01 - Agora
(José Afonso)
Agora a
vinha é doce
Em vinha d'alhos
Agora a frívola
foi-se
O matutino
Agora a vírgula
vai-se
A virgindade
Agora a
quinta descanta
A mocidade
Agora a a pérola
não
Se vai embora
Agora vai a
filha
E vai a sogra
Agora não
cheirava
A rosmaninho
Agora o
Bento está
Mesmo sozinho
Agora pinta
a chuva
Na goteira
Agora a
filha já
Não tem papeira
Agora rima
o novo
Rumo ao velho
Agora sabe
bem
Este sossego
02 - Tu
Gitana
(Cancioneiro Vila Viçosa/ José Afonso)
Tu gitana
que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê
Se saldre dessa aventura
Ô si nela moriré
Ô si nela perco la vida
Ô si nela triumfare
Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê
03 - Moda
do Entrudo
(Popular Malpica Beira-baixa)
Ó entrudo Ó
entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
as mocinhas ao solheiro
Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é qu'eu estou bem
Que no monte é qu'eu estou bem
Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é qu'eu estou bem
Estas casa são caiadas
Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira
04 - Tarkovsky
(José Afonso)
05 - Escandinávia
Bar-Fuzeta
(José Afonso)
Se o
gageiro de outras eras
Subisse de novo à gávea
Diria p'rá marinhagem
Já se avista a "escandinávia"
Senhora do
Bom Sucesso
Diz-me onde irei almoçar
Não quero sola de molho
Tenho as tripas a estalar
Entra
naquele fiorde
Onde a terra encobre o mar
Se queres comer como um lord
no Escandinávia-bar
Sem rendas
de mesa fina
O choco é bicho moderno
Naquele lugar fraterno
Goza de geral estima
Já vai
passando à história
O tempo em que não entrava
Um pescador no café
Onde a finesse abancava
Nesses
tempos de castigo
(Só de pensar estremeço)
Dizia cá pra comigo
nem tudo o que digo penso
Ali não
entra o Tenreiro
Nem cavalos de alta roda
Mas já lá vi um torneiro
Beber whisky com soda
À puridade
vos digo
Desde a noite ao romper d'alva
Comi uns chocos com tinta
Vi um búzio a bater palmas
Digo tudo
quanto é franco
Em prol da sardinha assada
Vi rebentar as costuras
De um fulana alentada
Por isso não
te retenhas
Se tens pressa de chegar
Senhora do Bom Sucesso
Rumo ao Escandinávia-bar
06 - Década de Salomé
(José Afonso)
Vai
terminar esta prosa
Estamos na década de Salomé
Será o Apocalipse ou a torneira
a pingar no bidé?
É meio dia
dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage
Estamos na
Europa
civilizada
já cá faltava
uma maison
pour la patrie
p'lo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o patron!
Já tem
destino esta terra
vamos mudar para o marché aux puces
o tempo das ceroilas está no fio
agora só de trousses.
É meio dia
dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage.
Saem
quarenta mil ovos moles
Vilar Formoso
é logo ali
faz-se um enxerto
com mijo de gato
Sola de sapato
voilá Paris!
Aos grandes
supermercados
chega cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se enlatados
lavados com «champon»
É meio dia
dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage
Estamos na
Europa
radarizada
já cá faltava
uma turquês
para o controle
do bravo e do manso
vivaço e do tanso
em cada mês!
A fina flor
do entulho
largou o pêlo ganhou verniz
Será o Christian Dior o manajeiro
a mandar no país?
Estamos da
Europa
do «estou-me nas tintas»
nada de colectivismos
chacun por si, meu
e chcaun por soi
tê vê e cama
depois da esgaça
até que lhes dê a traça
a culpa é toda
do erre Hagá.
Levam-te à
caça
dos gambuzinos
com dois ouriços
em cada mão
ai velha fibra
do bairro de Alfama
a carcaça do Gama
vai a leilão!
07 - Benditos
(José Afonso)
Já fui
neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda da lira a vibrar
Já fui
servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui erva no chão
Bendito
seja o pão
Bendita seja a dor
Benditas as portas do amor
Já fui
servo de um Deus
Vida e morte de um momento
Já nasci no barlavento
Já fui erva no chão
Já fui
favo de mel
Cajado de pastor
Já fui nuvem correndo no céu
Já fui
ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do levante
Já fui andarilho e cantor
Bendita
seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul
Já fui
ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do levante
Já fui andarilho e cantor
08 - Galinhas
do Mato
(José Afonso)
09 - À
Proa
(José Afonso)
10 - Alegria
da Criação
(José Afonso)
Plantei a
semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado
A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía
Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga
Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga
Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga
Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa
Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha