01 - Quanto
É Doce
(Popular/José Afonso)
Quanto é
doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe
Vai-se a tristeza o desgosto
Põe-se a um ponto na tormenta
Quando a mãe nos dá um beijo
Quando a mãe nos acalenta
E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém
02 - As
Sete Mulheres do Minho
(Popular/ José Afonso)
As
sete mulheres do Minho
mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca
correram com o regedor
Essa mulher lá do Minho
que da foice fez espada
há-de ter na lusa história
uma página doirada
Viva a Maria da Fonte
com as pistolas na mão
para matar os Cabrais
que são falsos à nação
03
- O Cabral Fugiu para Espanha
(Texto (discurso) de Hélder
Costa -Letra Popular/ José Afonso)
Ele
que só nos trouxe a maior miséria encontra-se a
pagar a sua
vilania num exílio vergonhoso em terra de
Espanha.
Provou-se que o povo tinha razão.
E provou-se também que a unidade
de todos os
cidadãos há-de levar de vencida essa corte corrupta e
indigna.
Temos de exigir medidas revolucionárias ao nosso governo.
Não
podemos permitir que o Duque de Palmela, o nosso ministro,
continue
nas mesmas águas turvas do Costa Cabral.
Se não é capaz de tomar
medidas que sirvam o povo, que vá para lá outro.
Aprende
Rainha aprende
Mede bem o teu poder
Tu dum lado o povo d'outro
Qual dos dois há-de vencer
O
Cabral fugiu p'ra Espanha
Com uma carga de sardinha
Com a pressa que levava
Nem disse adeus à Rainha
Viva
a Maria da Fonte
Ve com esporas de prata
A cavalo na Rainha
Com o Saldanha á arreata
O
Cabral queria ser rei
A mulher quer ser rainha
Foram-se os Cabrais embora
Só ficou a Luisinha
O
Cabral fugiu para Espanha
Já lá vai para a Galiza
Com a pressa que levava
Nem disse adeus à Luisa
04
- De Quem Foi a Traição
(Hélder Costa/ José Afonso)
José
do Telhado
Sozinho e perdido
É um lobo do mato
Acossado
De
quem foi a traição?
De quem foi a traição?
José
do Telhado
Trocado e vendido
É um lobo
Do mato
Fugido
De
quem foi a traição?
De quem foi a traição?
José
do Telhado
O traidor
Que o vendeu
Bem merece
Sofrer
O castigo
De
quem foi a traição?
De quem foi a traição?d
José
do Telhado
Vai-se vingar
O traidor vai pagar
O traidor vai pagar
05
- Quem Diz Que É pela Rainha
(Popular/ José Afonso)
Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade
Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados
06
- Na Catedral de Lisboa
(Popular/ José Afonso)
Na
catedral de Lisboa
Sinto os sinos repicar
Serão anos de princesa
De algum santo o festejar
É a Rainha que parte
'té às terras de Tomar
Na Catedral de lisboa
Sinto os sinos repicar
Em
formoso palafrém
Bem a vejo cavalgar
Um mui brilhante cortejo
Atrás dela a caminhar
Segue a estrada que vai ter
'té às terras de Tomar
Em formoso palafrém
Bem a vejo cavalgar
Dizem
que a nossa Rainha
O que vem hoje vistar
Mal haja quem a conduz
A um tal coito se abrigar
Segue a estrada que vai ter
'té às terras de Tomar
Em formoso palafrém
Bem a vejo cavalgar
07
- Achégate a Mim, Maruxa
(Cantar galego)
Adeus,
estrela brilante
compañeiriña da lua
moitas caras teño visto
mais como a tua ningunha
Adeus
lubeiriña triste
de espaldas te vou mirando
non sei que me queda dentro
que me despido chorando
08
- Senhora Que o Velho
(Nicolau Tolentino/ José Afonso)
Senhora
que o velho
Se quer levantar
Mofina de mim
Que o ouvi escarrar
Falar e tossir
Que o ouvi escarrar
Senhora
vá-se embora
Vá já para fora
senão o papão
nos há-de engolir
Morde
pela calada
Cheira à cruz gamada
Anda aí à solta
Não o deixes bulir
Senhora
que o velho
Se quer levantar
Dá-lhe na corneta
Até se cansar
Mofina
de mim
Bem o vejo trepar
Senhora que o velho
Tem corda de sino
Se lhe dão mais corda
Vai ao alto a pino
Anda aí à solta
Não o deixes bulir.
09
- De Sal de Linguagem Feita
(José Afonso)
De
sal de linguagem feita
Numa verruma que atava
A lingua presa do jeito
A forma de ser escrava
O apito do comboio
Que não diria de onde era
O sinal, a mordedura
A visita que não vem
O corredor, o tapume
A sala vedada às feras
O frenesim das gibóias
Em guarda, o soldo, a comida,
A cozedura do pleito
O cheiro a papel selado
Um cantinho de amargura
Um raio de sol queimado,
Junto do bolso do fato
A morte a vida a vitória
Diga lá minha menina
Se acredita nesta história
10
- Não É Meu Bem
(José Afonso)
A
pele é seca para curtir
- Não é meu bem
A cara é magra para sorrir
- Não é meu bem
A cama é boa para dormir
- Não é meu bem
A corda é boa para subir
- Não é meu bem
A morte é santa para cumprir
- Não é meu bem
A louça é cara para partir
- Não é meu bem
A cal é branca para encobrir
- Não é meu bem
A banca é boa para falir
- Não é meu bem
A vida é dura para resistir
- Não é meu bem
A porta é boa para se abrir
- Não é meu bem
11
- De Não Saber o Que Me Espera
(José Afonso)
De
não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia
Vítima de só haver vaga
Entre uma mão e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda
Viemos pelo sol nascente
Vingamos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e àgua sol e àgua
De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta
12 - Fura Fura
(José Afonso)
Pela
estrada fora
Era já
Meia-noite
Só cães a ladrar
A chuva na terra
O vento no mar
Um velho
voltou
E disse-me adeus
Cantando e dançando
Debaixo do céu
"Que é pena, que é mágoa
Que uma ave de penas
Não possa voar
Passaram-se
os dias
Dias da
Vida dum cavalo
A galopar
E o homem a andar
E o homem a andar
Um velho
voltou
E disse-me adeus
Cantando e dançando
Debaixo do céu
"Que é pena, que é mágoa
Que uma ave de penas
Não possa voar