01 - Natal
dos Simples
(José Afonso)
Vamos
cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Vamos
cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita
neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
02 - Balada do Sino
(José Afonso)
Uma
barquinha
Lá vem lá vem
Dim Dem
Na barquinha de Belém
Senhor
Barqueiro
Quem leva aí
Dão Dim
Na barquinha d'Aladim
Levo a cativa
Duma só vez
Dois, três
Na barquinha do Marquês
Ao
romper d'alva
Casada vem
Dim Dem
Na barquinha é que vai bem
Se
a tem guardada
Deixe-a fugir
Dão Dim
Na barquinha do Vizir
Lá vai roubada
Lá vai na mão
Dim Dão
Na barquinha do ladrão
03 - Resineiro Engraçado
(Popular Beira-alta/José
Afonso)
Resineiro
engraçado
Engraçado no falare
Ó
I ó ai eu hei d’ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar
Já
tenho papel e tinta
Caneta e mata borrão
Ó
I ó ai p’ra escrever ao resineiro
Ó I ó ai que trago no coração
Resineiro
é casado
É casado e tem mulher
Ó
I ó ai vou escrever ó resineiro
Ó I ó ai quantas vezes eu quiser
Resineiro
engraçado
Engraçado no falare
Ó
I ó ai eu hei d’ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar
04 - Cançao de Embalar
(José Afonso)
Dorme
meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti
Outra
que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor
Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é muito menina
Deixa-a vir também adormecer
05 - O Cavaleiro e o Anjo
(José Afonso)
Passos
da noite
Ao romper do dia
Quantos se ouviram
Marchando a par
Batem à porta
Da hospedaria
Se for o vento
Manda-o entrar
Vejo uma espada
De sombra esguia
Se for o vento
Que venha só
Quem está lá fora
Traz companhia
Botas cardadas
Levantam pó
Venho de longe
Sem luz nem guia
Sou estrangeiro
Não sou ninguém
Na
flor queimada
Na cinza fria
Nunca se passa
Uma noite bem
Foge estrangeiro
Da morte escura
Pega nas armas
Vem batalhar
E enquanto a lua
Não se habitua
Dorme ao relento
Até eu voltar
06
- Saudadinha
(Popular açoriana)
Ó
Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
No Faial baptizada na Achadinha
Saudade
onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade leva-me podendo ser
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Saudade onde tu foras morrer
A
saudade é um luto
A saudade é um luto
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração
07
- Tecto na Montanha
(José Afonso)
Num
lugar ermo
Só no meu abrigo
Aí terei meu tecto
E meu postigo
De longe em longe
À luz das madrugadas
Duas camisas
Quem não tem lavadas?
Aí serei meu dono
E companheiro
Dizei amigos
Se não sou solteiro
E se eu morrer
O tecto que não caia
Porque um mendigo
Dorme de atalaia
De
quando em quando
Chamo o perdigueiro
Dizei amigos
Quem chega primeiro
Aí
terei meu poiso
À luz da veia
Aí verei o sol
Duma janela
Tenho uma trompa
Tenho uma cascata
Tenho uma estrela
No bairro da lata
Olha o mar alto
Olha a maresia
Olha a montanha
Vem rompendo o dia
08 - Endechas a Bárbara Escrava
(Luís de
Camões/José Afonso)
Aquela cativa
Que me tem cativo
porque nela vivo
já não quer que viva
eu nunca vi rosa
em suaves molhos
que pera meus olhos
fosse mais fermosa
Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar
Pretidão
de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
09
- Chamaram-me Cigano
(José Afonso)
Chamaram-me
um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rez
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei
numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão
Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me
a ferros
Soltaram o cão
Mas tive
o diabo na mão
Voltei
da charola
de cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi
na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão
Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que nunca tal vi
10
- Senhora do Almortão
(Popular Beira-baixa/José
Afonso)
Senhora
do Almortão
ó minha linda raiana
virai costas a Castela
não queirais ser castelhana
Senhora
do Almortão
a vossa capela cheira
cheira a cravos, cheira a rosas
cheira a flor de laranjeira
senhora
do Almortão
eu pró ano não prometo
que me morreu o amor
ando vestida de preto
11 - Vejam Bem
(José Afonso)
Vejam
bem
que não há só gaivotas em terra
quando
um homem se põe a pensar
quando
um homem se põe a pensar
Quem lá vem
dorme
à noite ao relento na areia
dorme
à noite ao relento no mar
dorme
à noite ao relento no mar
E se houver
uma praça de gente madura
e
uma estátua
e
uma estátua de de febre a arder
Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer
Vejam
bem
daquele
homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão
desbravando os caminhos do pão
E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vem levantá-lo
do chão
ninguém
vem levantá-lo do
chão
Vejam
bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a pensar
Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar
12
- Cantares de Andarilho
(António Quadros (pintor)/
José Afonso)
Já
fiz recados às bruxas
do caselho à portelada
dei-lhes a minha inocência
elas não me deram nada.
Andei
à giesta
ao lírio maninho
na Bouça da Fresta
no Casal Velido
erva cidreira
à erva veludo
na Lomba regueira
no Pinhal do Mudo.
Andei
ó licranço
andei ao lacrau
no Monte do Manso
na Espera do Mau
vibra à carocha
ao corujão cego
na mata da Tocha
no rio Lágedo.
Fui
andarilho das bruxas
moço de S. Cipriano
já fui morto e inda vivo
vendi a alma ao Diabo.
Era
donzel e guardei-me
p'ras filhas da feiticeira
parti-me em metade à loira
noutra metade à morena.