01 - Papuça
(José Afonso)
Olha enfia
a carapuça
mas não compres o velho fato de ananás
o estilo não se empresta e nada tem sentido
a tua falta, meu papuça
Se podes tu não podes
Tanto faz
Experimenta sair
um pouco está bom tempo
na Arrábida para os ninhos
meu rapaz
Amanhã é feriado
em Paio Pires aguça
o teu ouvido rouco-mouco
em aguarrás
A multidão na rua
É Zé!
ouve-se a banda tocando
o M. F. A.
Vai o Borges o Pina o Xaimite e a Bibas
balouçando
A revolução é pra já
A bota
trocada
o canta na varanda
De rota batida
para Luanda
Só menos um furo
no cinto apertado
É já Primavera
Amar não é pecado
na fímbria da saia
a lagartixa verde
E um dia alegre
À nossa espera, bebe
Estamos na seca
a paz é pouca
dorme uma soneca
a tia louca
Limpa os sovacos
com esse spray
amanhã é dia
de dancing day
Põe nessa boca
uma chupeta
amanhá é dia
de Dona Xepa
02 - Utopia
(José Afonso)
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
03 - A
Nau de António Faria
(José Afonso)
Vai-se
a vida e vem a morte
o mal que a todos domina
Reina o comércio da China
às cavalitas da sorte
Dinheiro
seja louvado
A cruz de Cristo nas velas
Soprou o diabo nelas
deu à costa um afogado
A
guerra é coisa ligeira
tudo vem do mal de ofício
Não pode haver desperdício
nesta vida de canseira
Demanda
o porto corsário
no caminho faz aguada
Ali findou seu fadário
morreu de morte matada
A
nau de António Faria
Leva no bojo escondida
A cabeça de uma corsário
que lhes quis tirar a vida
Aljofre
pérola rama
eis os pecados do mundo
Assim vai a nau ao fundo
Sem arte a honra e a fama
Entre
cristãos e gentios
Em gritos e altos brados
Para ganhar uns cruzados
Lançam-se mil desafios
Em
vindo de veniaga
com a vela solta ao vento
Um mouro é posto a tormento
por não dizer quem lhe paga
Vou-me
à costa à outra banda
já vejo o rio amarelo
Foi no tempo do farelo
agora é o rei quem manda
Faz-te
à vela marinheiro
rumo ao reino de Sião
Antes do fim de Janeiro
hás-de ser meu capitão.
04 - Canção
da Paciência
(José Afonso)
Muitos sóis
e luas irão nascer
Mais ondas na praia rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio a mendigar
Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida para andar
Beba o fel amargo até morrer
Já não tenho pena sei esperar
A cobiça é fraca melhor dizer
A vida não presta para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As àguas do rio são de correr
Cada vez mais perto sem parar
Sou como o morcego vejo sem ver
Sou como o sossego sei esperar
05 - O
País Vai de Carrinho
(José Afonso)
O
país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis
Blusão
de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota
Gosta
de passeio em grupo
No mercedes que o papá
Trouxe da Europa connosco
Até à Europa de cá
Despreza
a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca
Se
o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis
Depois
mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutónica
Combater os sarracenos
Os
pretos, os comunistas
Os Índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos!
Chame-se
o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene
Que
a cruz gamada reclama
e novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão
Mas
não se esqueçam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir prá puta que o pariu
06 - Canarinho
(José Afonso)
O canarinho
cai
No cantarinho ai
Do canarinho
O cantarinho cai
Na canarinho ai
Do canarinho
O alarido sai
Do arruído ai
Do alarido
O arruído sai
Do alarido ai
Do arruído
O vagabundo vai
A cada mundo ai
Do vagabundo
A cada mundo vai
O vagabundo ai
Do cada mundo
O cavalinho vai
De vagarinho ai
Do cavalinho
O vagarinho vai
De cavalinho ai
De vagarinho
07 - Eu
Dizia
(José Afonso)
Eu dizia
Quanto madura
me animavas
Seguindo a noite
Barco ou estrada
Sem rótulo
Sem luzes
Em vitória
Na mesma rota
De tanto compatriota
Entre o sol e a lua
Sereníssima
Rodavas em silêncio
noite fora
Fazíamos um norte
De vigília
Do lado da montanha
Ninguém chora
08 - Canção
do Medo
(José Afonso)
Minha
mãe como não morro
à vista desta carnagem
Dou por mal paga a viagem
a tais foguetes não corro
Não
sei dos meu lavagantes
nem da mulher que me espera
Quero sair desta guerra
mesmo agora neste instante
Ai
carnes do meu padrinho
podeis temer à vontade
Que a vida do teu sobrinho
vale bem a tua idade
E
mais a tua canseira
em me ensinares que não dorme
Aquele que mata a fome
a quem só tem caganeira
Livra-me
dos teus cuidados
rezo dois mil padre-nossos
Assim me cuidem dos ossos
sejam eles mil diabos
Agora
tenho cagaço
como quando era menino
e me tolhiam os braços
temores ao verbo Divino
Levanta
ferro meu corpo
vê se podes dar um passo
Valham-me todos os santos
das caminhadas que faço
Tão
pouco pode a natura
nestas afrontas mortais
Que um homem morre mil vezes
mil e uma já é demais
09 - Verdade
e Mentira
(José Afonso)
Neste livro
do mundo
Quase perfeito
Preto e branco irmanados
De igual jeito
Quem não foi a tribunal
Quem teve mão
Nos juizes da Santa Inquisição
Em menino te ensinaram
mentiras que a morte leva
para outra morte bem longe
de pensares que outra contrária
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
que na fogueira o lançava
aquela verdade brilha
à morte à morte diziam
os que não adivinhavam
que era verdade a mentira
Até o mar se acomoda
e paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
Só não mente quem não sente
Que o mistério não tem fundo
10 - Altos
Altentes
(Popular/ José Afonso)
Altos
altentes
carapinos carapentes
Dá-lhe uma risada
E caem-lhe os dentes
Igrejinha
pequenina
Sacristão revolvedor
A gente que nela mora
Toda veste duma cor
Carvalheira
tem cem canos
Cada cano tem cem ninhos
Cada ninho tem cem ovos
Quantos são os passarinhos