenção política, música de intervenção. São tudo conceitos muito indefinidos, mas música popular é ainda mais polémico. Senão voltamos outra vez para a discussão sobre música popular e musica traditional e eu não quero entrar nisso. Prefiro dizer “a música da minha área” ou da “nossa área”, abrangendo um conjunto de colegas ou ex-colegas que sempre estiveram nestas coisas, que sempre tiveram um percurso próprio.

Idem

 

| Cultura

É importante assumir um passado cultural ainda presente e essa é uma orientação que a canção de intervenção pode seguir.

Entrevista a António Macedo, in «Se7e», 28/3/79

A realidade é tudo: é aquilo que existe, aquilo que nós supomos que existe e aquilo que nós inventamos. Há mais coisas na realidade do que muita gente pensa. E não existem temas nobres e temas que não são nobres. Depende, em certo modo, da nossa originalidade.

Entrevista a Viriato Teles, in «Mundo da Canção», Fev./Mar., 81

Custa-me ver no meu pais este massacre contracultural de que estamos a ser vítimas. Isto a começar pelos incêndios, destruição criminosa do nosso património artístico, destruição da nossa arquitectura rural tradicional para dar lugar as construções a três cores dos emigrantes… Há ainda a quebra da nossa memória histórica, que se entende perfeitamente. Há um hiato muito grande depois da guerra colonial. Tenho uma certa nostalgia da imagem de Portugal que me foi dada por Raul Brandão, Camilo Castelo Branco, pelo próprio Eça de Queiroz (que era, de certo modo, um afrancesado), pela poesia popular portuguesa, pelos cantores de décimas, pela Rosa Ramalho, pelas festas populares, pelas adegas que hoje estão a ser substituídas por snack-bares, pelos cinemas de bairro que hoje estão a ser substituidos por estúdios…

Entrevista a Belino Costa, in «Se7e», 25/11/81.

 

| Agitação

Liguei-me muito à CDE, principalmente na altura do último Congresso de Aveiro, frequentei a emigração e tive contactos mais ou menos fortuitos com os vários leques de esquerda, desde o PC à LUAR. Em 1970 fui a Cuba, começo a sofrer um controlo policial muito grande e acabei por ser preso. Finalmente as minhas possibilidades de cantar eram praticamente nulas — vivia mais ou menos em casa de amigos — e acabo por me dedicar quase exclusivamente à agitação.

Entrevista a Viriato Teles, in «O mundo da Canção», Fev./Mar. 81.

Após o 25 de Abril julguei que a única coisa que tinha de fazer era contribuir para o processo geral. Agora, dou por mim a contabilizar as minhas actuações. E divido a minha actividade em duas partes: vou lá fora arranjar dinheiro para o chamado pé-de-meia familiar e cá dentro pago a minha dívida política e cultural para fins que considero correctos e pessoas ou organizações para que vale a pena fazê-Io. E como muito poucas vezes canto por gosto – prefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, às vezes até me passa pela cabeça que gos­tava de mudar de personalldade, como as personagens de Pirandello -, preciso de muitos estímulos para cantar, tocar e fazer coisas novas.

Entrevista a José Carlos de Vasconcelos, in «Se7e», 22/4/80.

Tive sempre a preocupação, aliás dificílima, de me dar com todas as forças de esquerda, não obstante existirem pontos de total discordância entre, por exemplo, o PC, a UDP e FVP. Não alinho nos anátemas dos que transformam a política numa espécie de sessões de insultos mútuos. É o caso dos PC’s, que classificam os outros de esquerdistas — mas depois apelam ao voto dos esquerdistas, o que é perfeitamente contraditório. E é também o que se verifica corn outras forças políticas, onde existe uma intransigência semelhante, com chavões em barda e um triunfalismo que se pretende incutir nas massas, como se estivéssemos a dois passos do poder operário e popular, quando não se criaram condições para isso. (…) As massas têm de ingressar na actividade política através de uma análise constante e com liberdade crítica…

Entrevista a Viriato Teles, in «Mundo da Canção», Fev./Mar. 81

Em Portugal existe a preocupação de conotar com o que quer que seja. Estamos todos em cima uns dos outros, vigiamo-nos mutuamente. É uma mentalidade inquisitorial que se calhar vem lá das calendas, do D. João II, sei lá, e que afecta até indivíduos que dizem lutar contra ela… (…) Como todos os indivíduos que não têm um comité central por cima de si, sou obrigado a analisar o que se passa e a tomar atitudes em conformidade com isso.

