Noite de tributo a Zeca Afonso em Lisboa

Na noite de 9 de Setembro, no Bar Café do Mercado da Ribeira, lembramos o Zeca e as suas canções. O compositor e escritor Andrés Stagnaro é o nosso convidado especial….
O bar café do Mercado da Ribeira recebe, na noite de 9 de Setembro o compositor e escritor uruguaio Andés Stagnaro, que nos dará a conhecer o seu albúm “Las canciones de José Afonso”.
Para homenagear o Zeca contamos também com a actuação de alguns musicos residentes deste bar.
Contamos consigo a partir das 22h30.
Reserve a sua mesa através do 210 312 600 / 01 ou 210 312 605.
“Zeca Afonso ou o ódio idolatrado”. Texto de 23.08.06 retirado do blog – http://combustoes.blogspot.com/
No passado fim de semana, a RTP exibiu um verdadeiro show de totalitarismo revivaleiro. Zeca Afonso divinizado, exaltado e tido como um “génio”, deu azo a uma torrente de cançonetas de incontinente pendor marxista terceiro-mundista. As palavras sempre as mesmas (solidário, inquietação, amigo, companheiro, Maio, ceifeira), o ritmo puxando ao falso-rústico das “raízes” – outra palavra detestável – e a finalidade escancarada: tornar aceitável o abjecto (roubar, sanear, vingar, matar) e abrir portas ao totalitarismo comunista, tornando-o justificável à luz da rábula cantada. Zeca Afonso tinha um ar perturbado, queria mais, mais revolução, mais plano inclinado, mais ocupações, mais saneamentos, mais controlo operário, mais comissões de bairro – aquelas que faziam listagens com as pratas, os quadros e os aquecedores existentes nas casa dos inimigos de classe – mais poder popular, mais armas em boas mãos para defender a revolução; ou seja, mais balbúrdia que pedisse, no fim, mais um Estaline. Aquilo é Babeuf, Marat, a Comuna de Paris, a propaganda pelo facto do bombismo anarquista, mais comunalismo utópico em que entram as CEB’s (Comunidade Eclesiais de Base), as Comissões de Ocupação de herdades (as célebres “comprativas”), os padres Max de gola alta e barbas à Sierra Maestra, a Teologia da Libertação, as mulheres-padres, os poetas repentistas e analfabetos (quantas vezes tivemos de engolir o banalíssimo Aleixo ?), o new-age dos alucinogénios e de outros estados de consciência alterados, o abortismo dá-cá-aquela-palha; sei lá, um sem-número de coisas sem mérito elevadas nos pedestais no culto do mau. Sintomaticamente, o programa terminou com uma discursata do inefável “Zeca”: “a minha democracia não é a dos votos, mas a do poder do povo”. Pois. Uma democracia da rua, de tiros na nuca, prisões arbitrárias, campos de concentração, reeducações e penúria para todos. Uma democracia sem eleições, sem debate, sem opinião pública. Uma democracia com censura, com estribilhos, pinchagens e lavagens ao cérebro. É o que me indigna em tudo isto. Como se pode dourar aquilo que viola a democracia, a liberdade e a dignidade humana ? Como podemos abrir portas ao mundo que nos cerca se nos mantemos barricados nas superstições, ódios e quimeras que levaram à morte de tantos mihões, a tanta tragédia humana e tanta fome ? Só quando essa geração sair de cena poderemos, finalmente, aspirar à Europa.
Fotos de Vila Real de Santo António



Aqui ficam algumas fotos da homenagem a José Afonso em Vila Real de Santo António.
Em cima, as fotos da conferência com Alípio de Freitas, José Luis Louro, Teodomiro Cabrita Neto e António João.
Mais abaixo, o cartaz anunciando a exposição sobre a vida e obra de José Afonso no Arquivo Histórico Municipal.
Em breve, colocaremos mais fotos deste evento que se revelou um enorme sucesso, nomeadamente, no concerto do último dia que esgotou o Centro Cultural António Aleixo.
Valência, Abril de 1971
Foto tirada no II FESTIVAL DE LA CANCIÓN IBÉRICA (da esquerda para a direita):
Carlos Correia (Bóris), Zeca Afonso, Miro Casabella, Carlos Carlsen, Poni Micharvegas, Paco Ibañez, María del Mar Bonet. De costas as jornalistas Tina Blanco e Mercedes Arancibia.
