Senhor
arcanjo
Vamos jantar
Caem os anjos
Num alguidar
Hibernam tíbias
Suspiram rãs
Comem orquídeas
Nas barbacãs
Entra na porta
Menina-faia
Prova uma torta
Desta papaia
Palita os dentes
Põe-te a cavar
Dormem videntes
No Ultramar
Que bela fita
Que bem não está
A prima Bia
De tafetá
E
vai o lente
Come um repolho
Parte-se um pente
Fura-se um olho
A pacotilha
Tem mais amor
À gargantilha
Do regedor
Põe a gravata
Menino bem
Que essa cantata
Não soa bem
Senhor arcanjo
Vamos jantar
Caem os anjos
Num alguidar
E as quatro filhas
Do marajá
Vão de patilhas
Beber o chá
02
- Cantigas do Maio
(Refrão popular/José Afonso)
Eu
fui ver a minha amada
Eu fui ver o meu benzinho
Minha
mãe quando eu morrer
Eu
fui ver uma donzela
Eu
fui ver a minha amada
Verdes
prados, verdes campos
Minha mãe quando eu morrer
03
- Milho Verde
(popular/arr. José Mário Branco)
Milho
verde, milho verde
Milho verde, milho verde
Milho verde, milho verde
Milho
verde, milho verde
04 - Cantar Alentejano
(José Afonso)
Chamava-se
Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
05 - Grândola, Vila Morena
(José Afonso)
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra
da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
06
- Maio, Maduro Maio
(José Afonso)
Maio
maduro Maio, quem te pintou?
Raiava
o sol já no Sul.
Sempre depois da sesta chamando as flores.
Era o dia de cantar.
Maio com meu amigo quem dera já.
Sempre no mês do trigo se cantará.
Numa rua comprida El-rei pastor.
Anda ver, Maio nasceu.
07
- Mulher da Erva
(José Afonso)
Velha
da terra morena
Saia rota
subindo a estrada
Canta a rola
numa ramada
Há quem viva
sem dar por nada
A noitinha
a mulher alcança
Na
calçada
uma mancha negra
No Inverno
terás fartura
08
- Ronda das Mafarricas
(António Quadros
(pintor)/José Afonso)
Estavam
todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera À espera
À espera da lua cheia
Estavam
todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu
Arlindo
coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta
Arlindo
Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada
Arlindo
coveiro
Cava-me a morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa
Arlindo
Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada
09
- Coro da Primavera
(José Afonso)
Cobre-te
canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu
Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu
Abre uma trincheira
Companheira
Deita-te no chão
Sempre à tua frente
Viste gente
Doutra condição
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
Livra-te
do medo
Que bem cedo
Há-de o Sol queimar
E tu camarada
Põe-te em guarda
Que te vão matar
Venham lavradeiras
Mondadeiras
Deste campo em flor
Venham enlaçdas
De mãos dadas
Semear o amor
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
Venha
a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar
Só um pensamento
No momento
P'ra nos despertar
Eia mais um braço
E outro braço
Nos conduz irmão
Sempre a nossa fome
Nos consome
Dá-me a tua mão
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores