As vozes que nos faltam – João Afonso dos Santos

A tendência é para esquecermos as pessoas, na sua vera efígie, depois que desaparecem. Às tantas, estamos a moldá-las segundo a perspectiva dominante, ou, na melhor das hipóteses, pela nossa, supondo que a temos discordante da primeira. O que de algum modo não deixa de ser natural, enquanto essa incorporação nos valores cor­rentes (de circulação fiduciária, passe o termo) ou na nossa subjecti­vidade induzida não é o resultado dum acto deliberado do poder ou poderes constituídos ou a emanência deles. Aí, sim, nada se configura como natural na aparente naturalidade com que se nivelam os mortos pela rasa bitola dos vivos.
Por isso, fomos hoje buscar a voz parcelar do Zeca a uma das suas menos distantes entrevistas, porventura das mais fiéis, atributo de que poucas vezes beneficiou. E a um cenário não muito diferente do actual, nem diferentes os actores da cena pública, o mesmo se dizendo dos problemas capitais. Isto é, a um tempo próximo, não tanto no sentido cronológico do termo, antes na sua significação valorativa e sociológica. Com este expressivo acréscimo, o de que, en­tretanto, se agravaram os pressupostos de desumanização, de cin­zentismo cultural, de omnipresente oficiosidade administrativa, de aceitação conformista; e também daquilo a que se poderá chamar, com alguma ironia, a ética da desigualdade. Consiste ela em se colo­car na gamela da nossa frustração quotidiana os famosos indicado­res macro-económicos, enquanto os novos privilegiados se banque­teiam magnlfica e impudicamente, e erigir tudo isso em respeitável regra de vida e meta nacional, ao mesmo tempo. Que este tipo de “desenvolvimento” é o adequado, inevitável e até excelente afir­mam-nos, abonados em modelos que nos apontam, os demiurgos desta outra harmonia universal sobre a qual recai a suspeita de ser tão falaz, caduca e falsa como a profetizada no século passado.
Hoje, que certos círculos bem pensantes têm por moda celebrar, com grande clamor e alguma má consciência, a suposta morte das ideologias; e se generaliza a apetência pela dissolução da identidade colectiva em troca duns dinheiros por que tudo se afere – onde se mostra que há Judas bem mais rapaces do que os dos Santos Evan­gelhos; hoje, que todos querem ser, e não mais do que isso, sacer­dotes ordenados desse culto das novas tecnologias; que se maca­queiam provincianamente os figurinos importados, com grande sobra de fazenda; – bom é que se oiçam e façam ouvir vozes criticas, re­beldes e solidárias como a do Zeca.

Artigo publicado na revista nº 3 da AJA em 1989
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