Foram-se os
bandos dos chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
A decisão
do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Soa o
clarim soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vêm as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
Se o
criminoso se escondeu
Nada de novo acoteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei
02 - O
Homem Voltou
(José Afonso)
O homem
voltou ao solar do amigo
O homem queimou um cigarro na testa
O homem voltou calculando o destino
Andou mais um passo e não viu
Matava ele o tempo numa outra azinhaga
E a voz era fraca ninguém o ouvia
A larva estendia e o sol abrasava
A marcha do tempo parou
Havia uma vala na rua comprida
E a porta travava ninguém o espera
O homem cavava uma cova na vida
Ali nem o céu se calou
Trazia uma ruga na cara comprida
Não vinha pra nada não vinha por nada?
E a rua era larga e a rua era fria
Andou mais um passo e tombou
Havia uma hora que havia uma vida
Que o homem andava que o homem corria
E a porta travava e um tiro partia
A marcha do tempo parou
O homem voltou ao solar do amigo
E a casa era escura e a porta batia
O homem queimou um cigarro na testa
Andou mais um passo e tombou
Na volta era a noite
Chupava-se a vida
Que há tempo e medida
Chupava-se a vida
O homem precisa é dum'outra cantiga
Agora que o frio voltou
03 - Ailé!
Ailé!
(José Afonso)
Mata a
bicha
Que está bem cheia
Morde-lhe a perna
Fina
Corta a língua
Fura a traqueia
Que ela estrebucha
Ainda
Tanto cavas
A cova funda
Que há-de acabar
A bicha
Põe-lhe a terra
Sobre a corcunda
R'ra não se ver
A crista
04 - Não
Seremos Pais Incógnitos
(José Afonso)
Não
seremos pais incógnitos
Netos de filhos ignaros
Mas nestes livros avaros
Só moralizam os tolos
Quem tem farelos tem quintas
Diz o bom rei ao soldado
No tempo em que o rei Fernando
Passava por ser honrado
No tempo em que Dona Márcia
Filha de Mércia Condessa
Cantava Chácaras do tempo
Em que era madre abadessa
Também depunha o meirinho
Filho de D. Charlatão
Há que vidas os não via
Mas sei de que filhos são
05 - O
Que Faz Falta
(José Afonso)
Quando a
corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta
Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta
06 - Lá
no Xepangara
(José Afonso)
Lá no
Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino
Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mãe
Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano
Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se não cair morto
Chama-se menino
Se tiver
umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha
Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia
Quando for mufana
E já pedir pão
Dá-se uma lambada
Vem comer à mão
Mais uma patada
Vai-te embora cão
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandrião
Lá prò
fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso
Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato
Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato
Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante
07 - Eu Marchava de Dia e de Noite
(Letra de B.
Brecht/adap. José Afonso/
Versão de Luís Francisco Rebello/
Música de José Afonso)
Eu marchava
de dia e de noite
Mais do que um dia de avaço ganhei
Só o forte tem sorte
Para o fraco é o chicote
Mais que um dia de avanço ganhei
Mais que um dia de avanço ganhei
Só o forte
resiste ao combate
Sabia que o coolie que não há outra lei
Ó petróleo da terra
Hei-de ter-te na terra
Só a morte é que sabe o que eu sei
Só a morte é que sabe o que eu sei
O homem
conquista a vitória
Sobre o deserto e rio também
É ele que se vence e domina e alcança
O petróleo que a todos convém
O petróleo que a todos convém
A morte é
para o fraco e o combate
É para o forte - foi Deus que mandou
Ao rico uma ajuda e ao pobre uma surra
Foi assim que o plantea girou
Foi assim que o plantea girou
Quem cai
já não torna a cair
Deixa-o ficar porque assim está bem
À mesa da fama assentou-se quem mama
É assim porque à gente convém
É assim porque à gente convém
Só os
mortos não comem à mesa
E o cozinheiro não se incomodou
E quem fez o patrão também fez o criado
Foi assim que o planeta girou
Foi assim que o planeta girou
Quando tudo
te corre a prazer
Vêm amigos estender-te a mão
Mas se Deus ou o Diabo
Viram tudo ao contrário
Ninguém vem levantar-te do chão
Ninguém vem levantar-te do chão
08 - Tenho
um Primo Convexo
(José Afonso)
Tenho um
primo convexo
Fadado para amnistias
Em torno de ele nadam
Plantas carnívoras
Agitando como plumas
As cordas violáceas
O meu primo dormita
Glu glu entre palmeiras
Suspenso numa rede
De suor e preguiça
Corvos bicam-lhe os pés
Trincam-lhe os calos
Enquanto a tarde jaz
E a mão suspende
O gesto de acordá-lo
E a terra treme
Mas de nada o meu primo se apercebe
09 - Só
Ouve o Brado da Terra
(José Afonso)
Só ouve o
brado da terra
Quem dentro dela
Veio a nascer
Agora é que pinta o bago
Agora é qu'isto vai aquecer
Cala-te ó clarim da morte
Que a tua sorte
Não hei-de eu querer
Mal haja a noite assassina
E quem domina
Sem nos vencer
Cobrem-se os campos de gelo
Já não se ouve
O galo cantor
Andam os lobos à solta
Pega no teu
Cajado, pastor
Homem de costas vergadas
De unhas cravadas
Na pele a arder
É minha a tua canseira
Mas há quem queira
Ver-te sofrer
Anda ver o Deus banqueiro
Que engana à hora e que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de dois ou três
10 - A
Presença das Formigas
(José Afonso)
A presença
das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida
11 - Coro dos Tribunais (Final)
(B. Brecht/adap.
José Afonso)