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Os meios de comunicacão progrediram, mas hoje a Europa sabe menos, está menos informada sobre o que acontece fora dela. Só interessam a Polónia e o Afeganistão. Em Paris, 125 organizações de esquerda progressistas, vieram para a rua protestar contra a situação na Polónia. Muito bem! Só que pelo que se passa em Angola, no Líbano, em El Salvador ninguém protesta… Não acredito na social-democracia europeia, na transformação de um continente em consumidores de objectos de consumo. O modelo europeu ocidental e, inclusivamente, o da Europa de Leste, do socialismo por vias administrativas e com representantes vitalícios da vontade popular, nao são coisas que me agradem. Espero que o nivel de mercantilismo político do PSOE nao atinja o do PS português. Aqui, os políticos de direita parecem ser mais coerentes que os dirigentes socialistas. 0 PS cumpre uma missão histórica de traição à causa popular.

Entrevista a Leonardo Cáceres, in «Tiempo», 18/10/82.

 

| Reflexão

Eu sou do tempo em que os polícias andavam pelos jardins a ver quais eram os parzinhos enlaçados para lhes pedirem a identificação e os levarem para a prisão. É importante que estes putos novos saibam que o fascismo não era só um sistema político, mas que era tam­bém um modo de vida que nos envenenava a todos e que conspurcava aquilo que havia de mais caro, mais imediato e mais sincero em todos nós… E que este tipo de “permissividade” que, apesar de tudo, se vive hoje e a naturalidade com que hoje se encaram coisas que eram consideradas grandes pecados são dados resultantes do 25 de Abril…

Entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 26/1/83

O medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. 0 medo a que se sobrepunha uma sensação de angústia, género «Como é que me vou comportar em tal ou tal situação?». Pouco depois dos acordos do Alvor fiz uma digressão com o Fausto, em Angola, e vivemos situações difíceis. Também aí tive medo várias vezes. (…) Tudo começou numa conferência de imprensa em que eu defendi o MPLA contra os outros movimentos. A partir daí as provoca­ções acompanharam-nos por todo o lado. Tipos da UNITA, da PIDE, que ainda por lá anda­vam, da FNLA, etc. Foram uns bons cagaços. (…) O medo é uma coisa substancial em mim.

Entrevista a José Amaro Dionísio, in «Expresso», 15/6/85

(…) Seria incapaz de ler alguma coisa como «O Capital», no seu conjunto. O meu envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da observação directa de situações que me revoltaram e que tem a ver com o mundo do trabalho, da família, ou com noções muito gerais como a luta anti-imperialista, o direito dos povosà autonomia, etc. E algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo, do que por questões de princípio ou de filosofia.

Idem

O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, entao está tudo lixado! (…) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!

Entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85

Continuo disponível para novas batalhas e não estou disposto a desistir.

Entrevista a Viriato Teles, in «O Jornal», 27/4/84

Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alíbis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta.

Toda a perspectiva progressista é compatível com aspectos conservadores da cultura que se pretenda conservar. O Brecht, com certeza, utilizou tradições da Alemanha e tradições do teatro chinês. Todos os trabalhadores da arte utilizam as tradições dos povos. Pelo contrário, penso que é retrógado cortar abruptamente com tudo isto e entender que o que é necessário é fazer uma sociedade à imagem e semelhança de um outro tipo de sociedade, por exemplo, a do Texas. Por exemplo, destruir uma data de caas para fazer uma torre(…). E no plano musical, que só a música marketing, utilizando determinado tipo de chavões, é que dever ser aproveitada.

Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria ter sido diferente. É apenas uma vaga sensação que se instala, sem que saibamos defini-la muito bem. No fundo sou muito mais contraditório e supersticioso do que quis admitir ao longo dos anos.

… de facto, os jovens por vezes não se destacam do sistema. Limitam-se a constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são eles que a têm de modificar. Se for preciso partir a loiça, escavacar tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente, eles que o façam. Partam mesmo a loiça. Mas são eles que o têm de fazer. Não são os homens da minha geração. Os homens e as mulheres. Aliás, sem as mulheres não se pode fazer nada. Pressinto que, de facto, as mulheres vão ter um papel muito importante na futura sociedade, contanto que não tentem imitar os homens no que eles têm de mau…

Como é que da política se chega à música e da música à consciência? Eu acho que as coisas podem estar ou não ligadas, depende do lado para onde estivermos virados. Mas o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar alibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado. E, quando isto acontecer comigo, eu até agradeço que os meus amigos me chamem a atenção e me critiquem.
No campo da música continuo interessadíssimo. (…) Estou interessado sim, pelo que por cá se faz. Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que qualquer dia estam os reduzidos à condição de ‘homenzinhos’ e ‘mulherzinhas’. Temos é que ser gente!

Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão seja a que nível for.

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