01 - Enquanto
Há Força
(José Afonso)
Enquanto há
força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também
Levanta o
braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também
02 - Tinha
uma Sala Mal Iluminada
(José Afonso)
Tinha uma
sala mal iluminada
Perguntavas pelo amigo e estava a monte
A fuga era a última cartada
A pide estava ali mesmo defronte
As vezes uma dúvida rondava
Valia ou não a pena o que fazias?
Se alguém caía um outro alevantava
O tronco que tombava e renascias
A velha história ainda mal começa
Agora está voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante
Há sempre quem se prante à tua mesa
Armado em conselheiro ou penitente
A luta agora está de novo acesa
E o caminho é só um é sempre em frente
Perdeste a treino falta-te a paciência
Ouviste antes do tempo mil fanfarras
Já os soldados fazem continência
Ao som do choradinho e das guitarras
A velha história ainda mal começa
Agora esta voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante
03 - Um
Homem Novo Veio da Mata
(José Afonso)
Um homem
novo
Veio da mata
De armas na mão
Não é soldado
De profissão
É guerrilheiro
Na sua aldeia
A mãe o diz
Duma fazenda
Faz um país
Colonialismo
Não passará
Imperialismo
Não passará
Veio da mata
Um homem novo
Do M. P. L. A.
Namíbia quente
Vai despertando
Da areia ao mar
Agora ou nunca
Não há que errar
Foi em Fevereiro
Na dia quatro
Sessenta e um
Angola existe
Povo há só um
Colonialismo
Não passará...
A cor da pele
Não é motivo
Pra distinguir
Angola nova
Só há que unir
Se novos donos
Querem pôr tronos
No teu país
Dum guerreiro
Faz um juiz
Colonialismo
Não passará...
Olha o caminho
Da Polissário
De Zimbabwé
África toda
Levanta-te
Se novos donos
Querem pôr tronos
Sobre o teu chão
Por cada morto
Nasce um irmão
Colonialismo
Não passará...
04 - Ali Está o Rio
(Letra de Luis Francisco
Rebello e José Afonso baseada
na peça de B. Brecht "A excepção
e a regra"/ Música de José Afonso)
Ali
está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outro não
Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão
05 - Arcebispíada
(José Afonso)
Pregais o
Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima
haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote
06 - Barracas Ocupação
(Três canções para a peça
de Richard Démarcy/ Versão, texto e música de José Afonso)
1ª canção
Lá
vêm subindo o abismo
Da sombra donde vieram
Já sem medo e sem vergonha
Virados prà luz do dia
Será esta a nossa porta?
Perguntavam um pouco inquietos
Por terem pla vez primeira
Quatro paredes e um tecto
Por
certo ninguém lhes disse
Que são os heróis de agora
Maiores que Alexandre Magno
Numa batalha perfeita
Sem perguntar ao Estado
Qual o caminho a tomar
Correm risco correm penas
Quem sabe onde vão parar
2ª canção
Lá vêm os
nossos soldados
Esses, sim, sabemos quem são
Os nossos filhos, os nossos irmãos
Os nossos pais, diz a criança
Não
tenhamos medo
Pois ninguém melhor
Poderá resolver
esta luta
A
favor de quem?
Ao lado de quem?
Vamos,
coragem, chegou o momento
De preparar os nossos argumentos
Não
tenhamos medo
São nossos amigos
São
os nossos filhos,
Os nossos irmãos
Os nossos pais, diz a criança
Já estão a dobrar a rua
Lá vêm eles
Não
tenhamos medo
Pois ninguém melhor
Poderá resolver
Esta luta
3ª canção
Maravilha
Maravilha
Venham ver o barco doido
Sem amarras que o segurem
Pela porta entra a maré
Venham ver a barco doido
Àgua cai pela chaminé
Maravilha
Maravilha
Já vejo os móveis dançar
Entra a àgua pela porta
O telhado vai tombar
Quando o mar se enfurece
Andamos em rodopio
Sobre caminhos de prata
Correm lágrimas a fio
07 - Eu,
o Povo
(Letra de Barnabé João/ Música de José Afonso e
Fausto)
Eu, o Povo
Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão
Fiz desta força um amigo fiel
O vento
sopra com força
A água corre com força
O fogo arde com força
Nos meus
braços que vão crescer vou estender panos de vela
Para agarrar o vento e levar a força do vento à produção
As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda
Para agarrar a força da água e pô-la na produção
Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração
Para agarrar a força do fogo na produção
Eu, o Povo
Vou aprender a lutar ao lado da Natureza
Vou ser camarada de armos dos quatro elementos
A táctica
colonialista é deixar o Povo ao natural
Fazendo do Povo um inimigo da Natureza
Eu, o Povo
Moçambicano
Vou conhecer as minhas grandes forças todas
08 - A
Acupunctura em Odemira
(Letra de José Afonso/Música de
José Afonso e Fausto)
Ainda bem
que é verdade
Ainda bem que é mentira
A acupunctura em Odemira
Ainda bem que há quem viva
Em Odeceixe
E se peide à vontade
Na Rua Espinha de Peixe
Eu bem sei a Cergal a Super Bock
A volta ao mundo pelo Cabo de S. Roque
Em Abril àguas mil
Ponto final
Ainda bem que é para breve
O festival
Ainda bem que amanhã
É a ciclorama
E o campeonato do mundo no primeiro programa
Ainda bem que apostei no totobola
Todos os dias são santos, Dona Aurora
09 - Viva
o Poder Popular
(José Afonso)
Não há
velório nem morto
Nem círios para queimar
Quando isto der prò torto
Não te ponhas a cavar
Quando isto der prò torto
Lembra-te cá do colega
Não tenhas medo da morte
Que daqui ninguém arreda
Se a CAP é filha do facho
E o facho é filho da mãe
O MAP é filho do Portas
Do Barreto e mais alguém
Às aranhas anda o rico
Transformado em democrata
Às aranhas anda o pobre
Sem saber quem o maltrata
Às aranhas te vi hoje
Soldado, na casamata
Militares colonialistas
Entram já na tua casa
Vinho velho vinho novo
Tudo a terra pode dar
Dêm as pipas ao povo
Só ele as sabe guardar
Vem cá abaixo ó Aleixo
Vem partir o fundo ao tacho
Quanto mais lhe vejo o fundo
Mais pluralista o acho
Os barões
da vida boa
Vão de manobra em manobra
Visitar as capelinhas
Vender pomada da cobra
A palavra socialismo
Como está hoje mudada
De colarinho a Texas
Sempre muito aperaltada
Sempre muito aperaltada
Fazendo o V da vitória
Para enganar o proleta
Hás-de vir comigo a glória
O Willy Brandt é macaco
O Giscard é macacão
O capital parte o coco
Só não ri a emigração
De caciques e de bufos
Mandei fazer um sacrário
Para por no travesseiro
Dum cura reaccionário
Não sei quem seja de acordo
Como vamos terminar
Vinho velho vinho novo
Viva o Poder Popular