Entre o Porto e Coimbra – O Zeca Afonso que eu conheci
O Roxo Leão era um daqueles conhecedores certificados do fado de Coimbra e um animador entusiasta da academia portuense, em tudo o que ao fado coimbrão dissesse respeito. Nessa mesma sessão de uma noite de Novembro de 1953, tomaram parte o José Vitorino Santana, que era o mais consistente fadista da nossa Academia, o Barroso, outro estudante de farmácia com carimbo de Coimbra, ele, também, um excelente tocador de viola, e os dois guitarras, o Carlos Couceiro, um executante seguro vindo, também, da cidade do Mondego para acabar no Porto a licenciatura em engenharia, e o Leonel, quartanista de Medicina, segundo guitarra e único elemento daquela tertúlia, genuinamente nortenho. No fim dos primeiros testes, em que a timidez natural de um principiante já tinha conseguido dissipar a expectativa densa que a circunstância exigente criara, todos concordaram em que eu deveria cantar os mesmos fados que o Zeca, porque, segundo as suas esclarecidas opiniões, a minha voz tinha uma estrutura musical parecida e os estilos interpretativos assemelhavam-se. Caloiro, obedeci, longe de saber o que é que esse veredicto, estando certo, significava de Iisongeiro. Contudo, e apesar de, então, essa semelhança me dizer pouco, a comparação ficou a fazer parte do meu consciente passivo, ligando-me, sentimentalmente, a esse nome que haveria de vir a ser, artisticamente, tão honrado. Passei a prestar maior atenção às canções que ele então interpretava e de que sobressaíam o fado «Incerteza», o «Contos velhinhos», o «Águia que vais tão alta», o «Meu menino é d’oiro», entre outros, e confesso o encantamento criado pela sua voz trémula e quente, que era, também, fruto do seu espírito original e sensível, voz que ora se arrastava numa dolorosa queixa, ora se erguia num grito de rebeldia e de protesto. O Zé Afonso, como outros preferiam chamar-lhe, era, sem dúvida, um estudante que cantava um fado novo que Coimbra nunca tinha ouvido.
Mas o Zé Afonso era, vi-o, depois, muito mais do que isso. Pessoalmente, encontrei esse quase-sósia canoro numa tarde de Agosto de 1956, a bordo do «Vera Cruz», a caminho de Angola. Ele viajava integrado à sua maneira (o Zeca nunca se integrou em nada) na Tuna Académica de Coimbra e o seu destino era navegar à roda da África para animar um vasto mundo de gente rica e culta que tinha decidido alugar o «Vera Cruz» para um périplo de África; eu viajava integrado no Orfeão Universitário do Porto, que seguia para Angola como agente de uma festa académica que tinha como missão apertar os nós dos laços de uma identidade lusotropical que se desejava duradoira. Cada grupo possuía a sua equipa de serenatas: a nossa era constituída pelo Rosa Araújo e o Costa Leite (guitarristas), o Hermenegildo Tavares e o Quartim Graça (violas); eram cantores o José Vitorino Santana, o Gameiro e eu. Do lado de Coimbra seguiam o Fernando Xavier e o Júlio Ribeiro (guitarristas), o Manuel Pepe e o Levi Baptista (violas); os cantores eram o Zeca Afonso e o Fernando Machado. Esse encontro fecundou uma amizade que estava destinada a crescer e que sem sobressaltos de percurso veio a ser muito grande e sincera.
Numa tarde de Agosto, quente, apesar de ser de cacimbo o tempo do calendário, o «Vera Cruz» deixou-nos no Lobito e seguiu a sua viagem, à roda do continente africano, levando consigo a «malta» de Coimbra.
Na verdade, não era fácil recusar tão espontânea, sincera e amiga sugestão; mas a minha vocação de aventura tinha asas mais curtas e, além disso, tinha duas cadeiras do meu quinto ano para fazer em Outubro; e as férias iam ser pequenas para pôr o estudo em dia. Sanado este breve desencontro, retomamos a marcha rumo ao Rivoli.
Este nomadismo, que era nele genómico, era uma das facetas que tornava visível a irrequietude do seu espírito! Mas foi, sobretudo, em Coimbra que convivemos e nos conhecemos melhor e que a nossa amizade cresceu e se radicou. O Zeca era, na verdade, uma criatura rara, de uma enorme originalidade: inteligente, culto, criativo e, ao mesmo tempo, bondoso e decifrável, era muito fácil gostar-se dele. Sempre que nos fins-de-semana o tempo era meu, lá ia até à velha cidade tratar do fado e das guitarradas, em correspondência a esse apelo primário que vinha da infância. E foi assim que muitos fins-de-semana passei na capital do Mondego, onde nos encontrávamos, ora na Baco ou nos lncas, ora em sua casa ou no seu verdadeiro lar, que eram as ruas de Coimbra. E foi assim que se desenvolveu, não uma estima superficial de convenções, mas uma amizade de gente nova, sem rugas, própria dos afectos simples e verdadeiros.
