Entrevista de José Duarte a Jacinta sobre "Convexo"

JD/ Qual de seus 3 cds gravados e no mercado lhe agrada mais e porquê?

J/ O Convexo. É o som mais quente e perto do dos instrumentos e voz reais. O disco ouve-se de um só fôlego. As canções do Zeca estão alinhadas como se fosse num concerto e o crescendo natural musical dá-se, facilitando a audição

JD/ Como se explica um cd para blues, seguido de outro com o team de Greg Osby e o terceiro com canções de José Afonso?

J/ Eu diria que a cantora e a alma são as mesmas. Com abordagens e materiais bem distintos, têm os três discos um cunho bem forte que é o do jazz de mainstream, com abordagem instrumental «romântica».

JD/ O terceiro chama-se ‘Convexo’. Porquê convexo?

J/ O título é inspirado numa das minhas canções favoritas do Zeca: tenho um primo convexo. Convexo porque é ‘para fora’ da norma, é fora da tradição popular portuguesa que marca a obra do Zeca, é para fora daquilo que normalmente se ouve quando se faz a música do Zeca Afonso, daí ser um disco ‘Convexo’…

JD/ Fale-nos do músicos portugueses que a acompanham em ‘Convexo’? Porquê eles?

J/ Primeiro porque são portugueses e, tal como se passa comigo, a música do Zeca faz parte da sua formação musical e da sua cultura; segundo porque desta vez quis ter uma equipa sólida que me apoiasse e ajudasse ao longo de todo o processo de construção e montagem deste repertório. O Rui Caetano, pianista, fez comigo os arranjos, e o Bruno Pedroso, baterista, juntou-se mais tarde a nós. O Bruno é extremamente criativo, toca bateria como ninguém, e, por vezes, com um estilo ‘melódico’. É um músico e intérprete quase perfeito: um tempo excelente, com um balanço e swing brutais, com grande capacidade de diálogo com os outros instrumentos e um vocabulário extenso, mas sobretudo com um bom gosto que gere todo o seu comping e discurso musicais, não deixando nunca o virtuosismo sobrepor-se à musicalidade e à alma na execução. Quando fizemos os arranjos foi já a pensar nessa sua maneira cheia de tocar e o que isso traria aos próprios arranjos. O Rui é um pianista que tem evoluído imensamente nos últimos 2 anos. Tem uma noção rítmica e de tempo excelentes e a sua arte de acompanhamento de cantor está num nível invejável para qualquer pianista ou guitarrista português. Tem por vezes um estilo cool, sem medo dos espaços ou silêncios na música que se coaduna na perfeição com o estilo intenso e cheio do Bruno. No Rui encontrei também um par excelente na composição dos arranjos. A sua capacidade de transformar ideias em acordes, e conceitos em música, resultaram num processo fácil e rápido na construção deste disco.

JD/ Como encara as más críticas que seu cd ‘Convexo’ tem recebido ? E as boas ?

J/ Curiosamente ainda não li nenhuma crítica dos nossos chamados ‘críticos de jazz’ a este cd. Têm saído muitas opiniões de jornalistas, e de outros, em blogs e sites, além da imprensa escrita. No geral as opiniões são óptimas. Estava à espera de estados de choque e de ser apelidada de ‘herege’ ao mexer desta forma na música deste nosso grande ícone da canção portuguesa. Mas a própria filha do Zeca me disse que o pai adorava jazz, ìa a todos os festivais de jazz da sua época, e que ficaria muito orgulhoso se ouvisse as minhas versões jazzísticas da sua música.

Em relação aos nossos ‘opinionistas’ de jazz, às vezes dá-me a impressão que somos mais papistas que o papa e que estamos cristalizados num determinado tipo de jazz, incapazes de nos abrirmos à evolução deste estilo de música nascido na América – a sua génese vem das misturas da música europeia com a música africana dos escravos recém chegados ao novo mundo. Será de esperar que a sua evolução natural continue a comportar misturas. O balanço e/ou o swing da interpretação vocal e instrumental são determinantes na definição do jazz, e encontramos essa característica marcadamente neste disco, tal como uma abordagem estilística tão própria dos instrumentos e da voz que respira a palavra jazz, ainda que num contexto que não é o da sua tradição americana.

JD/ O panorama do jazz cantado em Portugal. Que acha dele ? Faltam homens…

J/ Falta de tudo! Cantores, pianistas, contrabaixistas, bateristas, faltam muitos a tocar muito bem, para que a música comece a diversificar-se e a crescer em quantidade e qualidade. Havendo muitos músicos e muitos cantores, profissionais exigentes e a tocarem muito e bem, o mercado cresce, alarga-se, torna-se mais fácil para todos tocarmos mais e melhor.

JD/ Gravar para a etiqueta norte-americana ‘Blue Note’ foi experiência boa ?

J/Foi óptimo começar por cima. Senti muitas portas abrirem-se com facilidade. Paralelamente a isso há a responsabilidade e uma carrada de nervos acrescida que se tornam por vezes pesadas a uma cantora que quer crescer e evoluir livremente, sem ter que cristalizar já num determinado estilo.

