01 - Traz Outro Amigo Também
(José Afonso)

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

02 - Maria Faia
(Moda da Azeitona - Popular/ Malpica, Beira-baixa)

Eu não sei como te chamas
ó Maria Faia
nem que nome te hei-de eu pôr
ó Maria Faia, ó Faia Maria

Cravo não que tu és rosa
ó Maria Faia
Rosa não que tu és flor
ó Maria Faia ó Faia Maria

Não te quero chamar cravo
ó Maria Faia
Que te estou a engrandecer
ó Maria Faia ó Faia Maria

Chamo-te antes espelho
ó Maria Faia
Onde espero de me ver
ó Maria Faia ó Faia Maria

O meu amor abalou
ó Maria Faia
Deu-me uma linda despedida
ó Maria Faia ó Faia Maria

Abarcou-me a mão direita
ó Maria Faia
Adeus ó prenda querida
ó Maria Faia ó Faia Maria

03 - Canto Moço
(José Afonso)

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não sabemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara 

Lá no cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama 
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá no cimo de uma montanha  

Onde o vento cortou amarras 
Largaremos p´la noite fora 
Onde há sempre uma boa estrela 
Noite e dia ao romper da aurora 
Vira a proa minha galera 
Que a vitória já não espera 
Fresca brisa moira encantada 
Vira a proa da minha barca

04 - Epígrafe para a Arte de Furtar 
(Jorge de Sena/José Afonso)

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam
Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a patria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Roubam-me a voz
Quando me calo
Ou o silêncio
Mesmo se falo

Aqui d’el rei
Aqui d’el rei

05 - Moda do Entrudo
(Popular Malpica, Beira-baixa)

Ó entrudo Ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
as mocinhas ao solheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é qu'eu estou bem
Que no monte é qu'eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é qu'eu estou bem

Estas casa são caiadas
Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira

06 - Os Eunucos (No Reino da Etiópia)
(José Afonso)

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os país

Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos harens os principais
E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais

07 - Avenida de Angola
(José Afonso)

Dum botão de branco punho
Dum braço de fora preto
Vou pedir contas ao mundo
Além naquele coreto

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

Na sala há cinco meninas
E um botão de sardinheira
Feitas de fruta madura
Nos braços duma rameira

Lá vai uma lá vão duas...

O Sol é quem faz a cura
Com alfinete de dama
Na sala há cinco meninas
Feitas duma capulana

Lá vai uma lá vão duas...

Quando a noite se avizinha
Do outro lado da rua
Vem Ana, vem Serafina
Vem Mariana, a mais pura

Lá vai uma lá vão duas...

Há sempre um botão de punho
Num braço de fora preto
Vou pedir contas ao mundo
Além naquele coreto

Lá vai uma lá vão duas...

Ó noite das columbinas
Leva-as na tua algibeira
Na sala há cinco meninas
Feitas da mesma maneira

Lá vai uma lá vão duas...

08 - Canção do Desterro (Emigrantes)
(José Afonso)

Vieram cedo
Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar

Na barcarola
Canta a Marujada
- O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O sete-estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair

À beira de àgua
Me criei um dia
- Remos e velas
Lá deixei a arder
Ao sol e ao vento
Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer

09 - Verdes São os Campos
(Luís de Camões/José Afonso)

Verdes são os campos,
De cor de limão    
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração

10 - Carta a Miguel Djéje
(José Afonso)

Diga amigo Miguel
Como está você?
Em todo o Xipamanine
Já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola     
Para tocar outra vez 

O seu valor um dia
Você mostrou
Todo o mainato o ouvia
E até dançou
Miguel só você sabia
Tocar como já tocou

Vinha maningue gente
Para aprender
Moda lá da sua terra
Bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volt'haver

Quando a noite se ouvia
Miguel tocar
Também havia a marimba
Para acompanhar
A noite
Na Ponta Geia
Amigos hei-de recordar

O barco foi andando
E a Nanga vi
Foi a saudade aumentando
Longe daí
A gente
Na minha terra
Não canta assim
Como eu ouvi

11 - Cantiga do Monte
(José Afonso)

Fragância morena
Portal de marfim
Ondina açucena
Chamando por mim

Cantiga do monte
Clareira do ar
Dançando na nuvem
Mudando em mar

Na flor da montanha
Na espuma a cair
Nos frutos de Agosto
Na boca a sorrir

Na crista da vaga
Tormento alonguei
No vento e na fraga
Só luto encontrei

Abriram-se as velas
Mal rompe a manhã
Na luz e nas trevas
Foi-se a louçã

Ai húmida prata
Meu sonho sem ver
Ai noite de Lua
Meu lume de arder

Ó finas areias
Ó clara manhã
Ó rubras papoilas
Da cor da romã

Ó rosto da terra
E abismos do mar
Ouvide o seu canto
De longe a arfar

Abriram-se as velas
Mal rompe a manhã
Na luz e nas trevas
Lá vai a louçã