A solidariedade em José Afonso

Era por excelência solidário, o Zeca. Foi-o, a bem dizer, até ao derradeiro limite, desprendido de si e do que é de uso chamar-se, numa perspectiva de fora, os interesses pessoais… que não eram naturalmente os seus interesses pessoais. De o ser, pelos caminhos da vida e ao longo dela, de temperar a prática de o ser no crisol dessa inexaurível convivência com as situa­ções, as pessoas comuns e seus agrupamentos, a soli­dariedade que dele se desprendia era uma soalheira sala-abrigo, toda caiada de branco, um gesto natural, uma espécie de atributo da personalidade. Nunca toda­via contraditoriamente inconsciente e fácil, menos ainda piedosa. O fraternal impulso para com os outros, especialmente os “esquecidos” do poder (com os quais se identificava), melhor dizendo, de todos os poderes, institucionalizados ou não, convertia-o ele na exigência dum sentido de mudança (não esta festiva e formal mudança em que vivemos), no alertar pedagógico das consciências para a potencialidade da acção colectiva. Tendo por horizonte a edificação da cidade utópica, de que nos fala a canção, “sem muros nem ameias, gente igual por dentro, gente igual por fora”? Esse desígnio ideal, profundamente ancorado no seu substracto ético e político, não o impediu de se bater pelas causas con­cretas, radicadas nos interesses e nas organizações populares, profissionais ou outras, de as estimular ou apoiar à sua maneira. Por muito imediatos e circunstan­ciais que fossem, segundo o princípio mesmo da solida­riedade assumida. Zeca media bem a distância que vai da sociedade real, desumana e injusta, para o sonho dela que sempre sonhou. E, para além das metas reali­záveis sabe-se lá quando, que serão as utopias senão a denúncia, por alto contraste, da cidade actual?
Essa atitude solidária era claramente adversa a todo o dogmatismo intransigente, ou talvez este segundo comportamento seja a condição essencial do primeiro. Aos juízos categóricos, às verdades reveladas, trans­cendentes ou imanentes, às infalibilidades dos papas laicos Que enxameiam o nosso pequeno universo – tudo isso que desde sempre traçou as fronteiras da intole­rância – opunha ele o permanente interrogar-se das questões, a dúvida crítica e o esforço da sua supera­ção, a relatividade das soluções, em suma, a abertura de espírito. Questionando os outros e a si mesmo, lan­çava pontes de diálogo, abria clareiras de convívio, atava os laços da aproximação, sem ceder todavia nas suas posições de fundo e na sua “praxis” actuante.
Esta postura transmudou-a o Zeca para o plano musical. Cantou. Mas o canto solidário foi mais do que mera consequência da atitude solidária do seu autor. Dele fez deliberadamente – como sabemos – um instru­mento de acusação e de protesto colectivos, uma senha de reconhecimento comum, uma mensagem de luta e de porvir. Nos signos explrcitos da linguagem do tempo reconhecemos os nossos verdugos e o seu fim anunciado. Uma vezes em metáforas carregadas de significação facilmente perceptível (“Coro dos Caídos”, “Os Vampiros”, “O Avô Cavernoso”, etc.); outras, ser­vindo-se de casos singulares como paradigmas da opressão a vários níveis (“Vai Maria Vai”, “Cantar Alen­tejano”, “Teresa Torga”, etc.); sobre o pano de fundo dum lirismo que mergulhou as raízes na verdade da terra e da gente, e tinto também, aqui e ali, das tintas do surrealismo.
Foram perto de trinta anos da Mcanção de interven­ção”. Se quisermos fixar um momento, poderemos dá-Ia por começada em 1959, com a edição do “Menino do Bairro Negro” e prolongada por todo o tempo que a ditadura levou enfim a cair. Zeca não se deu, no entan­to, por quite com o derrube do fascismo. Celebrou, em novas formas semânticas e musicais, o prometimento do novo dia, exprimiu, de modo mais conjuntural e directo, as vicissitudes dessa época histórica, e, visto que o acto solidário se não nega em fronteiras, cantou o amanhecer esperado doutros povos, não tão seguro como isso. Escarmentou, por fim, o adiamento da socie­dade prometida pela revolução de 74, os seus alibis, as suas entorses, os seus glutões insaciáveis, herdeiros
. directos dos vampiros de recentes eras. Esteve onde o reclamaram, enquanto pôde, ele mais os seus colegas de ofício, até ao osso da resistência. Pelas associações recreativas e culturais, nos colectivos dos trabalhado­res, nas escolas e academias, entre os intelectuais e os emigrantes, nos campos e nas cidades, em Angola e Moçambique, ele e a sua voz foram companheiros fiéis das nossas dúvidas e revoltas, dos nossos anseios e esperanças.
Em 1985, ano da última gravação, Zeca cantou, na sua “Alegria da Criação”, o que podemos interpretar como sendo uma espécie de balanço antecipado,

“De nada me arrependo
Só a vida
Me ensinou a cantar
Esta cantiga”

João Afonso dos Santos

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