JD/ Como decorreu o lançamento de ‘Convex0′ ?

J/ O pré lançamento do disco foi na Festa do Avante com um público inacreditável: no palco 1º de Maio com cerca de 3000 pessoas aos gritos pelo meu nome, a cantarem todas as canções, extasiadas e também a absorverem em silêncio as nossas versões dos temas mais intimistas. O disco bateu o record de vendas de todo o sempre da Festa, e estive 2 horas a assinar exemplares. Depois tivemos o lançamento exclusivo para a imprensa no café do Maria Matos, ao qual compareceram cerca de 75 pessoas, entre jornalistas, fotógrafos e câmaras, e o lançamento público oficial foi no Speakeasy, onde tivemos casa cheia e muito acolhedora.

JD/ jazzportug@l gosta muito das modificações das melodias que imprime em ‘Convexo. É uma atitude criativa própria da linguagem jazz. Sua opinião.

J/ Esse ‘elástico’ permanente que se sente na linha melódica vocal é sem dúvida um identificativo jazzístico. Dá-me um gozo tremendo cantar com esse ‘drive’ ou linha contínua sem paragens, como que ‘contra’ o tempo ou sempre jogando com a secção rítmica. Curiosamente um baixista de jazz também assim toca, levando a banda toda a bom porto, e um baterista com um groove bem cerrado tem o mesmo tipo de abordagem: Groove ‘agarrado’, cerrado, que faz com que o swing aconteça.

JD/ No jazz quais as vozes femininas ou masculinas que mais a influenciam ?

J/ As quatro grandes divas do jazz – Vaughan, Fitzgerald, Holiday, Carter, foram imprescindíveis na minha aprendizagem do estilo interpretativo e da técnica vocal jazzísticas. Curiosamente a nível de evolução musical os intrumentistas têm sido uma influência muito mais marcante na minha aprendizagem. Aqui destaco os irmãos Marsalis e Chick Corea, e muito do jazz moderno da corrente mainstream que se vai fazendo – normalmente músicos americanos negros, de origem ou influência de New Orleans.

JD/ Quais as dificuldades e alegrias porque passam mulheres e homens do jazz em Portugal ?

J/ As dificuldades são próprias de um país cuja tradição não é a do jazz – a aceitação e o mercado não são fáceis nem alargados. As alegrias são as de encontrar audiências esplêndidas, sedentas de música de qualidade, seja ela qual for, ou audiências peritas em jazz, capazes de fazer quilómetros para o irem ‘ouver’, precisamente por ser um estilo de música ainda pouco divulgado no nosso país.

JD/ Sua próxima iniciativa em cd cobrirá jazz, música portuguesa ou outra música qualquer ?

J/ Qualquer que seja o repertório ou instrumentos ou abordagens escolhidos, vai ser com certeza Jazz!!! Há quem diga que o jazz não é o que se canta mas como se canta…

JD/ Não vai cantar com frequência a clubes de jazz portugueses! A que se deve ?

J/ À ausência de clubes de jazz em Portugal. Não existe propriamente circuito de clubes de jazz em Portugal. Se calhar ainda não há público para podermos fazer temporadas de 10 noites seguidas num clube de jazz, e depois ir para o clube da cidade seguinte e ficar mais 10 noites sempre com casa cheia… A experiencia que tive no jardim de Inverno do S. Luiz foi a que mais se aproximou deste cenário de clube. Foi muito gratificante a nível pessoal e a nível de crescimento musical e de banda – luxo a que nós músicos portugueses não temos acesso muitas vezes: tocar exactamente com a mesma banda, os mesmos músicos, o mesmo repertório, várias noites seguidas, permite uma coesão sonora inigualável, e um entendimento mais profundo entre os músicos no momento da improvisação, diálogo e criação musicais.

JD/ Qual é a opinião que tem de si como cantora de várias tipos de música ?

J/ Eu diria que a minha procura incessante e o meu crescimento dão-se cada vez mais na direcção do jazz em termos de interpretação estilística. A técnica vocal é imprescindível e o conhecimento harmónico profundo de um tema é necessário para que no momento da criação sonora, as ideias musicais surjam sem dificuldade e de um plano automático, sem interferirem com a emoção e entrega do momento.

JD/ Apoiaria seus filhos se eles quisessem praticar jazz na vida deles ?

J/ Claro! O piano seria obrigatório como complemento de qualquer instrumento escolhido pois é um elemento facilitador do domínio harmónico, imprescindível para qualquer improvisador de jazz. A satisfação que sinto a fazer música em contexto jazz é enorme e gostaria que meus filhos, ou qualquer pessoa, a pudesse experimentar.

some_text

Deixe um comentário

Zeca (2)

QUEM SOMOS


disco

SER SÓCIO


LOJA


escritasdomaio

ESCOLAS


materiais

EXPOSIÇÕES

SUBSCREVER NOTÍCIAS


Categorias

Arquivo



RÁDIO AJA

Here is the Music Player. You need to installl flash player to show this cool thing!


© 2020 AJA. All Rights Reserved. Iniciar sessão - Designed by Gabfire Themes