Além de cantar, o que nós conversámos! Os problemas de então, as preocupações humanísticas e sociais eram assuntos nunca calados nos nossos longos diálogos. O cristianismo e os seus valores, os compromissos que a dignidade humana implica; a coerência e a hipocrisia. Avessos a todas as tiranias, éramos, assim, apóstolos silenciosos de um mesmo credo. O Zeca era espontâneo, desacautelado e livre como se vivesse sozinho no Mundo!
Apesar dos anúncios iniciais premonitórios, que estiveram na origem da nossa aproximação, afinal, nós éramos muito mais irmãos pela inteligência interpretativa do mundo e pela confiança na bondade dos afectos, do que pela voz! Éramos mais parecidos calados do que a cantar.
O Zeca tinha sofrido a influência religiosa densa de uma tia «beata», que talvez tenha contribuído para que tivesse deixado, logo no limiar da adolescência, qualquer manifestação de prática religiosa, mas essa formação, que continuou a fazer parte do pavimento em que assentava como criatura, acompanhou-o até ao fim. Nunca rejeitou a essência daquilo que moldou a sua natureza inquieta e generosa e deu expoente aos seus valores sociais.
A convergência das nossas pessoas, sentenciada naquela noite de Inverno, nunca sofreu retrocessos ou foi posta em causa por qualquer acidente ou assintonia. Pelo contrário, foi tomando corpo, progressivamente, mais verdadeira e consciente. Quanto melhor nos conhecíamos, mais os nossos ideais batiam certo ao ritmo de um mesmo compasso. Não há dúvida de que social e humanamente assentávamos os pés num mesmo chão e que, no essencial, éramos guiados por uma bússola orientada para um mesmo norte. Menos ancorado nos valores tradicionais, o Zeca sempre foi mais solto e, por isso, vagabundo. Mas, se em alguma coisa divergíamos, era em pequeníssimos pormenores que se escondiam na espuma de certos comportamentos.
Subitamente, fui mobilizado para prestar serviço médico militar em Angola. Os três anos (de 1963 a 1966) que lá passei foram muito mais do que a interrupção fortuita de um convívio que sempre fora reciprocamente desejado. Nenhuma das minhas outras amizades sofreu com essa ausência forçada.
Quando regressei de Angola, fui reencontrar o meu Amigo Zeca em Vilar de Mouros, protagonista zangado de um extenso protesto, ora em prosa ora em verso, meio recitado, meio cantado e que tinha como objecto a história de Catarina Eufémia. A mudança senti-a, sobretudo, no abraço frio que me deu quando, no fim da longa catilinária, desceu do palco! Não me surpreendeu o seu entusiasmo pela causa abraçada. Alguém agarrou bem a sua generosidade disponível, o vazio criado pela sua bondade por realizar. Espantou-me, sim, que na sua mente independente e lúcida deixasse de haver lugar para a sublimidade poética que nos tinha feito muito amigos! Nem a poesia escapa a certas escorregadelas da lógica! Tão semelhantes e, contudo, o Zeca acabou por ser o símbolo de uma revolução que me expulsou da Universidade.
Serafim Guimarães
Na biblioteca de Saramago
2 de Agosto – data de nascimento de José Afonso
“Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientificamente não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debruçam sobre mim e a minha mãe…, tenho uma ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão.»Para José Afonso, que assim «revelou»o seu próprio nascimento a Luís Filipe Rocha, «tudo parte de uma luz indiferenciável, uma luz que invade tudo, que me penetra por todos os lados, não é? Progressivamente através dessa luz vou distinguindo uma ou outra figura. Tudo parte de uma luz branca, uma luz láctea. E não é uma luz do tipo hectoplasma ou transcendental. Pelo contrário, é uma luz imanente, uma luz muito vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite, estás a perceber? Que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo.»
Zeca a propósito da sua passagem pelo Algarve
Faro 1961 – 1964
José Afonso
Novos cruzados
Luiza Neto Jorge lembrando as suas deambulações em Faro com A. Barahona, Zeca Afonso, Bronze e Pité
Novos Cruzados
Sequiosos descem
seus corpos de esponja
a rolar na treva,
iates rompendo
à babugem da água,
caravanas caras
em fossados por
rochedos e hortas,
sedentos recolhem
cisternas, piscinas
sob o seu pendão,
e saqueiam, sangram
consagrados à
salvação do corpo
estes cruzados!
Luiza Neto Jorge



